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sexta-feira, março 31, 2006

o Triunfo do irracional à solta!


a propósito do remake da rábula dos 6%

“Por todos os cantos se escuta a lamúria do défice, preocupação maior dos responsáveis ou dos candidatos a responsáveis. Mas o défice aflitivo é outro, de bem diversa natureza: é o ético-moral traduzido na banalização da desonestidade, na desvalorização do carácter, da bondade, do altruísmo, das convicções genuínas, da racionalidade estratégica, do esforço. O mais preocupante já não é a crise de valores, mas sim a qualidade de valores que se promovem. Eis o que mais nos deve afligir; porque esta carência é das profundezas: habitual sintoma de intensa crise civilizacional. Mas os que exercem funções de mando, insistem em focar a atenção no défice económico-financeiro, dizendo serem os cortes orçarmentais necessidade imperiosa, mas logo tolerando escandaloso dispêndio de milhões em multa por recorde de poluição na nossa capital. Triunfo do irracional à solta!
O antes dito exemplifica a meia verdade, característica do discurso dominante. Essa que resvala para a pura mentira. Constrói-se multi-cascatas de meias verdades, indutoras do irracional e da confusão. Apregoa-se a democracia que temos - a real-como sendo a única concebível, o melhor regime possível. Assim se estabelece a mágica unidade entre a democracia e o capitalismo. Falácia acrescida desta outra: a democracia esgota-se na democracia política. Em paralelo, é avançada a ideia de que o progresso e o bem-estar só podem germinar a partir desse único regime: a democracia real; em que o cidadão escolhe em liberdade representantes, assim se tornando efectivo condutor da sua existência. Silencia-se o efeito da manipulação, da demagogia - a que gosto de chamar efeito Iago-, a influência determinante de sociedades secretas ou semi-secretas (Grupo de Bilderberg); oculta-se ainda o efeito devastador da ignorância, da incultura, da falta de informação, da infinitude da estupidez.
Mirífico conjunto de meias verdades, cada vez mais metamorfoseadas em puras falsidades, através das quais o discurso dominante semeia confusão – elemento essencial à manutenção de dependências, desigualdades e poderes discricionários. Monumental engano, de esquerdas e direitas, o ter longamente acreditado que o Zé livre eleitor sempre votaria de acordo com os seus interesses, assumindo poder real. Ilusão pensar-se ser a boa organização social efeito directo do regime, pois nenhum regime é bom se a todos os níveis a vara do mando não estiver depositada nas mãos dos que revelem qualidade de elite. Essencial para que haja progresso é existirem boas elites; e essas constroem-se investindo em actividades que, como notou John Stuart Mill, se podem desenvolver indefinidamente: a educação, a busca racional do conhecimento, a cultura, as artes, os desportos. É ilusão supor que a democracia real, estribada nas falácias de que a maioria tem sempre razão e de que o voto de um ignorante vale sempre o mesmo do que o de um sábio, irá melhorar o mundo.
Há uma evidência consensual mas disfarçada: a necessidade de forte redução da pressão ecológica (decrescimento). Para isso a racionalidade tem que se sobrepor à irracionalidade proliferante. A democracia real só agrava a situação. A redução da pressão ecológica só se poderá operar fora do capitalismo. Urge que a Razão humana invente novo sistema e regime. Este será necessáriamente eco; mas o risco de ecototalitarismo é real. Criar o que baptizo de “ecoparticipadorismo antitotalitário (ecoparticipadocracia)” é inadiável missão do racionalismo político de esquerda”.

João Maria de Freitas Branco, autor deste texto, que escreveu isto antes das presidenciais perguntava então:
“Poderá vir de Belém alguma Luz preferencial?”
Nicles. Duvido até que, se o novo inquilino, por mero acaso alguma vez lesse isto, compreendesse do que é que se tratava.

quinta-feira, março 30, 2006

no World Park

visita-se o Mundo inteiro sem sair de Pequim (sinopse e criticas, aqui)

“Conhecem o Portugal dos Pequeninos, em Coimbra? Pois talvez não saibam que em Pequim tambem há um. Bom, não é dos pequeninos nem da China. É dos granditos e do Mundo. Um World Park onde, em 46,7 hectares, coexistem, à escala reduzida, 106 dos mais famosos monumentos de dezena e meia de paises e regiões do planeta – da Torre Eiffel à Praça de São Pedro, da Torre de Pisa ao Big Ben, das Pirâmides do Egipto (com camelos e tudo) às Torres Gémeas (“elas já não existem, mas nós temos as nossas” – dirá uma personagem)”
Rodrigues da Silva, (no JL) remata a sua critica ao filme de Jia Zhang-Ke citando a frase de François Truffaut “quem ama a Vida vai ao Cinema”, metáfora das nossas vidas virtuais de anónimos seres humanos de telemóvel em punho enviando sms, ligados a um computador, viciados em jogos de video ou musica electrónica, condenados a um universo globalizado na era digital tambem ele virtual, onde, de um modo ou de outro, hoje cabemos todos. São mundos que não são fisicos e que não podem ser ignorados. E que se conectam aqui e ali com o mundo real.
O mundo para as personagens de “The World” não é o mundo, mas o tal World Park, o que permite que as personagens mudem constantemente de “país” (isto é, de cenário) sem nunca sairem do mesmo sítio. (há mesmo uma companhia aérea – Cinco Continentes – que não voa; tem aviões, hospedeiras para acolher os “passageiros”, mas pronto, tal como tudo o mais no World Park, é virtual). É nesta disneylandia que evoluem uma série de personagens de carne-e-osso, com os seus anseios e as suas frustações – bailarinas (o World Park tem musicais, também eles por paises), seguranças, operários. Todo o mundo n’O Mundo, o qual, se se concentra no World Park, dispersa-se por aqueles que, para atracção dos turistas, o mantêm em movimento. Chinese claro, oriundos da provincia, jovens empregados subalternos para quem Pequim constituiu o Eldorado que se revela uma desilusão. Tanto maior quanto é certo que o dia-a-dia desses funcionários os leva constantemente a dar a volta ao mundo se nunca sair de Pequim, como melancólicamente dirá uma personagem. Ora esse mundo distante é a ambição de quem trabalha no Mundo. O que se explica: a partir do momento em que, embora sob ditadura “comunista” os bens de consumo se tornaram o simbolo do progresso e do bem estar, é óbvio que as pessoas os desejam. Enquanto sonham com os niveis de consumo das parises e nova-iorques que nunca terá nem onde nunca irão. Outrora eram camponeses e talvez acreditassem no comunismo; agora já não acreditam em nada; São meras peças de uma engrenagem que lhes garante a sobrevivência, na visão crítica do realizador que é um “dissidente” na nova vaga de cineastas consentidos pelo governo chinês. O percurso inverso também é possivel.Quantos de nós não foram já em visitas de lazer a destinos exóticos onde personagens ficticias macaqueiam os folclores locais para turista ver?

Portanto, a diferença fundamental dos personagens deste filme para o espectador ocidental é a de que eles, regra geral, não mudam de sítio, (e neste apecto o Partido Comunista da China presta um inegável serviço à Humanidade) enquanto nós, aos que se conseguem alcandorar a niveis de maior previlégio, somos livres de ir larear a pevide para “destinos de sonho”; de sonho para os que vão daqui, não para os locatários desses lugares ideais, onde a vida fora das cercas de arame farpado e muros dos luxuosos resorts de luxo é um pesadelo.
Numa altura em que se assiste a uma crescente tendência para os nacionalismos económicos, onde cada vez mais se invocam leis de protecção aos mercados internos nos nossos paises mais desenvolvidos, isto traz a debate a diferença de conceitos de mobilidade, quando também as leis laborais se pretendem que sejam liberalizadas equiparando homens e mercadorias. ¿Será a globalização um conceito “definitivo” de desenvolvimento? Ou no outro extremo, como advogam os defensores da altermundialização, fará mais sentido produzir localmente e consumir localmente “homens e mercadorias”? – a escolha parece fácil - pela opção de uma regulação mundial que planifique a produção sob a égide de um organismo supranacional com preocupações ecológicas que imponha limites aos desvarios do tipo de consumismo anárquico e criminoso predominante.
Parece evidente que a sobrevivência do comércio mundial, depende do estabelecimento de condições de equilíbrio das balanças externas dos participantes. É claro que para alguns poucos, que sabemos bem quem são, o comércio externo, regulado pelo instrumento de dominação que é a OMC, e a liberalização não são mais do que as capas para uma exploração desavergonhada. A existência de equilíbrios íria estragar o carácter predatório do comércio externo, impedindo o saque das economias mais frágeis.
Sabemos que o sucesso dos predadores depende deste sistema de trocas desiguais, principalmente desde que os símbolos do World Trade (traduzido literalmente por Torres do Comércio Mundial, o que muitas vezes é esquecido) explodiram a bem da tomada de iniciativas de retoma do à época semi-falido sistema global.













