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quinta-feira, outubro 26, 2006

reflexões sobre o Orientalismo, de Edward W. Said

passa hoje na Casa da Música o grupo “Nómadas do Rajastão” uns patuscos exóticos que insistem na ideia de ser auto-suficientes. Teremos alguma coisa a aprender com eles? Numa altura em que, por exemplo, n` “A Vida Nova” do recém premiado Orhan Pamuk se continua a insistir no “nóbel entre duas culturas", é bom que fique claro que entre o “oriente” e o “ocidente” só existe a vontade deste último em se afirmar como uma ideia de identidade universal. Infelizmente, a noção de “Oriente é inventada – existem miríades de culturas. O que nos devolve a necessidade de averiguar se, entre as diferentes classes sociais que culturamente compõem o “ocidente”, os objectivos deverão ser homogeneamente os mesmos.


Em “Estudos do Exilio” – Karl Marx (1853) sobre o governo britânico da India, Marx identificou a noção de um sistema económico asiático, acrescentando-lhe de imediato a degradação humana introduzida pela interferência colonial, pela sua voracidade e aberta crueldade. Marx tinha a ideia muito própria de um “ocidental”de que, mesmo destruindo a Ásia, a Grã-Bretanha estava a tornar possivel uma verdadeira revolução social. Havia então uma dificuldade em conciliar a nossa natural repugnância, entre criaturas semelhantes, pelo que sofrem os “orientais” com a violenta transformação da sua sociedade e a necessidade histórica dessas mesmas transformações.

Passavam pouco mais de100 anos quando saiu “Calcuttá” de Louis Malle (1969) uma visão moderna da Índia que causou escândalo, levou à proibição do documentário em Inglaterra e por pouco não provocou um conflito diplomático deste país com a França. Malle mostrava em directo e sem filtros a visão de Marx com a agravante de o cenário ser a degradada Calcuttá, cidade portuária artificial construida de raiz pelos ingleses como entreposto comercial no “oriente” para veicular a troca de mercadorias introduzidas a martelo em “novos mercados” e a pilhagem de retorno dos recursos locais. Como se sabe, a “jóia da Coroa” foi o valor sobre o qual foi fundada a acumulação capitalista que permitiu às manufacturas a saída para o modelo de exploração ultramarina e colonial, dele saindo directamente o fausto da idade Vitoriana, que roeu de inveja toda a aristocracia europeia e permitiu aprofundar a industrialização.

Deve esta tortura atormentar-nos
Uma vez que nos traz maior prazer?
já que ela nosso proveito aumenta?
Não foram, pelo governo de Timur,
Almas sem conto devoradas?
Goethe

Incómodas, as palavras de Marx continuam actuais:
“Ora por revoltante que seja para o sentimento humano testemunhar essas míriades de organizações sociais patriarcais e inofensivas, desorganizadas e dissolvidas nas suas unidades, mergulhadas num mar de infortúnios, e ver os seus membros individuais a perder ao mesmo tempo a sua antiga forma civilizacional e os seus meios hereditários de subsistência, não devemos esquecer que essas idilicas comunidades de aldeia, por mais inofensivas que possam parecer, sempre foram o sólido fundamento do despotismo oriental, capazes de restringir a mente humana à minima amplitude possivel, transformando-a no instrumento domesticado da superstição, escravizando-a soba as regras da tradição, privando-a de toda a grandeza e energia histórica (...). A Inglaterra, é verdade, quando provocou uma revolução social no Industão foi estimulada apenas pelos interesses mais vis, e foi estúpida na forma como os impôs. Mas não é essa a questão. A questão é de saber se a humanidade pode cumprir o seu destino sem uma revolução fundamental no estado social da Ásia. Se não puder, quaisquer que tenham sido os crimes cometidos pela Inglaterra colonial, ela foi o instrumento inconsciente da História que deu origem àquela revolução”.

Os americanos estudaram bem a mensagem de Marx para melhor a poder neutralizar: “a Inglaterra tem a cumprir uma dupla missão: uma destrutiva, outra regeneradora – a aniquilação da sociedade asiática e a instalação dos alicerces materiais da sociedade ocidental na Ásia”. Depois das guerras da Coreia e do Vietname, com a parte da destruição em concreto cumprida, apesar da derrota, o objectivo de Lord MaCaulay expresso na “Minuta”(1835) - “os nossos súbditos nativos têm mais a aprender connosco do que nós com eles” – continua hoje a prevalecer, apesar dos sucessivos fracassos que culminam nos actuais desastres do Afeganistão e do Iraque na trajectória para a imposta destruição de toda a região por razões de mercado.

“A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la àqueles que têm uma compleição diferente ou narizes ligeiramente mais achatados que os nossos, não é uma coisa bonita de se ver, quando demasiado observada. Só a ideia a redime. Uma ideia por detrás dela; não um pretexto sentimental, mas uma ideia – coisa que podemos instalar, e diante da qual podemos curvar-nos, e à qual podemos curvar-nos, e à qual podemos oferecer sacrificios(...)
Joseph Conrad, in “O Coração das Trevas

Foi-me incomodativo ver ontem o professor Eduardo Lourenço ("o Esplendor do Caos") e o Cavaco, supremo comandante das forças militares portuguesas da Nato, debaixo do mesmo tecto – na Fundação Gulbenkian, inaugurando a conferência “Que valores para este tempo”.
Esse tecto não é cedido graciosamente. Ainda recentemente foi adjudicada aos interesses empresariais da Gulbenkian a exploração de um bloco petrolifero na costa angolana. E tudo aquilo que se tira de lá aproveita à tarefa de serem os próprios explorados a financiar as ideias com que irão ser oprimidos.











Talvez por isso fosse útil enviar este post para estudo na Gulbenkian conferenciaG06@gulbenkian.pt
na medida em que o caminho dos nóveis capitães Marlow se depara cada vez mais tortuoso e abjecto.

prometo voltar são e salvo
depois de os foder a todos!

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