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domingo, agosto 19, 2007

expliquem lá isto, óh cães danados do Império

Amanhã 20 de Agosto terá lugar em Atlanta uma nova audição sobre o apelo no caso dos Cinco Antiterroristas Cubanos colaboradores do departamento de Segurança Nacional de Cuba, presospor espionagem” há vários anos nos Estados Unidos. O chefe da equipa de advogados encarregue do caso pelo Estado de Cuba, Leonard Weinglass esclarece as condições legais em que pode actuar: “Temos 30 minutos para resumir 20.000 páginas de provas!

Cuba, que quando se trata da defesa dos seus cidadãos não poupa em meios (como se viu no caso do sequestro em Miami do menino Elian González) criou uma importante comissão estatal, o “Comité Nacional por la Liberación de los Cinco” coordenada pela activista Gloria La Riva que tem trazido o caso ao conhecimento da opinião públlica internacional, criando-se de imediato e ao longo do tempo e por todo o lado uma grande onda de solidariedade. Em entrevista a Weinglass ficam esclarecidos os três precedentes na justiça americana determinados pela fúria persecutória contra o povo de Cuba:

“Esta é a primeira vez na história em que um indivíduo (António Guerrero) foi responsabilizado por uma acção de um Estado soberano em defesa do seu próprio espaço aéreo
“Um juiz não pode fazer alegações finais que não estão sustentadas em evidências ou provas. Mas o juiz que condenou os cinco cubanos foi ainda mais além dos seus limites: afirmou que “o objectivo dos Cinco era destruir os Estados Unidos
“ Três dos Cinco foram acusados de “conspiração por praticar espionagem” e foram condenados a prisão perpétua, sem que tivesse sido apresentado nenhum documento classificado de algum departamento de Segurança Nacional. É a primeira vez que isso acontece na história dos EUA”

Ao contrário, o cubano americano Luís Posada Carriles, velho colaborador da CIA, envolvido em crimes de terrorismo em acções comprovadas contra Cuba (o derrube à bomba de um avião causou 74 mortos e vários outros atentados) que já esteve preso na Venezuela de onde conseguiu fugir em 2002, foi ilibado por um tribunal ao abrigo de um pedido de asilo, e circula livremente por território americano. Estreou recentemente um documentário sobre o caso: “Terrorism Made in USA

quarta-feira, agosto 15, 2007

Estado, Propaganda e Terror

este post dava um filme
de “Barry Lyndon” passando por “Nascido para Matar” - até ao novo filme que está em rodagem: à nova idade negra de Inquisição nas Cidades-Estado dos novos principes que protegem os crentes consumidores-contribuintes. Para lá dos"blade runners" de "The Milion Dollars Hotel",

O nacionalismo e “O Mito das Nações”

1. os “Estados-nações de base étnica dos dias de hoje foram descritos como ‘comunidades imaginadas’, geradas pelos esforços criativos dos intelectuais e políticos do século XIX, que transformaram antigas tradições românticas e nacionalistas em programas políticos.” (Patrick Geary)

A nacionalidade e o nacionalismo, portanto, não são dados naturais. São fenómenos culturais e, como tal, construídos com um determinado propósito e sempre em benefício de alguém. A quem beneficiou a construção do nacionalismo?
“O processo específico pelo qual o nacionalismo emergiu como uma forte ideologia política variou de acordo com a região, tanto na Europa como em outras partes do mundo. Em regiões carentes de organização política, como na Alemanha, o nacionalismo estabeleceu uma ideologia com o fim de criar e intensificar o poder do Estado. Em Estados fortes, como França e Grã-Bretanha, governos e ideólogos suprimiram impiedosamente línguas minoritárias, tradições culturais e memórias variantes do passado em prol de uma história nacional unificada e língua e cultura homogéneas, que supostamente se estendiam a um passado longínquo. Em impérios multiétnicos, como o dos otomanos ou o dos Habsburgo, indivíduos que se identificavam como membros de minorias oprimidas lançavam mão do nacionalismo para reivindicar o direito não apenas à independência cultural, mas também, como consequência, à autonomia política.”
(ler mais)

