Karl Marx
A incursão americana do “artista maior da Revolução Mexicana”, Diego Rivera, na década de 30/40, despoletou os fantasmas que afinal sempre estiveram por trás da “revolução americana” na “pátria da liberdade” – depois do acto de Censura primordial da iniciativa privada no Rockefeller Center, imposta a Rivera – os gangs da Finança, do Controlo dos Media e da Politica que sempre parasitaram a órbita do Poder nos Estados Unidos mostraram as garras no período mais vergonhoso da sua história (antes de Bush) – a perseguição a quem tivesse a mais leve simpatia pelas ideias Socialistas – a caça às bruxas, que ficou conhecida por McCarthismo. Aí se notabilizou como bufo, um obscuro actor de série B de Hollywood: Ronald Reagan.(O nerd de ontem é o homem feito dos dias actuais) Se assim foi na politica e na comunicação social, cuja captura pelos atrás citados gangs, ficou magistralmente registada por Orson Welles (um dos perseguidos) em “Citizen Kane”, na Economia, as ideias do lord inglês Keynes ainda se reclamavam do Socialismo, do pleno emprego e de outras tretas impossíveis de serem atingidas através de um sistema de facto capitalista. Ao contrário, a concentração monopolista,,, a luta pela supremacia no controlo dos mercados, como Marx havia previsto, levaram as potências com aspirações imperialistas ao confronto na 2ª grande guerra.
Cada manhã, para ganhar o meu pãoVou ao mercado onde se compram mentiras.
Cheio de esperanças
Entro na fila dos vendedores
(Bertold Brecht, 1898-1956)
A teoria de Lorde John Maynard Keynes e a sua aplicação prática pelos americanos, de facto canibalizava o Marxismo, apropriando-se dos seus fundamentos e até do seu léxico, dando-lhe uma volta de 180 graus, não distinguindo valor de uso e valor de troca, na filosofia que esteve na base do consumidor consumido, devorado, alienado pelo capitalismo selvagem. Mas, ao mesmo tempo que se diabolizava o utópico “comunismo” e se denegria a intervenção planificada do “centralismo de Estado” soviético, como cerceador das liberdades, Keynes advogou qualquer coisa de similar: os “investimentos de Estado” e a sua intervenção como motor para a saída da grave recessão iniciada em 1929, que neste caso, surpreendentemente, já geravam “liberdade” (!), factor qb efectivamente criado pela máquina da propaganda.
Na compita, a corrente que levou Hitler ao poder na Alemanha também se reclamava do socialismo: o “nacional-socialismo”. Estaline, em nome do mesmo ideal, em 50 anos, na URSS, construiu através duma industrialização pouco menos que selvagem, o contrapoder de Superpotência capaz de se opor ao Imperialismo americano, em luta pela expropriação no exterior dos vultosos investimentos de que necessitava para construir o seu “Estado Social”.
Como se vê, a guerra de sempre, é uma guerra única: a guerra fria a favor e contra o Socialismo. Mais ou menos contabilizados, com muitas mentiras e manipulações de permeio, estão os prejuízos causados pela duas correntes que entretanto “desapareceram” da história oficial - falta fazer o balanço das vitimas do actual Poder imperial – que, passando por cima das “décadas de ouro” assentes na pilhagem do 3º mundo, vamos hoje reencontrar nesta curiosa entrevista da russa Natália Narochnitskaya à “Reseau Voltaire”.“A retórica ocidental da democratização é um ressurgimento do pensamento trotskista”
“A retórica dos EUA da democratização global esconde ambições estratégicas antigas. Washington prossegue os objectivos do Império britânico na sua forma de controlar a Europa, de prejudicar a Rússia e de dominar o mundo, assegura Natália Narochnitskaya, vice-presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Duma, numa entrevista com a “Rede Voltaire”. Natália Narochnitskaya é historiadora, membro do Instituto de História da Academia das Ciências da Federação Russa. É deputada do partido Rodina na Duma, onde ocupa as funções de vice-presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros. Tem também assento na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e ainda edita a revista Russian Analytica”.
Rede Voltaire: A administração Bush reorientou o essencial dos recursos financeiros federais para o desenvolvimento das suas Forças Armadas, em detrimento das despesas sociais. A Estratégia de Segurança publicada pela Casa Branca elege o terrorismo internacional como principal inimigo. Contudo, no mesmo momento, num artigo publicado pelos Negócios Estrangeiros, o Conselho das Relações Externas evoca a possibilidade de um primeiro ataque nuclear americano contra a Rússia. Na sua opinião a que inimigo os EUA devem fazer face?