* propostas alternativas:
"Economia solidária, fundamento de uma globalização humanizadora"
ATTAC - FSM Mumbai

quarta-feira, março 29, 2006

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua"

Eugénio de Andrade, Requiem a Pier Paolo Pasolini, 1977













A propósito da retrospectiva integral da obra de Pasolini em curso na Cinemateca Portuguesa, e do premonitório titulo da ultima obra, "Petróleo", que não chegou a concluir, trinta anos atrás.

terça-feira, março 28, 2006

Claramente NÂO!, entenderam?!

Jornada de mobilização geral contra o CPE em França. Transportes Sindicatos e Escolas com grandes adesões.

Estudantes da Censier (uma das 67 universidades parisienses em Greve) debatem as suas reivindicações e formas de luta: a experiência e a ciência, unidas na vontade de transformar a vida!

A Periferia contra a rua: uma {di}visão política

(um testemunho de Paris, a partir do blogue de Guy Birenbaum)

"Ontem, cerca das 16h, passei a pé nos Invalides, 2h antes dos confrontos parisienses. Tudo estava preparado no “teatro das operações” para que o fim da manifestação degenerasse, como aconteceu ontem à noite.Eu explico.À direita, olhando a Esplanade, todas as equipas das televisões satélites com os seus camions satélites instaladas, prontas a filmar os incidentes {vejam a CNN, por exemplo…} Ao fundo na ponte Alexandre III centenas de CRS (policias de Choque), bem visíveis.
À esquerda, todas as ruas perpendiculares ao boulevard des Invalides {Grenelle, Varenne, Oudinot…} barradas por verdadeiros Robocops particularmente impressionantes. Espalhados nas imediações polícias à civil prontos a intervir. Claro, que a Esplanade des Invalides é evidentemente um lugar ideal, para uma dispersão, mas é igualmente propício à cacetada. Tenho aí, algumas recordações pessoais, principalmente de 1986…O problema, é que tendo sido a vinda dos “vândalos” encapuçados evidentemente prevista pelos Serviços de Informações, não compreendo, porque foi preciso esperar tanto tempo pela intervenção da polícia. Os sindicatos da polícia explicavam ontem que não quiseram arriscar ferir os – verdadeiros- manifestantes. Não sou perito na manutenção da ordem pública e é um argumento aceitável. Mas sou certamente interpelado pelas imagens que vi e, sobretudo, incomodado pelo que elas deixam aperceber. Pergunto-me, com efeito, se deixando, num primeiro momento, os manifestantes à mercê do linchamento e do roubo as”autoridades” não visariam introduzir uma divisão social entre os gentis manifestantes –bem brancos- e os cruéis “vândalos”, na sua maioria saídos da imigração. Em todo o caso é este o sentido de todos os comentários vistos e escutados, ontem à noite nos telejornais e esta manhã nas rádios. Esta representação da situação é falaciosa. Esta {di}visão não reflecte a realidade. Havia jovens saídos dos bairros mais problemáticos na manif e os mais afectados pelo CPE, são eles evidentemente. Não seria preciso pois que “eles” {media e políticos}, nos viessem explicar que “os subúrbios desceram, para partir tudo como em Novembro”… Sim, “os subúrbios desceram”, eram maioritários na rua, no cortejo. Quanto aos grupos móveis e treinados de “vândalos” encapuçados, são os mesmos “sacanas”, que ameaçam vizinhos todos os dias e que vieram “espairecer” gratuitamente na capital. A precariedade social, infelizmente já não é problema deles".

(Traduzido pela Maria de Lurdes)

* Uma mobilização sem precedentes, uma verdadeira manifestação de força contra o CPE. Três milhões de manifestantes no total, 700 mil só em Paris.






Aprofundar a Luta - novas mobilizações gerais convocadas para 4 de Abril

* mais Noticias
* Portugal - "Jovens marcham pelo direito ao emprego"

Lei da Imigração - construindo califórnias

o Outro bem que avisou que poderia fazer disto uma Califórnia
"Nunca tinha visto, desde que estou aqui ao fim destes anos todos, uma manifestação desta amplitude"exclamou estupefacto J. Baker da policia de Los Angeles.

Entre 500 000 pessoas segundo a Policia e um milhão segundo os organizadores manifestaram-se no passado sábado na mégapole californiana para protestar contra o projecto de Lei de Reforma de Imigração. Nestes ultimos dias, muitos milhares de pessoas se têm manifestado em numerosas localidades americanas, principalmente membros da comunidade hispânica.



Como já toda a gente reparou, a insistência com que nos estão a impingir a martelo o insignificante partido cdS em tudo o que é orgão de comunicação social, pretende desviar o eixo de referência politica do País para a direita, quiçá conquistando espaço para a extrema direita. O objectivo é consolidar o Centro sociológico como base de apoio ao poder actual alicerçado no Neoliberalismo e extirpar de vez a Esquerda do mapa. A inclusão na agenda Governamental da politica do grupelho do Doutor Portas, tanto no campo da imigração, como em outros campos, como seja o código de Trabalho de bagão Félix que Sócrates não revogou, já começa a dar resultados:
Portugueses repatriados chegam a Lisboa revoltados

Portas, Rumsfeld& Friends









(imagem surripiada ao Aspirina B)- no post,"enganei-me na bandeira"

Esgotado e falido o ciclo de expansão da actual bôlha económica virtual, estes canalhas pretendem (re)construir um tipo de capitalismo novo cujo investimento se processa em ilhas blindadas enquanto em redor permanecem grandes mares de excluidos e condenados à não existência (excepto como contribuintes) - e a questão que se põe é esta: enquanto isto não fôr desmantelado, temos todos de nos definir e tomar partido. Essa coisa de não ser de direita nem de esquerda é para depois, na fase seguinte a uma mudança de paradigma, quando já não houver macroestrutura de dominação, fronteiras, "imagine all the people, etc,etc essas coisas assim. Óbviamente que quem insistir em ser hibrido nestas circunstâncias sujeita-se a ser conotado com os bushkriegs.
Quanto às "ilhas capitalistas no meio do mar de excluidos" é assim que a coisa funciona: expulsa-se dessas "ilhas de prosperidade" os imigrantes, indesejáveis, enfim o lumpem que já não interessa como reserva de mão de obra - Pergunta-se: se estes vão embora, quem irá executar os trabalhos necessários? - são brigadas de trabalho móvel que se deslocam para fazer empreitadas pontuais, com gente descartável ao abrigo da tal lei Bolskestein, pagos por quantias irrisórias na moeda dos paises de origem destes novos escravos.
E é contra isto que os putos contestam a CPE em França, e os "empresários" tugas que votam no CDS e afins já começam a "empregar" grupos de trabalhadores-escravos sequestrados para Espanha, para Angola e para onde mais se lhes abrirem "janelas de oportunidade".
Quem gostará desta construção maquiavélica destes novos principes? - o problema é que agora já votaram, está "votado"!, e não se vislumbra outro modo de contestação que não seja o recurso ao boicote imediato.
Noticias relacionadas (EUA):
* Como o Hip-Hop está a determinar a insurgência contra o sistema capitalista, como os DJ`s conseguiram pôr centenas de milhares de manifestantes na rua, e como os protestos não são apenas de imigrantes, trabalhadores e excluidos, verificando-se a adesão em massa dos Estudantes.
* Governo e Repressão: "Conservative, My Ass... These People Are NAZIS!"

segunda-feira, março 27, 2006

quanto ganhou na Bolsa a Opus Dei com a "fuga de informação" antecipada da Opa do BCP sobre o BPI?







quem é o BCP? apareceu de onde?, logo após a falência do IOR logo oportunamente extinto, do escândalo do Banco Ambrosiano, que 20 anos depois ainda não conseguiu ser julgado em Itália?, e o que veio cá fazer a Portugal o Papa JP2 quatro vezes logo a seguir? que capital foi esse com que o Vaticano financiou o Solidarność? (vidé "1990/Holy Alliance"), como apareceu aquela coincidência dos maiores negócios estrangeiros do BCP serem logo na Polónia? Quem são estes banqueiros?

