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domingo, agosto 16, 2009

A 2ª Vaga da Depressão rebentará brevemente – ao jeito de hiperinflação global

tradução anotada do artigo de Webster Tarpley sobre o livro "Sobreviver ao Cataclismo"

“A segunda vaga da depressão económica mundial chegará em breve. Larry Summers, o czar judeu da Economia do regime marionete ao serviço de Wall Street (1) de momento instalado em Washington, confessou recentemente ao Financial Times num momento de distracção: “Não penso que o pior (da crise) já tenha passado...” – Algumas semanas antes, Jacques Attali, que foi conselheiro económico do presidente Mitterrand nos anos 80 em França, contou para a audiência do “International Economic and Financial Forum” (FIEF) em Paris que “o mundo enfrentará brevemente uma “república de Weimar planetária” na forma de hiperinflação, uma depressão similar à que aconteceu na sequência dos eventos na Alemanha entre 1922 e 1923".

Durante a última depressão económica mundial, a primeira vaga chegou sob a forma do famoso crash da Bolsa de New York em Outubro de 1929. Mas esse foi apenas o começo, o terramoto principal que desencadeou uma série de tsunanis. A depressão mundial de 1930 tornou-se irreversivel com a bancarrota britânica em Setembro de 1931, quando o Banco de Inglaterra cancelou os pagamentos em ouro. Por esta altura, uma vasta maioria do comércio internacional era financiada por titulos bolsistas em libras esterlinas emitidas pela praça financeira de Londres. Quando as libras inglesas começaram a flutuar caindo em sucessivas desvalorizações, aconteceu o bloqueio das reservas de moeda estável que sustentava a hegemonia britânica – a tarifa Hawley- Smoot decretada pelos Estados Unidos (US Hawley- Smoot tariff) ajudou a estrangular o comércio mundial, tornando a depressão ainda mais severa do que ela já era. A insolvência britânica de facto armadilhou o sistema bancário norte americano, tendo montado o palco para o clima de pânico bancário que devastou os Estados Unidos em 1932 e 1933, a ponto que nem um único banco continuava a operar quando Franklin D. Roosevelt assumiu a presidência do país em Março de 1933.

Na caminhada imperialista do dólar para a hegemonia mundial, os Estados Unidos teriam decerto sofrido outras ondas de choque adicionais se não tivesse sido feita uma triagem bancária implementada por Roosevelt durante o “feriado bancário(Emergency Banking Act) e outras medidas do New Deal que lhe sucederam e mitigaram a Depressão. Outros paises, mais notoriamente a Alemanha, cairam numa depressão profunda a qual se acabou por expressar em campanhas militares para ajudar a economia, que acabaram na pilhagem de outros paises da Europa (a 2ªGGuerra). Digam o que disserem os desacreditados fanáticos ideológicos das escolas económicas Austríacas ou de Chicago, ao contrário do que as suas análises proclamam, não existe nenhum ciclo de negócios automático capaz de maquilhar o mundo moderno da séria ameaça de desintegração económica. A Depressão terminará quando politicas adequadas ao estilo do New Deal forem implementadas, e nunca antes – como se demonstra no livro do autor Surviving the Cataclysm

os Dias de Hoje: entre 1929 e 1931

Hoje, comparando com aqueles tempos, estamos situados algures entre a onda de Outubro de 1929 (a qual corresponde à crise dos derivados e ao pânico da banca em 2008) e a onda de Setembro de 1931, a qual desta vez tem altas probabilidades de assumir a forma de uma crise hiperinflacionária do dólar, ou por outras palavras, uma hiper estagnaflação e depressão da economia mundial irradiada desde Wall Street e da City londrina. Quais serão então as caracteristicas da próxima onda que rebentará na corrente crise económica mundial?
A próxima onda de choque envolverá o pânico em todo o mundo em redor do dólar. Usando figuras simples, podemos dizer que cerca de 4 a 5 Triliões de dólares vagueiam pelo mundo fora na forma de “valores tóxicos”: letras do Tesouro dos EUA, Eurodólares, e as mais variadas formas de dólares virtuais (notas-tipo-cartas-de-jogo). O Japão arrecada 1 Trilião, a China quase 2 Triliões, e por aí afora. É naturalmente pouco aliciante para um país em desenvolvimento como a China deter tantos dólares em vez de os usar nas infraestruturas necessárias e bens capitais, e os lideres chineses sentem-se agora bastante inconfortáveis com a sua tresloucada decisão de amealhar falsos valores sobre futuros em troca das exportações que sustentam o modelo wall-mart de desenvolvimento americano – decisão tomada como é evidente sob pesadas pressões dos EUA.
Mas o ponto principal é que esses 4-a-5 Triliões são pela sua própria natureza excessivamente instáveis. Qualquer país que detenha largas somas de dólares ou titulos do Tesouro EUA olha nervosamente para todos os outros para ver se estes mostram sinais de se começarem a desenvencilhar deles. A partir de agora, tanto quanto nos é dado saber, nenhum grande possuidor de dólares vai a tempo de reduzir a sua exposição à inundação das notas verdes causada pelo seu lançamento no mercado internacional. Se alguém resolver abrir a torneira, isso causará um verdadeiro pânico financeiro que criará o caos, decerto não apenas nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, mas também noutras vastas áreas do resto do mundo. É desta forma concreta que a hiperinflação fará a sua aparição: se uma ou mais nações credoras dos Estados Unidos começarem a esvaziar abruptamente os seus cofres de dólares, o valor do papel-moeda norte americano pode enfrentar um colapso catastrófico; e isso desencadeará uma brutal hiperinflação na frente doméstica dos EUA.

