"Governaremos para fazer o Estado custar menos aos cidadãos",despediu-se ontem à noite em Nápoles a patusca personagem que vem
fazendo as vezes de 1º ministro (lá diz-se Presidente do Conselho) em Itália.
Sim!, tá bem (já conhecemos essa conversa de gingeira), mas porque perdeu ele o sorriso?
Considerando o balanço esmagador do berlusconismo, cuja única coroa de glória é ter batido o recorde de longevidade governativa em Itália, perante o fiasco do famoso “Contrato com os Italianos” (de que o nosso “Compromisso Portugal” é uma cópia requentada), uma multidão dos diversos grupos que tradicionalmente votam à esquerda vem reclamando um “Sobressalto Cívico” para apear o aldrabão, pantomineiro e Vigarista do Poder. Esta capacidade de mobilização apartidária tendo em vista desfazer determinados objectivos do Poder, parece estar a confirmar a teoria de António Negri expressa em "Império" e em"Multidão" como uma ferramenta chave no desencadeamento de acções de contrapoder. "Bu Po Bu Li" (destruir para reconstruir) como diz o provérbio chinês, parece estar à mão da nossa iniciativa. Parece!?, porque sobre o depois dos vendavais aparentes que agitam os cogliones,,, porém, as coisas são bem mais complexas,,,

Quem ouvir Berlusconi não o leva preso (porque corrompeu de tal forma a Justiça que as leis em vigor não se lhe aplicam): reinvidicando grandes reformas nestes últimos cinco anos disse que apenas “Napoleão tinha feito mais que do que eu” (no dia seguinte no programa “Matrix” comparava-se com Churchill e dois dias depois com Jesus Cristo) – Segundo o ISTAT o desemprego efectivamente baixou, passando de 9,2% para 7,1% mas esta deminuição resulta essencialmente da regularização de 640 mil trabalhadores imigrantes até então ignorados pelas estatísticas, da retirada do mercado de trabalho de pessoas desencorajadas e do aumento do tempo de actividade dos maiores de 50 anos. Os níveis de crescimento do produto interno são miseráveis como em qualquer economia que seja obrigada a pagar as guerras alheias (fazendo-as nossas) onde os esforços de investimento são concentrados. Segundo o Banco de Itália a taxa de crescimento em 2001 foi de 0,3%, em 2004 era de 1,2%, mas o ano passado baixou de novo para 0,4%, pelo que, se descontarmos a inflação galopante os prejuízos são de facto bem maiores do que aqueles que nos querem fazer crer. (A mesma lógica se aplica aos governos dos amigli Barroso -Santana -Sócrates). A produtividade aumentou 0,1% em 2002-2003 e 0,7% em 2004, mas baixou 0,7% em 2005 contra um crescimento médio de 1,7% da anterior legislatura de centro-“esquerda”. Mas a contenda acaba por ser resolvida com as declarações do todo-poderoso patrão da confederação Cofindústria, Luca Cordero di Montezemolo, que apoiou o líder neoliberal em 2001, quando declarou que “é necessário reconstruir a Itália porque a situação da economia é dramática”. O país apresenta o terceiro maior endividamento público do Planeta (imaginem junto com quem?), superior a 1,5 biliões de euros: 106 por cento do PIB, e até mesmo 109 por cento já em 2006. O défice público este ano deverá ultrapassar os 4%. O país padece de uma perda de credibilidade económica e financeira, agravada pelo escândalo da contabilidade fraudulenta do grupo agro-alimentar Parmalat e pela demissão forçada do governador do Banco de Itália, António Fazio, suspeito de ter apoiado uma contra-OPA a favor de um outro banco italiano. (Também aqui o modelo e o mesmo remédio é importado, tardiamente, para tentar salvar a economia portuguesa). As medidas tomadas ou propostas por Berlusconi, de diminuição de impostos sobre o rendimento e sobre as empresas, aumentos de pensões, abono de família de 100 euros para os recém-nascidos, resultam na completa degradação das contas públicas, acompanhada por uma forte evasão fiscal – segundo a CENSIS, os valores subtraídos ao fisco foram estimados em 2004 em 200 mil milhões de euros, ou seja, cerca de 46 euros escondidos por cada 100 declarados. (Portugal reconhece existir uma economia paralela de 20% mas os valores reais ultrapassam os 30%, com tendência para aumentar na medida em que se implementem as negociatas com Angola). Para a Direita, politicas sociais e politicas económicas são dirigidas de igual forma Empresarial no sentido de derrubar o Estado Social (incluindo a Justiça e os magistrados,claro está), e para este tipo de gestão a privatização dos lucros e a socialização das despesas, ou seja, os défices públicos, são danos colaterais. Berlusconi, numa das suas boutades, definiu-se a si mesmo: “para fazer este trabalho é necessário ser mentalmente perturbado e…antropológicamente diferente do resto da raça humana” (sic).