Se Belmiro de Azevedo foi o testa de ferro da entrada em Portugal dos franceses da Auchan numa primeira fase, e depois da Wal-Mart americana no Brasil, agora na Portugal Telecom,,, estes Banqueiros são os testas de ferro de quem?
Toda a gente sabe que o BCP, cujo acesso aos estatutos dos accionistas é blindado, é o banco da Opus Dei. Tudo isto, não são meras questões de competição de mercado. As coisas são bem mais graves, ou não tivesse a Opus Dei uma longa história de assassinatos e outros crimes ligados à sua ascenção na luta pelo Poder.

a ler: "Opus DEI - Cujus regio, Ejus religio" publicado aqui em 7/Abril/2005








"Não tenhas a cobardia de ser valente; foge!"

“São” José Escrivá, o fundador da Octopus Dei, no livro “Caminho”

Requiem por Paul Marcinkus, por Correia da Fonseca*

"1 — Passou desapercebida ou de todo ignorada nos canais abertos da televisão portuguesa a notícia da morte do cardeal Paul Marcinkus: só a edição em português da Euronews deu a informação mais circunstanciadamente, mas o Euronews é para a minoria que tem acesso à TV distribuída por cabo. Contudo, Marcinkus não foi um cardeal como qualquer outro, longe disso. Durante quase duas décadas, foi personagem de topo no Vaticano, tendo presidido ao IOR (Instituto de Obras Religiosas), geralmente conhecido como o Banco do Vaticano, sendo também ao longo de vários anos o responsável pela segurança pessoal de João Paulo II. Isto de um bispo ser de facto um banqueiro pode não parecer muito condicente com o tradicional desapego cristão pelos bens deste mundo, mas não tem nada de evidentemente pecaminoso. O pior é que o IOR esteve no centro do maior escândalo financeiro da história do Vaticano e que, para mais, esse escândalo não se situou apenas na área dos gigantescos movimentos de capitais, o que já não seria pouco, mas também envolveu morte de homem, pelo menos o do banqueiro Roberto Calvi que certa manhã apareceu “suicidado” por enforcamento numa ponte de Londres. Contudo, a julgar pelo que o jornalista britânico David Yallop escreveu no seu livro “In God’s Name”, publicado em Londres em 1984, o rol de mortes e outros crimes directamente relacionados com a gestão do Banco do Vaticano e seus arredores é bem mais extensa. De tal modo que mesmo a sua enumeração relativamente sucinta ocupa cerca de oitenta páginas daquela obra.

2 — “In God’s Name”, com o título literalmente traduzido em português para “Em Nome de Deus”, foi editado entre nós em 85 por Publicações Dom Quixote e é um trabalho fundamental e perturbante para que possa ser avaliada a personalidade de Paul Marcinkus, que nascera pobre no Estado de Illinois, USA, filho de um emigrante lituano, e que com menos de cinquenta anos de idade ascenderia a uma posição destacadíssima no Vaticano com escala pela situação de bispo de Chicago, a diocese católica mais rica dos Estados Unidos. O seu poder no interior da Santa Sé terá passado por um momento de risco quando Albino Luciani, que entrou na Historia com o nome de João Paulo I e exerceu o papado apenas durante umas breves semanas, pensou em retirá-lo das altas funções que lhe haviam sido confiadas por Paulo VI. Felizmente para Marcinkus, João Paulo I morreu na noite de 28 para 29 de Setembro de 1978, fulminado pela “mão de Deus”, como diria Diego Maradona, e João Paulo II, o Papa que tal como Marcinkus veio do Leste, não apenas lhe manteve os poderes como mais tarde os reforçou, o promoveu a arcebispo e o protegeu quando a justiça italiana anunciou a intenção de prendê-lo e julgá-lo sob acusação de uma esmagadora mão-cheia de crimes. Só em Outubro de 90 Paul Marcinkus voltou aos Estados Unidos, sem alguma vez ter sido obrigado a explicar-se ou a prestar contas perante o aparelho judicial. E nem sequer foi demitido do famigerado IOR: o seu lugar foi apenas extinto no quadro de uma oportuna reforma administrativa do Vaticano.
3 — Curiosamente, a capa da edição portuguesa do livro de David Yallop surgiu a ilustrar a notícia da morte de Marcinkus dada pelo Euronews, o que pelo menos indicia reconhecimento da credibilidade da investigação. Mas a mesma notícia incluiu de maneira muito explícita um dado que no “em Nome de Deus” só surgia de uma forma digamos que complementar: que as enormes e criminosas manobras fraudulentas em cujo centro esteve o Banco do Vaticano tinham como um dos seus objectivos o financiamento do Sindicato Solidariedade de Lech Walesa (cujo pai, recordo eu por se tratar de uma informação pouco lembrada, era imigrante nos Estados Unidos). Assim, temos como mais que provável que a acção do então sindicalista polaco tenha sido impulsionada por João Paulo II via Marcinkus/IOR, mas também, que esse impulso, pelo menos na sua vertente financeira, tenha estado tocado por crimes de morte, recurso que não costuma estar associado à prática da Caridade cristã. Felizmente que com a morte de Paul Marcinkus no passado dia 21, o assunto passa definitivamente à condição de História Antiga e que a canonização de João Paulo II, já a caminho, justificada pelo cheiro de santidade que a sua evocação já espalha à sua volta, decerto dissipará alguma memória menos feliz. Marcinkus descansará em paz e Karol Wotylia subirá próximamente aos altares".

*publicado no "Noticias da Amadora"

domingo, março 26, 2006

O Regime muda de palhaços

"É preciso que algo mude, para que tudo permaneça na mesma"
Tomasi de Lampedusa

O novo sucesso da televisão americana tem o mesmo cenário da premiada série “Os Homens do Presidente” – mas desta feita, em ficção, claro, e entre nós não tem qualquer afinidade com a obra filosófica publicada pelo João Carlos Espada – nesta série novelistica a Casa Branca tem um novo inquilino: Mackenzia Allen, a primeira Presidente fêmea dos Estados Unidos. Em geral muitos observadores interpretam esta “ficção” como uma manobra (com a audiência de16 milhões de espectadores) para abrir caminho à candidatura de Hillary Clinton às presidenciais de 2008.

Se “Commander in Chief” estrelada por Geena Davis cumpre essa função, já na saída do Louro Burro da SIC não se vislumbra qualquer propósito aparente; salvo o abandono de carga descartável, uma idiotice ordinária pegada tornada inútil após 30 anos na esforçada promoção mediática de largas catréfadas de politicos mais ou menos cinzentos do Bloco Central aos serões de domingo. Como tambem muito bem se aprende com os States, este tipo de produto usa-se e deita-se fora. Chamei-o de “burro” mas o que é um facto é que o animal enriqueceu com o assunto.

sábado, março 25, 2006

o Estado - Reformas e Revolução (1)

No Marxismo a aptidão do pensamento para reflectir a realidade jamais surge como algo de acabado, de forma difinitiva, mas antes se ganha pela afirmação dialéctica, a que se exige riqueza e exactidão de informação empirica, bem como, de forma por assim dizer circular, um progresso incessante do saber e as modificações teóricas dele inseparáveis. Em suma, o Marxismo não pode ser reduzido nem a um empirismo positivista nem a um dogmatismo que se aprende de uma vez para sempre na escola.