Natália Narochnitskaya: O maior inimigo dos EUA é o seu pseudo-universalismo político. Retomando uma longa tradição apresentam-se como a “Nação Redentora” {Redeemer Nation}. Já no fim da Primeira Guerra Mundial, o presidente Woodrow Wilson tinha chocado o presidente da Conferência de Versalhes, o francês George Clemanceau, afirmando, que os EUA tinham tido a honra de salvar o mundo.
Como na época da III Internacional Comunista, eles sonham impor um modelo ao mundo, sem atenderem a outras formas de civilização. Em vez de procurarem a harmonia na diversidade, pensam a humanidada em termos simplistas. Ignoram a dúvida cartesiana e as angústias de Hamlet e contentam-se com o Rato Mickey.
Condoleezza Rice exprime-se com a mesma segurança que Nikita Kroutchev na tribuna do Comité Central do PCUS. Ela ignora os fracassos económicos e militares do seu país, para prometer ao mundo um futuro radioso. Contudo o seu sistema está em falência. Imprimem montanhas de papel-moeda, para colmatar deficits abissais. Usando o dólar de forma enviesada, fazem os seus aliados pagar as suas despesas, como outrora o Império Romano colectava impostos nas suas províncias. Os seus exércitos sofrem derrotas quotidianas no Afeganistão e no Iraque, enquanto Cuba, a Venezuela e a Bolívia se insurgem vitoriosamente contra o seu imperialismo na América Latina. Este é muito pesado e vai-se esgotando, mas eles são os últimos a tomar consciência.
R.V.: Este comportamento dos EUA, ainda que enraizado na doutrina do “Destino Manifesto”, não é novo em muitos aspectos? Devemos ver aí a influência de políticos e jornalistas saídos da extrema-esquerda como Paul Wolfowitz e Richard Perle?
N.N.: Tem razão. Não se trata só da adesão dos trotskistas ao Partido Republicano, mas de uma continuação do marxismo científico pelos neo-conservadores. Persistem as mesmas estruturas de pensamento. Aliás é por isso que os nossos aparatchiks se adaptaram tão bem aos seus novos padrinhos americanos. Sentem-se espontaneamente à vontade com esta retórica.
Durante a guerra ideológica {Guerra Fria}, devíamos aprender um catecismo. À pergunta “Que época estamos a viver?”, devíamos responder “Num período de transição do capitalismo, para o comunismo.” Hoje os dirigentes e os jornalistas ocidentais pensam e falam com o mesmo simplismo. Só substituíram uns slogans por outros. Se lhes fizer a pergunta “Em que época vivemos?”, responderão com o mesmo automatismo “Num período de transição do totalitarismo para a democracia”. Este universalismo de pacotilha, quer se exprima em termos marxistas científicos, quer em termos neo-conservadores, vai a par com um super-globalismo. Todas as diferenças devem desaparecer e o mundo deve ser governado por um organismo único.
R.V.: Você pertence a um partido político, o Rodina, que a imprensa ocidental denigre qualificando-o de “nacionalista” e hoje, o seu país é apresentado como um obstáculo à democratização dos novos Estados da Europa de Leste e da Ásia Central. Qual é a sua concepção de universalismo?N.N.: Reconhecer as aspirações comuns ao género humano, não é negar as culturas. A Federação Russa deve contestar esta filosofia política. Temos legitimidade, para propor uma coabitação de identidades.
A nossa federação é euro-asiática. O nosso símbolo é a águia de duas cabeças. Desde há séculos que somos simultaneamente Europeus e Asiáticos, Russos e Tártaros, cristãos e muçulmanos. Hoje somos maioritariamente Russos ortodoxos, mas na época medieval fomos Asiáticos convertidos. Isto não é uma resposta dilatatória, mas uma realidade indiscutível que formou a nossa identidade. Na época em que a Rússia era um Estado religioso, deslocámos a nossa capital da Europeia S. Petersburgo, para a Euro-Asiática Moscovo em homenagem aos Tártaros e aos Caucasianos que nos tinham defendido. Os seus chefes foram nobilitados. Não eram tratados como colonizados, mas sim como iguais dos aristocratas russos. Tinham até servos russos .Os Anglo-Saxões nunca foram capazes de aceitar isto. Consegue imaginar Lords indianos com criados ingleses?