Uma das primeiras guerras contra o Estado d“Il Cavalieri” foi o famoso “anátema búlgaro” lançado contra dois jornalistas da RAI, Enzo Biagi e Michele Santoro, e contra o apresentador Daniele Luttazi, afirmando que eles faziam um “uso criminoso da televisão pública paga com o dinheiro de todos”: A lei “Gasparri” autorizava a privatização e o desmembramento da RAI, no entanto este propósito não pôde ser realizado por via da oposição da Comissão Parlamentar de Vigilância que impediu o desmantelamento da Alta Autoridade para o Audiovisual. (Procure-se afinidades com o processo conduzido entre nós por Morais Sarmento e os desenvolvimentos subsquentes). Paralelamente a Lei reforçou o “grupo Mediaset”, do qual Berlusconi é accionista maioritário, pela transferência de audiências e receitas publicitárias, oferecendo-lhe uma margem de crescimento potencial de 1 a 2 mil milhões de euros (entre nós o beneficiário foi o grupo Impresa do todo poderoso ex-presidente-e-ministro Pinto Balsemão, testa de ferro em Portugal do grupo Bilderberg). O próprio Parlamento Europeu criticou o “sistema italiano que apresenta uma anomalia que reside na reunião de um poder económico, politico e mediático nas mão de um só homem”
Se o balanço do berlusconismo politico é objecto de polémicas, o do berlusconismo empresarial apresenta-se sem ambiguidades. Desde a sua entrada na politica em 1993, o valor do seu património familiar triplicou, passando de 3,1 para 9,6 mil milhões de euros. O valor em Bolsa da filial televisiva Mediaset quase duplicou em 1996, e a venda em 2005, de 16,6 por cento do seu capital permitiu, por si só, um encaixe de 2,1 mil milhões de euros líquidos. Em onze anos, os dividendos do “grupo Fininvest”, propriedade da família Berlusconi, atingiram cerca de 700 milhões de euros, ou seja, um lucro médio mensal de 5,3 milhões de euros, que aliás duplicou em 2005. Classificado pela revista Forbes como a vigésima quinta fortuna mundial, o “Cavaliere” seria, segundo o Financial Times, o quarto homem mais poderoso do planeta. Porque ele combina um triplo poder, que nenhum outro dirigente no Ocidente detém: politico, mediático e económico. Mas o berlusconismo, encarnação desta santíssima trindade, poderá ainda fazer sonhar a maioria dos italianos? – claro que não.Passe-se o que se passar com a caricata complexidade dos votos dos "Cogliones", o Poder ficará onde está – e não será Prodi com o saco de gatos dos 11 partidos que formam a coligação de “esquerda” atrás, que o vai desalojar. Nem tampouco Romano Prodi está interessado nisso,,, apenas em gerir e administrar os danos num sistema alterado e desenhado constitucionalmente por Berlusconi para ser governado pela maioria de Corruptos, sem qualquer possibilidade de ferir o essencial.

* A espinha dorsal e os dados constantes neste post seguem o artigo de Pierre Musso publicado na edição portuguesa de Abril/06 do "Le Monde Diplomatique" (sem link)
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