O programa do governo soviético não foi reformista mas revolucionário. As REFORMAS são concessões consentidas pela classe dominante, continuando esta no Poder; a REVOLUÇÃO é o derrubamento dessa classe.

Comparado ao feudalismo, o capitalismo foi um passo em frente de alcance histórico mundial, na via da liberdade, da democracia e da civilização. Todavia, o capitalismo foi e continua a ser o sistema da escravatura assalariada, a servidão de milhões de trabalhadores, operários e camponeses, levada a cabo por uma ínfima minoria de senhores de escravos modernos: os proprietários dos meios de produção, sejam de terras, fábricas e meios de comercialização e os capitalistas subsistem, não só entre nós onde a compreensão da estrutura se encontra diluida no terciário, como com especial incidência nos paises do 3º mundo. No caso da posse das terras, no Zimbawe apenas agora, 30 anos depois da Independência, se iniciou a nacionalização da propriedade rural ainda na posse de ex-colonos latifundiários ingleses. “Em relação ao feudalismo, a democracia burguesa modificou a forma de escravatura económica, dando-lhe uma fachada particularmente brilhante, mas não lhe modificou a essência nem o poderia fazer. O capitalismo e a democracia burguesa são a escravatura assalariada. Os imensos progressos técnicos e sobretudo os meios de comunicação e o crescimento prodigioso do capital e dos bancos, fizeram com que o capitalismo atingisse a maturidade e mesmo a podridão. Sobreviveu a si próprio e tornou-se o obstáculo mais reaccionário à evolução humana. Confinou-se a um punhado de milionários todo poderosos que empurram os povos para os matadouros a fim de saber a que bando de aves de rapina ficará a pertencer o saque imperialista, o dominio colonial e as esferas de influência”. Este parece ser um discurso de hoje, mas na verdade foi proferido por Lenine cerca da I Grande Guerra de 1914 a 1918, onde dezenas de milhões de homens foram mortos ou mutilados apenas por estas circunstâncias. A guerra provocou em todo o lado estragos enormes o que tornou necessário, por parte dos vencedores que se impusesse pagar juros das dívidas de guerra. Tal facto levou Lenine a questionar: “Que representam esses juros? São um tributo de biliões destinados aos senhores milionários por terem tido a extrema habilidade de permitir a dezenas de milhões de operários e camponeses que se matassem uns aos outros para resolver a questão da partilha dos benefícios entre os capitalistas”.

Contributo frequentemente subestimado do debate aberto no movimento operário internacional pelo incremento das rivalidades e afrontamentos que conduziram à primeira guerra mundial a obra de LenineO Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo” que sintetizou trabalhos anteriores como “O Imperialismo” do liberal Thomas Hobson (1902), “O Capital Financeiro” de Rudolf Hilferding (1909) sobre a nova influência da exportação de capitais e já não apenas das mercadorias, isto é, na procura de uma mais valia adicional e “Acumulação de Capital” segundo a obra de Rosa Luxemburgo (1913). Este periodo caracteriza-se pela passagem a formas cada vez mais marcadas pela socialização dos meios de produção no estádio monopolista-imperialista . Teorizando o aparecimento do Capitalismo Monopolista de Estado, já Marx e Engels tinham compreendido a socialização tornada necessária pelo próprio desenvolvimento das forças produtivas em regime capitalista. Mas já desde 1880 no “Anti-Düring”, se distinguia a “socialização capitalista” efectuada pelos trusts monopolistas da realizada pelo Estado Capitalista onde a produção das sociedades por acções já não é privada mas uma produção por conta de um grande númerode associados. Dizia Engels “se passarmos das sociedades para os trusts que monopolizam ramos inteiros da Indústria, então não se trata sómente do fim da produção privada, mas tambem da cessação da ausência de planificação. Risque-se “privada” e a ideia de (Planificação Centralizada) poderá passar com o maior rigor” É de resto significativo que os partidários das teses marxistas que combatiam as teorias pequeno-burguesas se intitulavam “colectivistas” por oposição à propriedade individual teorizada por Prouhdon.
Os problemas postos pelo desenvolvimento do papel do Estado e pelos fenómenos do Imperialismo, hoje a perda visivel de influência do Estado-Nação, foram também teorizados por Lenine em “O Estado e a Revolução” e em “A Catástrofe Eminente e os Meios de a Conjurar

Daniel Bensaid trata na actualidade o problema Estado do seguinte modo:
- o Estado-Nação é uma “forma histórica” de organização política: está, portanto, destinado a desaparecer. As conquistas alcançadas sob o signo do Estado-Nação estão ameaçadas pelo “choque de globalização capitalista”, que provoca uma “crise das soberanias nacionais”
“Todas as categorias da política moderna herdadas das Luzes foram abaladas: nações, povos, territórios, fronteiras, representação”. Elas não foram substituídas, contudo, por um novo espaço internacional democrático. Ao contrário: “Na ausência de um poder legislativo internacional, esta transição perigosa favorece o direito do mais forte, que se impõem com o aval da ONU quando possível, mas sem ele se necessário”. Tal brutalização é agravada, evidentemente, pela guerra: “Está em curso uma nova grande partilha do mundo. Este abalo e rearranjo das zonas de influência nunca se faz com amabilidade ou sobre o tapete verde (...) A doutrina estadunidense de guerra assimétrica com morte zero repousa sobre o monopólio do terror de alta tecnologia, do qual a bomba de Hiroxima constituiu prenúncio e símbolo. (...) Numa guerra ética, conduzida em nome do Bem universal e da Humanidade, não há nem inimigos nem direito de guerra. Ela se transforma numa cruzada secular, onde o adversário é excluído da espécie, animalizado, submetido ao cerco e ao linchamento”.
É neste ponto, diabolizados pelos ideólogos do Regime, que estão os muçulmanos lá fora, e os militantes comunistas entre nós, apesar de no Parlamento não existir nenhum Partido que se possa definir como sendo Revolucionário. Todos advogaram sempre apenas reformas, transmutadas agora pelo P”S” em caricaturas ao serviço do neoliberalismo. Mas as grandes mudanças de paradigma, que acontecem com as Revoluções são independentes das “vontades” dos Partidos. Elas acontecem quando as Sociedades atingem um ponto crítico de saturação. Assim um pouco como a água ao lume antes de começar a ferver, já se pressentem as bolhinhas em ebulição.

sexta-feira, março 24, 2006

Greve Geral em França
















Comunicado do Comité de Ocupação da Sorbonne no Exílio
20 de Março 2006

Universidade de Sorbonne com a sua atmosfera eterna. Repleta de História suspensa. Caminhos e átrios de mármore como pântanos gelados. “Quando não há sol, aprende-se a amadurecer debaixo do gelo”. Então, dez dias atrás, o gelo começou a derreter, num fim de tarde em séculos. Um fogo de mesas e documentos finais: uma chama maior do que qualquer homem, no meio do pátio, o pátio das cerimónias. Não mais se ouviram os murmúrios nos corredores e nas salas de aula não houve mais discursos, apenas empurrões em conjunto, pesquisando uma nova estrutura. Começou. Projécteis, viseiras, extintores, cadeiras, escadotes, contra os policias. O monstro acordou.
As autoridades são estúpidas. Correm em volta. Eles pensam que evitando-nos destruíram a explosão que emergiu aqui. Idiotas. Loucos como o surdo e pesado baque de um computador de encontro aos elmos dos policias de choque. Mandando-nos para o exílio, eles apenas aumentaram o nosso campo de acção. Vão apanhar com as suas guloseimas por nos terem tirado a nossa Sorbonne, por nos terem expropriado. Ao instalarem a sua policia aqui, eles ofereceram a Sorbonne a todos os expropriados. A esta hora quando estamos a escrever isto, a Sorbonne já não pertence aos estudantes, ela pertence a todos que, pela palavra ou pelo arremesso, entendam defendê-la. Desde o nosso exílio, temos alguns pensamentos acerca das finalidades deste movimento.