2. "Lamentavelmente não é possivel guardar qualquer dúvida a respeito da crescente escalada da barbárie. No começo do século XX a tortura foi eliminada oficialmente em toda a Europa ocidental, porém desde 1945 acostumámo-nos a ela de novo, sem sentir uma repulsa excessiva - à sua utilização pelo menos numa terça parte dos Estados membros das Nações Unidas, entre eles alguns dos mais antigos e mais civilizados.
Uma razão de peso seria a estranha democratização da guerra. As guerras totais converteram-se em “guerras do povo”, tanto porque a população e a vida civil passou a ser o palco lógico da estratégia, quanto porque nas guerras democráticas, como na politica democrática, se demoniza naturalmente o adversário para fazer dele um ser odioso, pelo menos desprezivel.
Os profissionais da politica e da diplomacia, quando não estão pressionados nem pelos votos nem pela imprensa, podem declarar a guerra ou negociar a paz sem experimentar sentimentos de ódio relativamente ao lado inimigo, como os boxeurs se apertam as mãos antes de começar a peleja e juntos vão confraternizar e beber depois dela terminada. Porém as guerras totais do nosso século já não se confinam em absoluto ao modelo bismarckiano ou oitocentista. Uma guerra em que se mobilizam os sentimentos nacionais das massas não pode ser limitada, como o foram as guerras aristocráticas”.
(Eric Hobsbawm, 'Historia do Século XX', 1994).

3. “Persistindo nesta Guerra contra o terrorismo, sabemos que nunca a poderemos ganhar. Podemos porém persistir em continuar a falar em retirar liberdades ao povo. Os Média podem convencer toda a gente que essa guerra é real. O objectivo é trazer toda a gente que integra este mundo de alienados que acredita nessa realidade a (deixarem-se inventariar consentindo para sua própria protecção em) usar um chip RFID. Todo aquele que protestar contra nós verá o seu chip desligado” – depois de ouvirmos Nicholas Rockefeller dizer isto podemos concluir: isto é, deixa de fazer parte do mundo livre que luta contra o terrorismo inventado, ou seja, deixa de ter direito à protecção do Estado governado pelos novos inquisidores neoliberais.
Da redução das cabeças passando pela alteração dos corpos transformados pela biopolitica, até aos implantes cibernéticos, estamos em presença de uma velha aspiração filosófica – o Homem Novo – desta feita do homem tecnologicamente modificado pela economia de mercado, conforme o definiu Dany-Robert Dufour em artigo publicado no « Le Monde Diplomatique em Abril de 2005 (ver aqui).
Nicholas é neto de David Rockefeller, um dos principais fundadores do Grupo Bilderberg. Para quem pense que poderá haver algum exagero no que se possa extrapolar desta frase, a dúvida desvanece-se quanto vemos Henry Kissinger, outro fundador do Bilderberg e notório lobyista Judaico, assumir e citar como suas as declarações de Rockefeller no recente número 16 de Abril/2007 da publicação de propriedade judaica Time Magazine (repare-se na frase integralmente transcrita por Kissinger na parte que diz respeito à impossibilidade de vencer a guerra; o restante programa não é para divulgar):









O novo paradigma civilizacional das ilhas de prosperidade, como se vai tornando evidente, consiste numa sociedade de carneiros que por via do auto-controlo individual podem ascender a certos privilégios – o direito ao consumo de energias que se vão tornando cada vez mais escassas, protecção de emergência contra catástrofes, acesso ao emprego improdutivo, a possibilidade de uma educação não alienada, meios para pagar a saúde e subsistência desafogada nas familias integrantes das elites, etc. De fora ficam muitos milhões de novos escravos. Os que fornecem terroristas ao sistema. (Chomsky, outro judeu, desta feita de “esquerda”, para credibilizar a “direita” explica-o em “Hegemonia ou Sobrevivência”)
De tal modo isto é tácitamente assumido, que Nicholas Rockefeller em amena cavaqueira com o entrevistador Aaron Russo (outro judeu) reconhece cruamente a verdade sobre o grande tema que serviu de pretexto à construção deste mundo novo: “Todos nós sabemos que o 11 de Setembro foi uma fraude, um “trabalho feito a partir de dentro