Estará eminente a ameaça mundial de pânico sobre o dólar?

É preciso relembrar que o valor de uma divisa moderna não é determinada dentro do seu país, mas sim nos mercados internacionais de câmbios estrangeiros. É aqui que a fatal vulnerabilidade do dólar está situada. Na arruinada forma do sistema criado em Bretton Woods que permaneceu por mais de 40 anos – desde a colossal e histórica acção de vandalismo tomada por Nixon em 15 de Agosto de 1971, os Estados Unidos emergiram como o único país com licença permanente para financiar importações pagando-as no seu próprio papel-moeda pelo envio dessas remessas de notas de banco para todo o mundo. Qualquer outro país tem de fabricar e exportar alguma coisa que outros queiram comprar, por forma a possuir as necessárias divisas estrangeiras para pagar as suas próprias importações. A licença made-in-USA para imprimir papel moeda em regime de dumping fez deste país o último resort comprador de toda a espécie de tralha invendável produzida pelo mundo inteiro, liderando no processo um alto desemprego permanente a nivel interno. Existem muitos sinais que este inoperacional modo de funcionamento atingiu actualmente o seu ponto de ruptura.

Relações de câmbio internacionais, não o fornecimento de dinheiro – eis a chave para a resolução do problema

Miss Ellen Brown, que aparentemente apoia a doutrina do Movimento de Crédito Social dos anos 30, argumentou recentemente que o que domina agora a agenda é a deflação, afastando assim a hipótese de hiperflação. Esta análise baseia-se no facto de que os mercados de crédito privados nos EUA colapsaram em grande parte, e que a contenção dos índices monetários M1 e M2 támbem cairam ou subiram em margens insignificantes. Mas tudo isto escapa ao essencial. A Reserva Federal e o Departamento de Estado do Tesouro criaram recentemente quase 13 Triliões de dinheiro fresco para injectar em bancos falidos, companhias de seguros, empresas de cartões de crédito e outras instituições meramente financeiras. Isto tem vindo a ser feito para sustentar o valor da bolha de 1,5 Quatriliões de derivados financeiros que andam por aí a circular no mundo, dos quais dois terços ou mais se situam dentro da zona do dólar.
A depressão mundial começou quando estes derivados cairam para niveis negativos (como no esquema de Ponzi, quando cessaram de entrar novos valores, impossiblitando a valorização dos que já estavam dentro do sistema) significando isso super-perdas e, para quem se safou a tempo, super lucros no topo da pirâmide especulativa, como se viu no caso dos 3 triliões de “hedge funds” da AIG sedeados em Londres.

A luta continua. O regime financeiro imposto a Obama tem-se empenhado histericamente em reiniciar a produção de derivados na forma da sua secularização e/ou na criação de mais e melhores derivados apoiados em fundos de seguros garantidos pelo Estado.
Ao mesmo tempo, a administração Obama deliberou cinicamente conduzir os fabricantes de automóveis de Detroit para a bancarrota, destruindo centenas de milhar dos poucos empregos industriais remanescentes nos EUA. Isto significa que a produção industrial nos EUA continua o seu drástico declínio. Mencionar simplesmente “produção” relembra-nos que as sortidas escolas económicas austríacas dos “chicago boys” e as sucedâneas “escolas sociais de crédito” estão exclusivamente preocupadas com dinheiro e sistemas bancários, prestando pouca ou nenhuma atenção às indústrias, agricultura e produção de infraestruturas (tudo meios feitos insignificantes e deslocalizados para zonas de mão de obra barata, quando não escrava) negligenciando a criação interna de bens físicos tangíveis com valor de uso, bens essenciais e formas reais de rendimentos relacionados com mercadorias de que a existência humana depende.
Com as ajudas bancárias a subir e todas as formas de produção de bens a declinar, estamos postos perante a clássica situação de haver demasiado dinheiro distribuido por quantidades ínfimas de bens.

(continua amanhã)
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