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domingo, março 31, 2013

uma páscoa portuguesa

"Se não acreditam no que vêem como acreditar em coisas que só eu vejo?" teria dito Jesus.

O que vemos é que a educação em Portugal (e na Europa do Sul) sempre foi mais obra de endoutrinamento religioso que de ensino racional, o que é sem dúvida um factor importante no reconhecimento do atraso do povo. É preciso recordar que a elaboração da chamada "Biblia" foi uma lenta compilação de lendas romanceadas, histórias encantatórias e orações suplicantes ou bençãos postas em estrofes métricas nas chamadas "linguas de Côrte" que as invejosas populaças sempre corriam a vernáculo.


Desde o fim da Idade das Trevas ou do inicio da Idade Média (como o leitor preferir), num mundo destruido e marcado pelo espirito de reconquista da miriade de reinos pré-cristãos do Sacro Império Romano Germânico que simples episódios da atribulada vida das pessoas no quotidiano são objecto de "salvação pela intervenção de graça divina", coisas tão simples como o cavalo que torceu uma pata (nos Encantamentos de Merseburgo), o regresso à patria do Paraíso através do caminho da rectidão (Heliand, de Otfried von Weißenburg) orações para que as abelhas não voem para outro lado ou que os cães domésticos não fujam (Gregório na Benção de Zurique) acontecimentos heróicos celebrados em verso insistindo sempre na relação directa do rei com Deus cuja vitória se devia a ter afastado o inimigo que atacava como punição contra os desmandos do povo por fornicação, avareza e roubo (Hildebrandlied) milagres que ressuscitavam monges (Bento de Núrsia), contos de criaturas imaginárias como o unicórnio que só pode ser capturado por uma virgem (Physiologus), De Laudibus sanctae crucis, (Em louvor de uma Cruz que é Santa, de Isidoro de Sevilha), etc.

Portugal não fugia à regra. No prefácio do livro de Gomes Leal de 1910 da "História de Jesus para as Criancinhas Lerem" (1ª edição em 1883) o autor lamentava-se que a obra não tivesse ainda sido inscrita no ensino oficial, o que de facto só viria a acontecer em 1951 congratulando-se o editor Zuzarte de Mendonça com um panegírico: "... o professor consciente da sua alta missão,não pode nem deve limitar-se a ensinar; iluminando cérebros e esclarecendo inteligências: cumpre-lhe ainda educar, cultivando caractéres e formando almas". Como em tudo, o Iluminismo chegou aqui tarde, ou ainda nem sequer chegou...

Quando findou seu jejum/ foi pregar a Galileia
e nunca Principe algum/ teve mais nome em Judeia
Corriam a vê-lo gentes/ de várias terras, paises.
Seus olhos sérios, clementes/ saravam os infelizes

Pregava cosas dos céus/ Estrelas, Causas, Origens
sempre seguido dos seus/ bandos de humildes e virgens
Não tinha veste de lã/ guarida, alforge ou lençol
Afugentava o Satã/ com olhos cheios de Sol

Confundia os vãos Doutores/ mais os Escribas sombrios
Amava pregar nos rios/ nas barcas dos pescadores
Ó céus profundos e vagos!/ Ó astros de eternos giros
Ó espelho azul dos lagos/ Almas ceias de suspiros

Ó tristes tardes magoadas/ dum azul de opala e rubins!
Ó baías azuladas!/ Relvas cheias de jasmins!
Noites! qua a corça ao sabor/ das nascentes mata a sede
Ó tardes! que o pescador/ cantando, conserta as redes...

Vós só, ó coisas graciosas!/ podereis dar uma ideia
daquelas noites saudosas/ que ele andou por Galileia
Chegavam as mães, fiando/ à porta, o seu linho fino
para o ouvirem pregando/ coisas de um reino divino

Destruia à Plebe e às gentes/ os preconceitos erróneos
Sarava as almas doentes/ Lançava fora os demónios
Profetizava o Porvir/ Amava os montes e o mar
Nunca ninguém o viu rir/ mas, muitas vezes, chorar!

Os legionários romanos/ bradavam: "Este é um Deus!"
Choravam Samaritanos/ Paravam os Fariseus
Davam-lhe pomos gostosos/ mantos de fino tecido,
Vinham beijar-lhes os leprosos/ a ourela do seu vestido

As judias com as tranças/ limpavam seus brancos pés
Davam-lhe mirra, aloés/ Riam-lhe à porta as crianças
Mas com riso chocarreiro/ alguns diziam: "Que ideia
ser Cristo, Rei da Judeia/ o filho de um carpinteiro

Só anda com publicanos/ e com leprosos, vê tu
- Outros, com risos profanos/ clamavam: "Tem Belzebu!"


"Desculpe, não, não, o sr. Jesus já não mora aqui"...  
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