Rockefeller admite "micro-chipar" a população mundial:

terça-feira, agosto 14, 2007

efeito quantitativo

A propósito das cerimónias que iniciam o arranque para os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, sob o título “Chineses Revoltados” uma central de comunicação nacional constrói uma imagem da China relatando que 800 habitantes de Xangai assinaram uma petição em prol de “direitos humanos” não especificados – mas que naturalmente terão a ver com a “democracia de mercado”.
800 pessoas relativamente à China, é mais ou menos mal/acomparado (atendendo à sua população total de 1,3 biliões) como se (aplicando uma regra de três simples) fosse uma parte correspondente a 0,06 de pessoa portuguesa que tentasse influenciar a decisão de construir nos terrenos da frente ribeirinha da cidade de Lisboa. Ainda assim, 0,94 por cento dessa pessoa manter-se-ia imóvel. Quer dizer, se um qualquer fulano piscar o olho ao doutor António Costa irá obter o mesmo efeito emocional da petição chinesa. Com o risco acrescido de, atendendo aos preconceitos cá do burgo, a coisa parecer uma cena de engate gay. Coisa impensável na cosmopolita Xangai, onde duas lésbicas se beijam apaixonadamente sob o olhar complacente de Mao:

segunda-feira, agosto 13, 2007

a transição na velha Albion foi pacata. Blair, exausto pelo esgotante trabalho de criminoso de guerra, foi substituido por outro tarefeiro com curriculo aprovado: na sua infância politica em Londres, Gordon Brown foi delator das actividades dos militantes do "Movimento contra o Apartheid" da África do Sul.








Já devíamos todos saber isso.

Que o défice astronómico que os EUA devem aos credores em todo o mundo (que lhes vão pagar, se algum dia pagarem, em moeda cada vez mais desvalorizada) não é considerada como dívida deles. É dívida nossa, que lhe devemos os vultosos investimentos guerrófilos na luta contra o terrorismo
inventado; o Raio que os Parta.

estou tão cansado desta América!, diz-nos Rufus Wainwright
as imagens que vemos, que acompanham a tristeza da música, expressam perfeitamente aquilo que transmite a muita gente os Estados Unidos de hoje


"Seguíamos por Mergellina, ali onde de repente Nápoles desaparece. A vastidão do mar, a sua agitação apagam-na, basta caminharmos pelo pontão. Na marginal compramos um tarallo com banha e pimenta, o vento rouba-nos o calor, nós recuperámo-lo caminhando depressa, pouca gente se arrisca ao passeio, soldados americanos com os sapatos de borracha passam a correr, o porta aviões no golfo é o único navio que não se move sobre o mar branco rasgado na crista das ondas. Maria olha os soldados americanos diz: "É uma bela raça, mas correm, correm por nada, sem nenhum motivo. Nós para desatarmos a correr é preciso que algum terramoto nos atire para fora de casa, (...)"
Erri di Lucca, in "MonteDeDio"

"sem nenhum motivo"?

a civilização ocidental

domingo, agosto 12, 2007

Heidegger e os Smash Cars









“O comando da PSP de Lisboa deteve terça-feira dia 7 quatro pessoas que realizavam uma “corrida” automóvel pelas ruas de Lisboa, tendo um deles atingido os 234 km/h, sendo detidos na Ponte Vasco da Gama, 11 quilómetros depois de ter iniciado a perseguição”.

Está bem. E depois?, o que faz Tarantino num blogue de inspiração marxista? Venho-lhes dar conta que Tarantino é um cineasta marxista.