#1 – Estamos em luta contra uma lei aprovada com maioria de votos de um parlamento legitimado. A nossa simples existência prova que o principio democrático de voto maioritário é questionável, prova que a soberania da Assembleia é um mito e que esse poder de decisão pode ser usurpado. Faz parte da nossa luta limitar, tanto quanto possível, a tirania do voto maioritário. Todo este espaço concedido às Assembleias Gerais paralisa-nos e apenas serve para conferir legitimidade a decretos de um ramalhete de aspirantes a burocratas. Este tipo de Assembleias estão a neutralizar toda a iniciativa estabelecendo uma separação teatral entre as palavras e os actos. Mal o voto tenha sido depositado a favor da greve até que haja um reconhecimento da lei para oportunidades iguais, as Assembleias devem converter-se em espaços de debates conclusivos, em espaços para troca de experiências, ideias, e desejos, locais onde nós possamos demonstrar a nossa força, e não um cenário de lutas banais, futéis e de intrigas para influenciar as decisões.
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No total são 12 pontos – disponíveis (em inglês) num dos sitios dos Grevistas em www.bellaciao.org/fr

quinta-feira, março 23, 2006

“Não há normas. Todos os homens são excepções a uma regra que não existe” disse Bernardo Soares, um gajo que tambem nunca existiu, citando Álvaro de Campos quando lembrou “os imperialismos do acaso e da desordem organizada” sobre a qual ninguém governa, mas apenas reina; não, não é de Pessoa que vos quero falar hoje – “quem tem as flores, não precisa de Deus” disse Alberto Caeiro.


prémio para a melhor frase no concurso “Tu queres é Lulas”:
“Só o grande Capital aplaude o governo e anda de braço dado com o PS. Que raio de PS é este?” - Alberto João Jardim, em entrevista a “O Diabo” (21 de Março)

* relacionado:
"Mentindo pelo Império" - o "My Lay" do Iraque: disparando sobre tudo o que mexe, a ler no "Counterpunch"

quarta-feira, março 22, 2006

Quando José Clemente Orozco pintou o mural "Prometheus" no Pomona College na Califórnia, que curiosamente em 1930 já misturava prazer, tecnologia industrial, guerra e vicios,,,



,,, e no seu país tinha criado o "El Padre Eterno", estava longe de supor que um manhoso politico num longinquo e mal amanhado país periférico europeu pudesse algum dia tambem prometer aos crentes rendimentos mirabolantes e niveis de consumismo também eternos. Mas a vida é assim, como muito bem se benzeu em seu devido tempo o franciscano que anda lá pelos confins a ajudar os desventurados. Ora, se isto aqui está a caminho de se converter na Califórnia, então os novos conselheiros de Estado devem ser os Beach Boys - e o papel que neste enredo está reservado para a classe operária adivinha-se que seja o da manufactura das pranchas de surf,,, para exportação, claro, porque por aqui não há ondas que cheguem para fartar a enorme cáfila de aspirantes a surfistas.
Ora, assim mesmo é que é!, Criatividade , capacidade de correr riscos , trabalho e mais trabalho, empreendedorismo e maila todos os outros requisitos de medrança necessários qb. Acontece porém que a Balança comercial portuguesa é deficitária há décadas. Porque a economia portuguesa não não tem sido, nunca foi! competitiva. E não é competitiva porque o investimento é insuficiente e os gestores/empreendedores são sub-qualificados e incompetentes.
Mas desta vez tudo isso acabou, como que num golpe de mágica. Notam-se ventos de mudança, limpos e isentos de bolhas inflacionárias, pese embora o dementido de estar em marcha mais uma aldrabice para amandar a crise para as calendas dos nossos netos. (a Economia Mundial é como se fosse um grande Casino). Como diria o emigrante ex-maoista reciclado, nota-se que o vento de Oe$te prevalece sobe o vento de Leste, em bom tempo controlado pelo anticiclone que passou pelas Lages. Madames e Monseurs façam as vossas apostas.
Mãos então postas à obra, de gestores/empreendedores, Joaquim Letria traz-nos esta deliciosa empresa:

Ideias e sugestões

"Os comboios com cabeleireiro, maquilhagem e massagem são uma risota – tanto ri o passageiro jovem e cosmopolita da turística, como o pica-bilhetes, como o funcionário da “wagon lits”, como o velhinho da classe confort e o gestor publico que muda do avião para meter a massagista nas despesas. O marketing pode ser uma anedota. Neste caso é. Faz lembrar os carros funerários que na década de 60 foram lançados em Portugal com…rádio telefone!

As minhas propostas, em crónica anterior, a propósito desta peregrina ideia da CP foram muito bem recebidas. Principalmente, a parceria com a empresa “Perna aberta”, para cada comboio Alfa rebocar uma carruagem de putas de luxo. Registo, com agrado, a sugestão de um leitor para uma carruagem ser acrescentada à composição, com um padre fardado, serviço religioso ecuménico a horas certas e oração permanente.
O pormenor do padre fadado é importante. Não se pode ter um vagão de putas em lingerie e um padre usar camisola de gola alta ou disfarçar-se de gravata.
Quanto à ideia de outro leitor de substituir as putas pelo conselho de gerência, com o devido respeito, não concordo! A ideia deve ser sempre a de bem servir os clientes!"

E como hoje foi o Dia Mundial da Água sugiro ao Letria que mande atrelar também ao comboio um vagão-cisterna do precioso liquido. Escusa de ser benta - basta que se encomende em surdina ao usá-la esta lenga-lenga em jeito de oração - nem mais nem menos do que o poema de Manuel Maria Barbosa eternizado o Bocage, apropriadamente intitulado, "a Água":
"Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
Que tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, e que bebe o cão"
(ler mais)

o Grito dos Excluidos

A União Europeia garantiu o voto em bloco contra qualquer país vetado pelos Estados Unidos. E isso nota-se, porque já este fim de semana andou uma carrinha com propaganda anti-Cubana a circular por Lisboa; o problema nem sequer está em Cuba, que esses não estão alienados pela deseducação e sabem-se defender, o problema está nos outros, nos excluidos, sem governos, nos Estados inviáveis (ou párias, como os definiu Chomsky) ou, ainda mais grave, nas sociedades onde os cidadãos são alienados pelo consumismo, cujos direitos deixaram de ser de cidadania para constarem perante os governos apenas como números em tabelas estatisticas de consumidores.

Canção dos Meninos com Fome

Que ignorem os outros, não importa
Há meninos com fome, sabeis disso
Ou se não, fiquem agora a saber
Que a azáfama dos mercadores
Que comandam o mundo inteiro
E aqueles que lhes guardam as costas
Estão contentes, muito contentes

Luis Franco, PAN, Poesías 1937/1947

A Guerra contra os Fracos

Após o fim da Segunda Grande Guerra, o sentimento de repulsa e revolta com a revelação das torturas e mortes nos campos de concentração talvez tenha sido uma das razões que levaram a opinião pública em geral a “esquecer-se" de que a idéia de higiene racial não foi uma invenção original de Hitler e dos seus companheiros de partido. Ela nasceu na Inglaterra, mas prosperou e ganhou adeptos inicialmente no outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos. E foi patrocinada por instituições relevantes, como a Fundação Rockfeller e o Instituto Carnegie, de Washington. A história está no livro de Edwin Black, "A guerra contra os fracos". O autor é o mesmo de "A IBM e o Holocausto", e faz um exame exaustivo nos arquivos públicos e privados, bibliotecas, jornais e outros documentos em busca da história da eugenia, a ciência (ou pseudociência) que se dedicou ao “melhoramento racial”. Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha – países visitados pela equipa de Black – foram, em momentos diferentes, os principais centros de divulgação e implantação de políticas de controle populacional eugenistas. Estas iam desde campanhas de incentivo aos “nórdicos” para que tivessem mais filhos, até o extermínio dos judeus, passando por leis que autorizavam a esterilização dos “socialmente inadequados”. A guerra contra os fracos procura contar essa história desde o seu princípio, examinando as primeiras leis contra a vadiagem que, na verdade, já eram leis de perseguição aos pobres. Mostra a influência fundamental das idéias do economista inglês Thomas Malthus, produzidas no século XVIII sobre este pensamento. O malthusianismo afirma que a expansão humana é limitada pela capacidade de produção de alimentos e chegou a defender que a caridade provocava a persistência da pobreza, embora criticasse a injustiça da estrutura econômica e social. No século XIX, o também filósofo inglês, Herbert Spencer, contribuiu para as bases teóricas da eugenia ao, antes de Darwin, afirmar a que a “sobrevivência do mais capaz”, seria algo determinado hereditariamente. Spencer também criticava a caridade, afirmando que “toda a imperfeição deve desaparecer”.
ler mais: www.comciencia.br

* Teoria e Biografia de Malthus, mais completa (em inglês)
* Oscar Wilde - Desobediência: Virtude Original do Homem

terça-feira, março 21, 2006

Uma História de Violência*

Na quinta-feira da semana passada, George W. Bush afirmou que, "na Venezuela, um demagogo cheio de dinheiro do petróleo está a pôr em perigo a democracia, procurando desestabilizar a região". Em resposta Hugo Chavez chamou "cobarde", "burro" e "bêbedo" ao “Mister Danger”. Mas faltou à nossa comunicação social informar que Chavez também lhe chamou o óbvio: genocida e CRIMINOSO!ele (Bush) é o chefe da oposição venezuelana, não é nenhum destes jornaleiros que andam por aí», prosseguiu: «Os teus soldados não são assassinos, és tu (o assassino)», disse."