R.V.: Se para si o projecto de democratização global é um embuste, como analisa a política externa dos EUA?
N.N.: A política externa dos EUA é anglo-saxónica. Ela prossegue, sob uma roupagem modernizada, a política do Império Britânico. É um expansionismo obcecado com os estreitos marítimos. Uma primeira linha de penetração parte dos Balcãs até à Ucrânia, para o controlo do Mar Egeu. Uma segunda linha parte do Egipto até ao Afeganistão para o controlo do Mar Vermelho, do Golfo Pérsico e do Mar Cáspio. Nada há de novo nesta estratégia, a não ser a cartada petrolífera que a relançou.
R.V.: Como explica que a União Europeia tenha embarcado nesta estratégia que serve unicamente os interesses anglo-saxões?
N.N.: É uma cegueira colectiva. Uma espécie de vingança dos Habsbourg e de Napoleão. Os europeus nada ganham e tudo perdem neste esquema. O único meio para a Europa Ocidental continuar a ter um papel político de primeiro plano na cena mundial, é uma aliança com a Rússia. Torna-se muito fácil devido à nossa proximidade cultural, muito mais vincada que a proximidade com os anglo-saxões.
R.V.: Está bem. Contudo os Europeus nada ganham trocando a suserania de um imperialismo, para caírem subitamente noutra.
N.N.: Vocês subestimam-se. Nós não somos uma potência belicista. Não procuramos o confronto com ninguém e sobretudo com os EUA. Como vocês, nós queremos tomar livremente as nossas decisões e ter boas relações com os EUA.
Além disso é do nosso interesse sermos pacíficos. A nossa economia não nos reclama guerra. E na situação actual, uma potência forte e pacífica será sempre mais atractiva que uma outra belicista. O mundo é interdependente e chegou o momento de reencontrar o equilíbrio das potências.

R.V.: Permita-me voltar à questão da adopção pelos Europeus da política estrangeira anglo-saxónica. Como analisa o empenho da NATO na Jugoslávia?
N.N.: A política anglo-saxónica para o continente europeu é um perpétuo vai e vem entre estes países, a França e a Alemanha. Sempre se apoiou alternadamente num e noutro para combater a Rússia e empurrou-os para um conflito entre eles para os enfraquecer. A política da NATO é baseada numa aliança dos Anglo-Saxões com a Alemanha. As adesões à NATO vão sendo feitas segundo o mapa das ambições do Kaiser Guilherme II {NataliaN. mostra um mapa alemão de 1911 que infelizmente não pudemos fotografar}. É a continuação da política de Benjamin Disraeli aquando do Congresso de Berlim, em 1878. À época, os Ingleses obrigaram-nos a rever o Tratado de San Stefano. Tinham criado artificialmente Estados Balcânicos para satisfazerem a Alemanha. Separaram populações miscigenadas para criarem Estados étnicos e além disso decidiram criar uma colónia judaica na Palestina. De igual forma a NATO pulverizou a Jugoslávia para aí acabar com os vestígios do Bloco Soviético. Criou artificialmente Estados étnicos. Acaba de recriar o Montenegro de 1878 e, em breve, o Kosovo.
Nesta estratégia a Alemanha é um joguete, um Estado com soberania limitada. Existe com efeito um Tratado Alemanha—EUA, imposto à Alemanha de Oeste {Federal} durante o período de ocupação pós-Grande Guerra e que não foi revogado na altura da reunificação. Este tem cláusulas secretas que subordinam as políticas externa e de defesa alemãs à boa vontade de Washington. Estas cláusulas só foram publicamente accionadas na Guerra do Kippour (1967). Os EUA fizeram uma ponte aérea para apoiar Israel contra os Árabes. Para isso utilizaram as suas bases aéreas instaladas na Alemanha. Quando Walter Scheel se opôs fazendo valer a neutralidade alemã no conflito, Henry Kissinger pô-lo no seu lugar. E a Alemanha cedeu.
R.V.: Acha que a Federação Russa pode abalar o domínio mundial anglo-Saxão?
N.N.: Para retomar a célebre frase do Príncipe Alexandre Gortchakov, “A Rússia recolhe-se”. Nós modernizamos a nossa sociedade. Nós erguemos a nossa economia. Nós preparamo-nos.
Entrevista realizada em 1 de Junho de 2006
Tradução de Maria de Lurdes Delgado, do original publicado pelo site Reseau Voltaire
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