Heidegger, explicou no “Ser e o Tempo” (Sein und Zeit) a diferença fundamental entre as duas principais posturas individuais de vida – entre aqueles que são pessoas que se afirmam no mundo com um estilo de vida de intervenção activa na prática (os “Dasein”, o ser-aí) e daqueles outros que se limitam a existir passivamente (o “Seiende”, o ente existente) – como corolário lógico da exploração desenfreada ("livre" e sem mediação) de uma classe pela outra, ficou famoso o discurso de abertura de Heidegger no ano escolar como professor jubilado na Universidade de Friburgo, quando se referiu à “glória e grandeza da revolução alemã de 1933”.
O filósofo Martin Heidegger nasceu filho de campónios alemães perto do lago Constança (1889), seguiu os conselhos dos avós da malta do Insurgente e logo que atinou com a vidinha converteu-se ao sistema que estava a dar, ao Nazismo; e essa apólice segurou-lhe a vida numa época conturbada, garantindo-lhe morrer tardiamente e de boa saúde (em 1976).

Entrando na vida real por “Death Proof” de Quentin Tarantino, o personagem central Stuntman Mike (Kurt Russel) é um “dasein”, curiosamente vivendo no mundo dos duplos que trabalham para segurança dos actores do espectáculo a sério (que nunca aparecem no filme) - a primeira imagem que nos surge é uma carapaça blindada (o carro objecto impressionante como meio de provocar espanto e mediática submissão no engate) dentro da qual ele, que cultiva uma imagem simpática de pureza abstémia) actua satisfazendo os mais inconfessáveis instintos. O mundo cá fora, como todos sabemos é duro e cruel, e perigos ferozes espreitam os desprevenidos “seiend”: Assim, numa violência inaudita a primeira parte acaba com uma catástrofe que destroça literalmente uma mão-cheia de dóceis e frágeis miúdas de Tarantino.

Refeitos do choque, transitando rápido por dois ou três fotogramas a preto e branco, o realizador faz-nos inquirir sobre uma questão premente: porque são sempre maioritariamente as mulheres a pagar as favas mais gravosas da violência do homem com Poder de atingir a sociedade com acções de choque e pavor?
Mas depressa o paradigma muda, e retornamos à cor, desta vez, por contraste, mais colorida e radiante. A moral da história vai já daqui contada, porque esta crónica só faz sentido para quem viu a obra: por muito horroroso e violento que um gajo possa ser, há sempre uma mulher pior ainda. Como veremos. Novo grupo de miúdas ocupa a cena, e por cúmplice coincidência elas são do mesmo mundo do cinema e da publicidade. E aí está novamente Stuntman Mike instintivamente excitado pela alegria e irreverência dos novos alvos.

Mas a perseguição rapidamente o transforma de caçador recolector em chacal ferido e perseguido pelas vítimas. Depois de uma alucinante corrida de smash-cars através das cross-roads norte americanas (citando Kerouac e o Tom Joad de Steinbeck pelo caminho) o vilão acaba humilhantemente filado e enfarda um valentissimo enxerto de porrada dado pelas belas, radiosas e gentis meninas (que afinal, para nossa surpresa eram também elas do mundo “dasein”). Gritinhos, saltos de excitação e contentamento nas cadeiras, vilão com o tacão da bota feminina no pescoço, célere e abrupto cai um fatal “The End” à moda antiga no fotograma. Porreiro. Afinal era um filme – e a pergunta de índole marxista é: mas afinal quem é que paga os danos de chaparia dos automóveis? Tarantino não explica, nem precisa, o espectador adivinha que, na sociedade de consumo as mercadorias são um mero pretexto, depois de sacar o efeito pretendido, quando se tornam imprestáveis vai tudo para a sucata.