* Manifestação no sábado em Lisboa - pouco frequentada para a gravidade do que está em causa.
* Manifestações em todo o mundo contra a guerra e a ocupação do Iraque
* É o Povo que resiste: a verdadeira resistência iraquiana fala - Entrevista a Abdul Jabbar al-Kubaysi conduzida por Hugo Janeiro, do sitio Resistir.Info

«Três anos depois de ter apoiado a guerra no Iraque, o antigo primeiro-ministro português e actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, declarou hoje ter agido com base em informações «que não foram confirmadas».
Seria apenas aldrabice, mas como insiste, torna-se ridículo: «A decisão que tomei, e que muitos governos tomaram, foi baseada em informações que tínhamos recebido e que, depois, não foram confirmadas: que havia armas de destruição maciça» no Iraque, disse Barroso no programa «Le Grand Jury» LCI-RTL-Le Fígaro»
Que teria então realmente acontecido? contra quem luta esta gente? - não estão convencidos que insistirem uns e outros nesta grande mentira apenas os desacreditou uns aos outros de modo definitivo? - estão assim tão seguros de que um dia não serão julgados, para continuarem a insistir?
As escassas centenas de pessoas que se deslocaram ao Largo do Camões no sábado passado, são os melhores de nós. Quem os olha, gente simples que tirou do seu tempo livre, tempo para se preocupar com as desgraças que parecem alheias - não pode deixar de equacionar esses propósitos com as existências mesquinhas e vazias de todos os que vegetam nas muitas indiferenças - que nas mais das vezes escondem dramas latentes que se acomodam na mentira do tudo vai bem, do vamos indo, como diria o cego,,,




É disso que trata o último filme* de David Cronemberg em exibição entre nós:
Uma História de Violência

É impossivel escondê-lo: depois de Crash e das taxas de apoio (34%) às politicas de Bush o cinema não se pode manter indiferente. David Cronemberg tinha perdido dinheiro no seu ultimo filme e gerindo o seu prestigio e fascinio como cineasta viu-se obrigado a aceitar fazer uma obra mainstream. Se os produtores/investidores oficiais da indústria artistica esperavam contenção, estão desenganados. O filme é uma metáfora da história global da violência, aquela que está no rasto da vida social estabilizada – um filme que se delicia em fazer implodir o Sonho Americano, detonando as cargas directamente do seu interior, colocando uma familia modelo em confronto com os seus próprios fantasmas, com a enganadora ilusão das aparências, com uma inocência que, muito provavelmente, nunca existiu – porque é esse o segredo de “Uma História de Violência”: ninguém é inocente. (ver critica acritica nacional).
Aquando da estreia no Festival de Cannes o realizador disse que o tema principal era “o efeito que a violência tem sobre as pessoas, as famílias e as sociedades".
Cronemberg criou uma fina mistura de western e de filme negro numa versão realista. Saltando do feminismo do film noir; nesta história é o homem, e não a mulher, quem tem um passado secreto. O passado deste homem, muito bem representado por Viggo Mortensen(um actor nova-iorquino que também é fotógrafo), sugere-nos que ele se evadiu da Costa Leste levando consigo para Oeste uma história escondida, um monstro dominado dentro dele. Aí estabilizou a vida, casou, tudo se tinha normalizado, até se ter convertido em Herói Local ao matar dois perigosos assassinos que aterrorizaram a mulher e os clientes do seu restaurante. Televisões e repórteres de todo o pais á porta, era impossivel esconder-se do passado, pese embora que até tivesse mudado de nome, e o tivesse sempre escondido até da própria familia. E o passado em questão é uma história de violência, de serviços prestados como Executivo e Tropa de Choque ao serviço de um bando de gangsters capitalistas. Estamos na América. Para defender a sua familia e o seu lar naquela pequena cidade rural de Indiana dos longos braços da Gang empresarial o nosso herói irá ressuscitar a extremamente eficiente máquina de matar que ele um dia tinha sido. Depois da carnificina volta para casa.

O filme acaba numa ambigua cena familiar caseira. A mulher, filho e filha estão à mesa. Quando ele chega reina o silêncio. Após um longo momento, a filha (que é muito nova para entender valores como confiança e traição) cede-lhe o lugar. Todos se entreolham em silêncio, enquanto lhe passam o prato. A cena acaba de repente caindo o negro sobre o ecran.
“Uma História de Violência” não faz referência explicita á Guerra no Iraque. Embora enquanto está a assistir ao filme qualquer americano não possa deixar de pensar nela. A história do Capitalismo é a história da guerra e da violência. Há concerteza muitos lares onde os soldados regressados são frágeis protagonistas de “uma história de violência”. Os divórcios têm subido em flecha entre casais que envolvem miltares, que enfrentam o desemprego, que enfim ficam a braços com traumas psicológicos. Dos 244.054 veteranos desmobilizados do Iraque e Afeganistão, 12.422 estão sob aconselhamento de centros de reabilitação ("Trauma of Iraq war haunting thousands returning home")
Os passados violentos não podem ser enterrados ou esquecidos, nem as vivências nos lares pode ser isolada do clima de violência que se passa no exterior, como se passou com o protagonista da História de Violência, como se passa com muitos americanos, que pensam que pode. A todos os niveis estamos condenados a lidar com a violência. Mas como? – Cronemberg não pretende responder a isso, ele pretende que os espectadores sejam eles levados a pensar nisso.

Aos que ainda não se chocaram com o assunto, com especial dedicatória ao José Manuel Fernandes, têm aqui mais:
O Genocídio do Povo Iraquiano

* Mais noticias da cruzada da democracia e da liberdade: "One Morning in Haditha"
O exército norte-americano está a investigar a morte de 15 civis iraquianos na vila de Haditha, na zona oeste do Iraque. Uma investigação da revista "Time" está a causar polémica nos Estados Unidos. O incidente aconteceu no passado mês de Novembro. De acordo com o relatório inicial do exército norte-americano, os soldados terão sido apanhados numa emboscada que provocou a morte de um membro do Exército (ver video). Na resposta ao ataque, 18 rebeldes e 15 civis iraquianos foram mortos. A revista Time teve, no entanto, acesso, algum tempo depois a um vídeo captado no interior de duas casas e da morgue da vila de Haditha. A gravação levanta outras suspeitas. De acordo com testemunhas, os 15 civis mortos terão sido alvo de uma acção de represália contra os iraquianos desarmados. Entre os civis mortos contam-se sete mulheres e três crianças. Washington ja abriu um "inquérito" para apurar responsabilidades.

segunda-feira, março 20, 2006

"O verdadeiro congresso do PSD está-se a iniciar em Belém"
Ana Sá Lopes (DN 18/3)

Um dos aspectos mais glosados neste fim de semana foi o equivoco dos participantes no congresso do Pavilhão Atlântico, que constantemente se enganavam entrando pela sala maior onde decorria a Assembleia Geral do Sporting, enquanto os laranjinhas se confinaram à minúscula sala Tejo. Por coincidência o endividamento que "comeu o Sporting" deriva do mesmo modelo de gestão que a tropa partidária de Durão Barroso aplicou ao país. Podemos ter um défice gigantesco cozinhado pela "crise" provocada pelos governos neocons acoitados no interior do ex-partido dito Social-Democrata, mas o apetite pelo controlo do aparelho de Estado, mesmo com "prejuizos astronómicos" continua a ser voraz. Que estranha forma de vida aliciará esta gente? - Pergunta escusada. E gasta.

