Não tem razão o Papa Ratzinger quando diz que as nações enlouqueceram com a globalização (dos ricos). Porque paira no ar europeu dos 27 unidos pela trama irreferendável, uma certa aura de comunidade primitiva, (será isto, segundo o esloveno Zizek, o “comunismo dos capitalistas”?) tão bem descrito no Acto dos Apóstolos: "Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum; vendiam as suas propriedades e os seus bens e dividiam o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um". A porra toda sobra para os ateus (os infiéis que não são fiéis), ou seja, os pobres - os que já não têm nada em comum porque tudo lhes tem sido sonegado nas privatizações, e porque as élites “fiéis” se preparam para lhes vender o resto daquilo que ainda não lhes venderam – cite-se: a Liberdade como conceito nihilista sem suporte económico, o Corpo controlado pela Asae e o Ar (empestado pela falta de Quioto) que se respira. Business as usual, trocando por miúdos, actualizando uma velha ladainha, nada de novo na Igreja pró-imperialista: "os capitalistas chamam "liberdade" à dos ricos a de enriquecer e à dos operários para morrer de fome" segundo dizia Lenine.
Este “Tratado Reformador” da Igreja dos Poderosos não irá a Referendo, porque é diferente do outro, diz a prédica oficial. Já tínhamos notado. Quando no que se refere ao projecto de “Constituição para a Europa” de 2003 se retirou a (incómoda) citação do grego Tucídides (criticando a Oração Fúnebre de Péricles aos atenienses): “A nossa Constituição... chama-se ‘democracia’ porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos”. Essa Constituição não era amiga dos cidadãos. Era uma redacção feita sobre a “Directiva Bolkestein” (a reforma neoliberal da legislação de trabalho) que gerou a revolta de milhões de trabalhadores contra a CPE, à greve generalizada de funcionários públicos, professores, estudantes, ferroviários e finalmente a todos os sectores de transportes paralizando a França. Por fim o Tratado foi rejeitado pelo voto em dois paises. Mas não morreu; foi enterrado vivo.Sócrates (Bildelberg/2004): “Este Tratado é completamente diferente”
Este é mais um (+1) Tratado, como o de Maastrich convocado de imediato pelos mentores maçónicos do Grupo Bilderberg para semanas depois da queda do Muro de Berlim em 1989. De facto já não é uma Constituição Fundadora. É o mesmo antigo projecto de Constituição com os seus 117 artigos cirurgicamente re-escritos nas partes incómodas, deliberadamente tornadas complexas para não serem entendidas pelas pessoas comuns. Uma charada que remete ponto por ponto para uma panóplia de outros pontos de directivas anteriores. Isto é, propositadamente ilegível, resulta do entendimento tácito entre líderes da nova União Europeia por forma a não prejudicar o núcleo duro dos países que decidem: Alemanha, Inglaterra e França – em última análise, que decidem em nome da salvação do modelo predatório americano comandado pela burguesia global num ataque feroz (medido em €uros - pelo FMI) ao modelo social europeu. O que está em causa é a globalização do neoliberalismo, não a difusão dos valores do humanismo europeu.
Claro que os portugueses não estão em condições para perceber isto; porque os dados e a verdade lhes é sonegada. No mais omisso, a assinatura do “Tratado de Lisboa” que lhes foi dado ver foi um espectáculo multimédia. E passa-se rapidamente a institucionalizar a fraude no Parlamento, espelho onde as nossas imagens de espectadores não se reflectem nos debates engatilhados ao mais perfeito estilo big-brother das televisões.* Honorabilissimos, Vêde pois o nó de polé!,,,
Que tão pobre máquina acciona
Os pensamentos dos monarcas e os planos dos Estados!
De que miséria depende a sua sorte!,,,
Mas supunhamos que em plena representação
A máquina, mal montada, se desconjunta,
Os cenários entreabrem-se e tudo deixam ver:
Logo o truque entra pelos olhos dentro!
Como é simples!Que grosseira trapaça!
Na “ratificação parlamentar” (está no nome: coisa para ser objecto de ratos), diz-se que os portugueses “não têm nenhum problema com a Europa” (de onde tem escorrido uns cobres para o clientelismo politico e o sindicalismo rosa-laranja do Bloco Central enriquecer ilicitamente). E como os estafados portugueses nunca antes se pronunciaram sobre a Europa (a de Soares e Cavaco), também não é agora que valeria a pena. Desacreditados como estão quase todos que se dizem “nossos representantes” o fatal manguito da abstenção de 70% espreitaria. Uma vergonha; se os Oliveiras e Costas das ex-UGTs e outros derivados se vissem constrangidos a aceitar encomendas para contabilizar os 30% de votos sobrantes para concluir que afinal o Sim ao Tratado e à Europa saíu triunfalmente triunfante.Que sobra aos excomungados da Igreja da Santa Alta Finança? – provavelmente da palhaçada parlamentar sobra a afirmação de pretensos valores de esquerda por sectores de esquerda que não são de esquerda, mas que são reconhecidos oficialmente como “esquerdistas”. E sobra uma Moção de Censura para afirmação do exiguo grupo a ver se incha por via da simpatia popular. E que tal se pegassem nas malas e saissem porta fora? Isso seria uma acção de Esquerda que valeria um bom sobressalto aos europeus ricos. Porém, amanhã ou depois de amanhã, o BE eo PCP (que por sinal não podem um como o outro) estarão alegremente a discutir pormenores da ratificação; a “esquerda” mais uma vez deixa-se ratificar. E nós, abstencionistas à força, estamos enredados numa teia sinistra.
em directo para a Emissora Nacional
* Poema original de Jonathan Swift: "Ode ao Honorabilissimo Sir William Temple"

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