E a segunda lição moral a extrair de “À Prova da Morte” é esta:
no dia em que as mulheres verdadeiramente emancipadas possam intervir em condições de verdadeira equidade com o violento mundo masculino, alguma coisa de fundamental na sociedade irá mudar. Força meninas! Dêm-lhes forte; mas atenção, tenham em consideração que a Condooleza Rice e a Manuela Ferreira Leite também são gajos.

sexta-feira, agosto 10, 2007

o holocausto dos pobres

Os Sionistas em Israel, virados para dentro, têm uma maneira diferente de manipular o "holocausto". Virados para fora, o que lhes interessa é perpetuar o negócio da memória d`"a grande tragédia dos 6 milhões de vítimas" solitariamente perdidas entre as muitas dezenas de milhões de mortos provocados durante a segunda grande guerra. Que se analteça como única a ideia do Crime, que se lixem os corpos daqueles que sofreram na pele as vicissitudes efectivas da guerra: em Israel atribui-se às vítimas do Nazismo, agora vulgares pessoas idosas sem préstimo, como pensão de sobrevivência a choruda quantia de 14 euros mensais!
Claro que os tempos estão maus; é preciso investir em formidáveis equipamentos militares para sermos hoje os carrascos, bem apetrechados e competentes, vítimas nunca mais. Até aí compreendemos.
Mais difícil é entender o porquê dos Sionistas (sim, os judeus americanos são os mesmos) investirem fortunas fabulosas em extraordinários meios de propaganda como o "United States Holocaust Museum" em Washington (para já não mencionar o fantástico cabotinismo do "Museu Judaico de Berlim" a que chamam abusivamente "museu da cidade") - Estes são actores mediáticos de filmes principescamente pagos, enquanto aqueles, os verdadeiros figurantes da tragédia, os deixam morrer à míngua.
Sempre foi assim, ele há judeus e Judeus. Os judeus milionários da grande indústria e da Banca financeira puseram-se a salvo para os Estados Unidos, acabando no final por controlar o próprio sistema politico do país, os outros, os pobres sofreram dramaticamente na pele os horrores do anti-semitismo - estes são os mexilhões do holocausto.
"I think we are in rats' alley
Where the dead men lost their bones"
T.S.Eliot

relacionado:
* "Eles escaparam da Shoah, mas não se escapam dos cortes orçamentais", Michele Giorgio
* a excelente colectânea de posts sobre o "holocausto"
que vem sendo desenvolvida pelo blogue "Um Homem das Cidades":
* Conversa com Lutz do «Quase em Português»
* Quem financiou Adolf Hitler?
* Não existiam campos de extermínio em solo alemão
* O dilema dos Judeus de Auschwitz - Liberdade ou Extermínio?
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quinta-feira, agosto 09, 2007

Francisco Martins Rodrigues:

"O sistema capitalista não vai evoluir, nem vai desaparecer por si, nem vai entregar o poder, a única perspectiva que existe é o seu derrubamento pela força"

Causou viva perplexidade o aparecimento de um ilustre desconhecido (foi, por exemplo o tradutor de “A Teia” de Harold Pinter) numa caixa de página de entrada do Público de quarta feira dia 7 (ler aqui) – nem mais, Francisco Martins Rodrigues, (um dos intervenientes da famosa fuga de Peniche, cuidadosamente ocultado dos meios de comunicação social durante 40 anos) era entrevistado nada mais nada menos do que sobre uma extenção à critica ao acordo PS-BE na Câmara de Lisboa – antes, no número 110 (Maio/Junho, 2007) da revista “Politica Operária” de que FMR é director, se tinha feito a análise ao congresso de Junho do “Bloco de Esquerda”. Nestes termos:

“A mensagem forte que saiu da convenção do BE, foi a do empenhamento do partido na causa ecológica. Seria uma boa opção se não houvesse outras bandeiras a pedir urgentemente para ser levantadas. O Bloco podia, por exemplo, ter proclamado como sua tarefa central a luta para travar o terrorismo dos EUA. Ou o direito à indignação dos dois milhões de pobres deste país. Ou simplesmente “Sócrates para a Rua!”. Ou o fecho dasd Lages e o regresso das tropas portuguesas do Afeganistão e do Líbano. Ou a resistência popular à Europa do capital. Ou a solidariedade com a Palestina…
Mas não. Escolheu a bandeira do Ambiente como tarefa central do partido. (Um género de consultores de AlGore de trazer cá por casa*). Esta opção, todos o entendem, tem um valor simbólico. É uma mensagem enviada à “sociedade”. Já vimos como, por esse mundo fora, a atracção pelo “ambientalismo” cresce à medida que um partido se afasta dos choques agudos da luta de classes. Compreende-se. Com um respeitável grupo parlamentar, com mais uma batalha autárquica em perspectiva, com um lugar a defender no “Partido da Esquerda Europeia”, o BE não se pode dar ao luxo de apelos à transformação da sociedade. Assume-se como partidos de “causas”, isto é, especializado em propor remendos decorativos sobre as chagas da sociedade. (…) Queremos desde já assinalar que esta convenção marca, provavelmente, a entrada do BE na idade adulta, como partido do sistema, perna esquerda da social-democracia. É bom que o PS comece a olhar com mais atenção para este “irmão mais novo”, com vista a futuros arranjos de governo”.
Escrito em Junho, 2007.Antes das eleições em Lisboa. Premonitório.

FMR foi um dos primeiros dissidentes do PCP (em 1964) mas o sistema obviamente apostou no Reformismo (com Álvaro Cunhal) para vedeta. Demorou esse tempo todo a desarmar a classe operária, mas conseguiram-no. Ao Xico Martins Rodrigues, neste tempo todo, nunca ninguém da CS deu voz no nosso país. A ponto de quase toda a sua obra teórica ser feita a partir do sítio Internet “Primeira Linha” sediado na Galiza. (ver um resumo aqui).
Compreende-se. O regime, principalmente depois de Cavaco, precisa de tentar extirpar a imagem neoconservadora agindo activamente sobre o “imbecil colectivo”. Nada como as agências de comunicação, numa politica bem consertada, começarem a dar voz a opiniões de “extrema esquerda” – com o objectivo bem determinado da extrema direita no Poder parecer que se situa ao Centro. E pelo caminho, a pequena burguesia urbana arranja uns tachos governativos. No final, estamos cada vez mais lixados, porque o espectro alastra.

Cavaco actua a nível da macro-politica global. Essa é a politica que lhe interessa, o big-game dos falcões do Pentágono. Para a politica interna ele olha para as câmaras com aquele ar engasgado de totó que não sabe de nada (mas comprometido QB porque sabe que este PS é a sua melhor arma para a execução das reformas neoliberais – afinal os homens até são socialistas, pensou-se à boca calada enquanto não se descobriu o logro). A esse nível ouça-se outra das vozes de Esquerda, Danielle Bleitrach, dissidente do PCF:
“Em vez de se enfrentar o capital e a direita, espalha-se a ideia de que pudemos preservar o nosso nicho continuando a pilhar o terceiro mundo e a odiar os imigrantes porque nos “vêm roubar o pão”. A deriva para a direita continua e corremos o risco de que aumente. A busca de um homem forte capaz de nos defender poderá levar-nos amanhã a descobrir que ele nos mergulha mais ainda na tempestade da mundialização capitalista, a reboque da loucura assassina dos Estados Unidos. Não podemos ser só anti-liberais, temos de ser anti-capitalistas e anti-imperialistas. Temos que lhes responder ao mesmo nível, saber como responder às deslocalizações, à imigração, à guerra”

(* parentesis da responsabilidade do autor do post)

quarta-feira, agosto 08, 2007

leitura de verão

Para descansar o raciocinio financeiro, pelo menos até dia 27, propomos-lhe uma interessantíssima e alucinante leitura: “Caminho”,
de Jose Mariá Escrivá de Balaguer.