Who is Who?

Enquanto Cavaco e os seus acólitos neocons acoitados à sombra do Conselho de Estado congeminam a melhor maneira de sanearem o actual pequeno Lider, não é preciso fazer grande esforço para calcular quem será o próximo jovem turco que dirigirá a Banda, mais simulacro de eleição directa ou menos indirecta, o próximo lider será "a promessa" que esteve presente na ultima reunião do Grupo Bilderberg - um curioso efeito dos dois microfones dá-lhe o aspecto de quem tem um letreiro pendurado ao pescoço com a palavra "credibilidade" - não precisava! - a gente acredita!

Muito se tem esforçado o inefável Fernandes director do jornal da Sonae por credibilizar e tornar "normal" (a Banda: um termo particularmente feliz do lider da debutante extrema-direita acoitada no CDS), dizia eu - a Banda Neocon que assentou praça no palácio cor-de-laranja de Belém como conselheiros do presidente, a propósito da não-presença de qualquer representante do BE e PCP no Conselho de Estado - que tinha sido igual a Sampaio, disse ele, mas o desmentido veio depressa:


até Vasco Pulido saiu a terreiro insurgindo-se contra "este raminho de cabeças pensantes que vai pôr em pé de guerra a esquerda e a república" - "isto começa mal", notou, enquanto por outro lado realçava a importância de "na medida do possivel o Conselho de Estado dever representar toda a opinião do Regime e do País" ( o artigo de VPV pode ser lido na integra aqui). Entretanto um leitor trouxe à baila outra citação de VPV: "não fui feito para isto", que por sua vez era uma citação de Chateaubriand, recordando do mesmo autor, a propósito da liberdade de expressão agora tão em voga, uma outra citação:
"Nunca o Crime será para mim um objecto de admiração nem um argumento de liberdade"
por isso, vejam lá o que vão (continuar a) fazer, meus senhores, seríamos nós induzidos a pensar, mas,
é tempo perdido e pérolas a porcos - na edição de hoje do pasquim vem farto tempo de antena às guerras do Império, culminando com um artigo do carniceiro de Bagdad - Rumsfeld ele próprio - que com o raciocinio natural das bestas para quem tudo é simples - titula a diatribe assim: "Sair agora do Iraque, equivaleria a ter entregue a Alemanha aos nazis de Hitler". Que espécie de direito divino dá a estes canalhas, com 130 mil mortos no curriculo (apenas neste caso) o direito de falar em nome de outros povos?








o inefável Fernandes está mesmo a pedir que lhe deixem de comprar o pasquim, mas enfim, os portugueses são o que são,,, e vão continuar a engordar esta gente - a ver a banda passar?

"A linguagem politica é desenhada para fazer com que as mentiras pareçam verdadeiras e a morte pareça respeitável, dando uma aparência sólida àquilo que é apenas puro vento"
George Orwell

domingo, março 19, 2006

Há algo de Podre,,, no reino da dinamarca

IranCartoons

Alain Gresh (publicado no Le Monde Diplomatique,Março 2006)

Uma pequena e valente nação europeia defendendo a liberdade de expressão; um povo acolhedor e tolerante surpreendido pela barbárie; um regime abatido pela irrupção do religioso na esfera politica... Este tipo de lugares-comuns sobre a Dinamarca marcou as polémicas das últimas semanas em torno das caricaturas do profeta Maomé.
É no entanto necessário quebrar o verniz para descobrir um quadro bem diferente destas imagens populares e idilicas. A Dinamarca, recorde-se, é tudo menos um Estado laico. Para além da Igreja não estar separada do Estado, existe uma religião de Estado - o protestantismo luterano - os padres são funcionários públicos, as aulas de cristianismo são obrigatórias nas escolas,etc. (ver: "Um contexto caricatural dinamarquês" por Heidi Bojsen da Univ. de Roskilde).
A tolerância encontra-se seriamente diminuida num país em que a maioria de centro-direita só se mantem graças ao apoio de uma formação de extrema-direita, o Partido do Povo Dinamarquês, que nada fica a dever à Frente Nacional francesa. Como assinala o jornalista Martin Burcharth, "nós dinamarqueses, tornámo-nos cada vez mais xenófobos. A publicação das caricaturas pouco tem a ver com a vontade de ver surgir um debate sobre a autocensura e a liberdade de expressão, só podendo ser compreendida num clima de profunda hostilidade a tudo o que aqui é muçulmano"
Note-se, por fim, que o diário Jyllands-Posten,(o mesmo que faz entrevistas benevolentes ao caçador de bruxas neocon yankee Daniel Pipes) que publicou as caricaturas de Maomé, se recusou há alguns anos atrás a publicar uma caricatura mostrando Cristo com as espinhas da coroa transformadas em bombas, atacando clinicas que praticam a interrupção voluntária da gravidez. A liberdade de expressão merece ser defendida. É inadmissivel saquear consulados ou embaixadas, e menos ainda queimá-los. Sim, a comunicação social deve desafiar os tabus, mesmo que se dê provas de maior coragem quando se contesta os da sua própria sociedade do que os das outras. Fica-se, assim, a aguardar a publicação em França de caricaturas - e artigos - sobre os patrões da imprensa, como Dassault, Bouygues ou Lagardère...

* para aprofundar o tema:
"Revoltas e rejeições em nome do Islão" por Georges Corm

sábado, março 18, 2006

A 2ª “morte” de Slobodan Milosevic

Em 6 de Outubro de 2005, a procuradora italiana berluscónica Carla Del Ponte da secção do Tribunal sediado em Haia para a Jugoslávia (TPIY) deu uma conferência em Londres perante um auditório de homens de negócios da Goldman Sachs, cuja alocução se mostrou reveladora do tipo de papel desempenhado pelo TPI, como um parceiro fiável ao serviço do neoliberalismo. Este é o corolário lógico bem na sequência do que aconteceu anteriormente nos conflitos na Croácia e Bósnia (1991-1995) e no Kosovo (1998-1999).

Milosevic, foi detido, apesar da sua auréola de herói nacional, pelas forças invasoras da NATO, enviadas pelo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Depois da invasão do Kosovo, quando os bombardeamentos da NATO desabaram contra esta provincia autónoma da Jugoslávia, o governo nacionalista sérvio, o único da zona que resistíu às imposições neoliberais, acabou por ceder e cair. A inferioridade das forças armadas da Sérvia para fazer face às incursões aéreas dos exércitos dos EUA e da Europa coligados levou a uma derrota mal digerida pela maior parte da população, que responsabilizou Clinton e a União Europeia pelo sucedido. O Kosovo é um exemplo de como a invasão/imigração é meio caminho andado para o desaparecimento da unidade dos Povos, e de como este desmembramento só beneficia aos mesmos de sempre.

Esta morte, que por um lado poupa alguns embaraços às chamadas Democracias Ocidentais, mas que por outro deixa Carla del Ponte de mãos vazias, ocorreu uma semana após a notícia do suicídio, no mesmo local, de outro destacado responsável político da ex-Jugoslávia, Milan Babic (o sexto prisioneiro a morrer no TPI). Segundo um dos seus advogados, citado pela BBC, Milosevic teria dito, depois do envio da carta de socorro que “não sustentaria este caso tanto tempo se tivesse a intenção de provocar danos a mim mesmo”. Para o PCP, trata-se de acontecimentos que "desejam iludir as graves consequências do intervencionismo" dos Estados Unidos, que pretendem ver "enterrada a verdade sobre a guerra que desencadearam nos Balcãs".