Vamos refrescar a memória com o conteúdo daquele que é um livro estrela na mesa de cabeceira de muitos simpatizantes da Opus Dei, personagens que, apesar da rasquice da leitura com que se formaram, todavia ocupam no nosso país cargos importantes no mundo da economia, da cultura e da política. E estou-me a lembrar com particular enlevo de sua excelência o senhor presidente da república.
Bem hajam! deviam fazer uma edição de 1 milhão de exemplares para distribuir gratuitamente aos utentes dos transportes públicos

e para adensar mais a trama, apareceu uma mão invisivel

(ler mais)
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segunda-feira, agosto 06, 2007

O Estado e o Capital - Tom Thomas

"Quem já foi considerado morto está más vivo que nunca. Na sua qualidade de teórico activo e crítico, Karl Marx foi dado já como morto por mais de uma vez, porém sempre tem conseguido escapar à morte histórica e teórica. Tal facto deve-se a um motivo: a teoria marxista só pode morrer em paz junto com o seu objecto, ou seja, com o modo de produção capitalista"
Robert Kurz, in "Marx e o século XXI",
(Artigo cuja leitura é vivamente recomendada)

“Com este ou aquele governo no poder, o Estado desempenha sempre o papel para que foi criado. Esse ‘tremendo corpo parasitário que cobre como uma membrana o corpo da sociedade’, nas palavras de Marx, funciona autonomamente como uma máquina, de modo a assegurar a reprodução da sociedade capitalista. Serão vãs todas as reformas ‘democratizantes’ enquanto não forem subvertidas as relações de apropriação”.

Com esta ideia encerra Tom Thomas o seu livro sobre o papel do Estado, traduzido em português pela Dinossauro. Nesta época de desenfreada ofensiva neoliberal e de entrega ao capital privado de todos os serviços essenciais, tem alastrado a ideia de que a política da esquerda consistiria em procurar ganhar as alavancas do Estado para deste modo limitar os males do capitalismo. Thomas tem uma opinião diferente; tomando como exemplo o caso da França ao longo dos séculos XIX e XX, procura mostrar que não apenas a classe operária nada tem a esperar do reforço do Estado, mas que é do seu interesse traçar uma linha de demarcação nítida entre si própria e os paladinos da estatização.
Para estes, a grande oposição contemporânea não seria entre burguesia e proletariado, capitalismo e comunismo, mas entre capitalismo liberal e capitalismo civilizado e democratizado pelo Estado. Ora, “se entrarmos no concreto das relações sociais, descobriremos que o Estado tem como função reproduzir o capitalismo”. “As sereias de toda essa ‘esquerda plural’ e ‘esquerda da esquerda’, do PCF aos trotskistas, passando pelos Verdes e a Attac, os quais se oferecem para gerir este Estado (jurando, claro, que vão democratizá-lo), ocultam aos olhos do proletariado a única coisa que realmente conta: o Estado deve ser destruído”.
O autor passa então a desmontar os equívocos em que assenta a crença mística num regresso ao Estado Providência. Ela esquece que as leis sociais são menos “conquistas operárias” do que uma integração da classe operária no sistema capitalista, para que a sua luta de classe não vá ao ponto de o pôr em causa, e lhe permita reproduzir-se sem grandes convulsões. Quando o Estado legisla “em defesa dos trabalhadores”, ele apenas utiliza a pressão da luta operária para impor certas reformas aos capitalistas, só preocupados com o seu interesse particular e não com os interesses gerais do sistema.
Por outro lado – e isto é normalmente esquecido neste nosso “primeiro mundo” – sem a escravização das centenas de milhões de “povos de cor”, não teria havido migalhas suficientes para distribuir ao proletariado a fim de persuadi--lo de que o Estado pode tornar-lhe o capitalismo, senão agradável, pelo menos aceitável; não por acaso, esta forma só existe nas metrópoles imperialistas.
E quanto às “garantias democráticas” do Estado moderno, que tanto impressionam os espíritos crédulos, elas significam simplesmente que, nos países imperialistas, a hegemonia do capital é de tal forma esmagadora que as formas eleitorais de designação dos governos podem muito bem conciliar-se com um Estado que se tornou totalitário.
O Estado Providência, defende Thomas, tem sido uma providência, mas para o capitalismo; o seu actual desmantelamento resulta dos problemas acrescidos que o capital encontra para se valorizar e da lenta agonia do sistema. O que significa que o Estado Providência não ressurgirá das cinzas.
Conclusão: pode-se associar as vezes que se quiser as palavras “democracia” e “Estado”, formular todos os programas de reformas do Estado que se quiser, que isso nunca passará necessariamente de um esforço deitado ao vento, enquanto não se puser termo ao processo de extorsão da mais-valia na produção, à divisão do trabalho entre os poderes intelectuais e os simples executantes, isto é, ao sistema capitalista.
Assim, Tom Thomas continua a desenterrar, pedra a pedra, ano após ano, o núcleo da teoria de Marx, oculta e deturpada, não só pelos defensores abertos do capitalismo, mas também pelos inúmeros “marxistas”, que a pretexto de adequar o marxismo às novas condições, o esvaziam do essencial – o seu alvo revolucionário. Um texto denso, decerto nada “fácil”, mas que chama sempre a primeiro plano as tarefas centrais da luta anticapitalista.