É neste clima geral de suspeição sobre as condições que rodearam a morte do dirigente que presidiu à República da Jugoslávia (depois apenas da Sérvia) entre 1989 e 2000, detido à ordem do Tribunal Penal Internacional, num centro de detenção das Nações Unidas, TPI que é uma organização criada e que funciona sob condição de não julgar cidadãos norte americanos, o diário El País titulava: "A morte de Milosevic abre as portas à reconciliação completa da Europa".
Como o cidadão comum, alienado pelos orgãos de desinformação que fazem parte integrante dos jogos de guerra do Império, não consegirão “ver assim às primeiras” que relação tem a “reconciliação europeia” com a guerra dos Balcãs e com o desmembramento da ex-Jugoslávia, Michel Collon faz perguntas à opinião pública, colocando as seguintes questões, a que se deverá responder sob a forma de teste, para que se possa aquilatar qual a qualidade de informação de que se dispôs:
1 ¿A guerra nos Balcãs começou em 1991 com as secessões eslovaca e croata?
O Sím O Não O NãoSei
2 ¿a Alemanha provocou deliberadamente a guerra civil?
O Sim O Não O NãoSei
3 ¿os Estados Unidos permaneceram realmente nesta guerra "passivos e desinteressados"?
O Sím O Não O NãoSei
4 ¿o Banco Mundial e o FMI participaram na fragmentação do país?
O Sím O Não O NãoSei
5 ¿os Media apresentaram uma imagem enganosa de Tudjman e Izetbegovic, "nossos amigos"?
O Sim O Não O NãoSei
6 ¿ os Media ocultaram dados essenciais da historia e da geografía da Bosnia?
O Sim O Não O Não Sei
7 ¿ Era correcto o esquema "sérvios agressores, croatas e muçulmanos vitimas"?
O Sim O Não O Não Sei
8 ¿ a Sérvia levou a cabo um programa de limpeza étnica?
O Sim O Não O NãoSei
9 ¿ houve Informação correcta sobre Srebrenica?
O Sim O Não O Não sei
10 ¿ As primeiras vítimas da guerra foram assassinadas pelos servios?
O Sim O Não O NãoSei
11 ¿ Era falso o célebre anuncio dos "campos de concentração"?
O Sim O Não O NãoSei
12 ¿ Informaram-nos da verdade sobre os três grandes massacres de Sarajevo?
O Sim O Não O NãoSei
13 ¿ A maior limpeza étnica da guerra foi cometida pelo exército croata?
O Sim O Não O NãoSei
14 ¿ Utilizaram também os Estados Unidos bombas de urânio na Bosnia?
O Sim O Não O NãoSei
15 A guerra contra a Jugoslavia, ¿foi a única "guerra boa" dos Estados Unidos?
O Sim O Não O NãoSei

¿ Afinal quanto valia afinal a nossa informação sobre a fragmentação da Jugoslávia? (veja quantas bolinhas laranja somou)
as respostas a cada uma das questões postas, são dadas aqui.
O julgamento do que representam estes quatro anos do processo de Haia foi feito pelo próprio Presidente Milosevic numa das suas intervenções mais fortes neste processo – em 29 de Novembro (por sinal, o Dia Nacional da Jugoslávia) de 2005: “os senhores não conseguem arranjar provas válidas para mentiras (…) ninguém sabe qual é a acusação da Promotora Pública, a começar por ela própria. Ela também não sabe. Acho que até Franz Kafka acharia que não teve grande imaginação comparado com isto. Aqui só há uma coisa que é verdade: É verdade que há uma organização criminosa, mas não tem como centro nem Belgrado nem a Jugoslávia, mas sim aqueles que, numa guerra desencadeada na Jugoslávia, a partir de 1991 em diante, destruiram a Jugoslávia".
Uma das cenas mais caricatas deu-se quando o juiz Patrick Robinson imediatamente impediu a entrada neste tribunal de uma jornalista ocidental que pretendia depôr dizendo ter visto Osama bin Laden (quando ainda era amigo dos americanos) entrar para uma reunião no gabinete do “presidente da Bósnia” Alija Izetbegovic em Novembro de 1994. (link)
Depois da desagregação da URSS e da queda do Muro, a Jugoslávia era o último bloco a dinamitar - o que se pode deduzir do célebre “Anexo B” do protocolo de Rambouillet. Utilizando as Nações Unidas, por razões de conquista de mercado que naquela região beneficiam directamente a Alemanha, os EUA deram luz verde e financiaram o surgimento do UÇK, hostil a qualquer compromisso e disposto a assassinar qualquer "traidor" albanês que o procurasse, tornando mais difícil do que nunca qualquer tentativa para encontrar uma solução pacífica negociada. Para os americanos, que dirigiam o jogo, o simulacro de negociações que se iniciaram em 2 de Fevereiro de 1999 em Rambouillet não tinha outro objectivo a não ser provar que não havia solução pacífica possível e que era preciso fazer a guerra. Helmut Kohl e o Vaticano reconheceram de imediato a independência da Croácia! Unilateralmente. E financiaram e armaram ilegalmente croatas e bosníos! no caso da Croácia, a Alemanha chegou ao ponto de não se inibir em fazer chantagem sobre os restantes países da CEE para que estes reconhecessem a sua independência.
Quando começaram os bombardeamentos decididos por Javier Solana (um ex-militante do PSOE, à frente da NATO, o tal "Tribunal" (o mesmo que agora matou Milosevic) nem sequer aceitou a queixa do governo Jugoslavo contra estes bombardeamentos desumanos e ilegais perante a lei internacional.

Depois do livro "To Kill a Nation" de Michael Parenti e de "The Rise and Fall of Yugoslavia" de Kate Hudson, que mostram o papel da NATO e das grandes potências no desmembramento do país, a jornalista Diana Johnstone, em "Cruzada de Cegos" (traduzido recent/ pela Edit. Caminho), mostra também que a guerra nos Balcãs foi o protótipo das chamadas guerras humanitárias (vidé "O Imperialismo Humanitário" de Jean Bricmont); na verdade a Jugoslávia foi a primeira Guerra da Globalização - que como novidade teve o facto de se utilizarem ONG,s não governamentais de forma encapotada para fins bélicos. Ver aqui o verdadeiro papel no financiamento ocidental da guerra, através da Human Rights Watch (HRW).Um dos directores da Human Rights Watch foi Presidente do Tribunal onde morreu (mataram?) Milosevic e a acusação de Carla del Ponte baseou-se nos relatórios elaborados pelo Human Rights Watch. Quem acompanhou minimamente os julgamentos teria também sabido que foi também o Human Rights Watch que fez a filtragem das testemunhas croatas, “bosnías” e kosovares, e que foi o Human Rights Watch quem colheu os depoimentos no Kosovo e na Bósnia das “vítimas” e das “atrocidades” e quem os canalizava para os Media. Basta ir ao site do Tribunal e ler as actas das sessões.
Mas, os “crimes” segundo a HRW por mais que sejam repetidos por este “pensamento único”, mesmo assim não se transformarão em verdade
Em todas as guerras se cometem tremendas atrocidades. A primeira atrocidade é começar uma guerra! E foi a declaração de independência da Croácia que desencadeou a guerra civil. Este foi o empreendimento mais criminoso da social-democracia em terras europeias disse Andreas Van Buelow, antigo ministro alemão, depois autor do livro “a CIA e o 11 de Setembro” onde acrescentaria: "Se aquilo que digo está certo, a totalidade do governo americano deveria estar por trás das grades”. Este e os anteriores.
A História desse período da existência da ex-Jugoslávia está feita. Não se altera com opiniões. Factos são factos.

Na verdade, quem foi hoje a enterrar foi o Presidente do Partido Socialista da Jugoslávia, eleito democráticamente, que foi assassinado sem poder dizer ao mundo a sua verdade, enquanto os verdadeiros criminosos se passeiam impunemente por aí,,,

"Ma Verité" autobiografia
"Só a Verdade pode salvar o Mundo" texto da alocução de defesa de Slobodan Milosevic, feita pelo próprio, no tribunal de Haia em 18 de Fevereiro de 2002.


Milosevic e uma das flores com que o povo sérvio o homenageou: um Cravo - uma flor de que os portugueses se devem lembrar bem,,,