(publicado na Politica Operária)

domingo, agosto 05, 2007

Havana Slide



Dos murais de Banksy até aos clássicos ensaios sobre a cegueira



Denis Diderot foi o autor da "Carta sobre os Cegos para uso daqueles que vêem" - eis a sinopse do livro, agora re-editado pela Vega, uma boa leitura para um domingo no pino de Agosto

"Diderot interroga um cego de nascença sobre a ideia que lhe desperta a noção de simetria ou da beleza, procurando certificar-se de que a "beleza" para um cego não é senão uma palavra quando separada da utilidade. Todas as respostas do cego se mostram relativas nos únicos sentidos de que ele dispõe. As principais noções de metafísica e moral são igualmente concebidas por ele depois da sua experiência sensitiva. Assim, não há bem nem mal, mas pessoas que guiam os cegos e lhes abrem horizontes. Este diálogo entre um cego e um ser que vê, patente na primeira parte desta Carta Sobre os Cegos, tem pois por objectivo levar o leitor a inclinar-se para o relativismo. A segunda parte do texto é ainda mais subversiva por Diderot sustentar aí a hipótese de uma grande desordem universal: o que é aqui normalidade não será noutro lado uma excepção? Radicalmente materialista, Diderot vira-se assim para o ateísmo e arrasta-nos com ele até à vertigem no turbilhão da sua reflexão que, publicada sob forma de livro em Junho de 1749, vem a ser censurada e a merecer-lhe a prisão".

quinta-feira, agosto 02, 2007

Michelangelo Antonioni e a História do Cinema (III) - a morte das obras de Autor

Giuliana (no Deserto Rosso): “Ma cosa vogliono che faccia coi miei occhi?...Cosa devo guardare?
Corrado: “Tu dici: cosa devo guardare? Io dico: come devo vivere? E la stessa cosa









Se queres Viver vai ao Cinema
François Truffaut

E pegando na frase inspirada em Antonioni, foi isso mesmo que a geração do pós-guerra fez. Foi ao Cinema (“as Luzes da Cidade”, Chaplin). Foi no cinema (“A Grande Ilusão”, Renoir) que apreendemos o mundo (“Hamlet”, Olivier) – em sucessivas colagens maravilhosas de matinées fumarentas, nevoeiro através do qual (“To Be or Not To Be”, Lubistch) víamos principalmente, em lugar de destaque, o desfilar de estórias sobre formidáveis ladrões e justiceiros, todos eles, gangs foragidos em busca de liberdade, irmanados no objectivo comum de construirem um novo mundo ("Birth of a Nation", D.W.Griffith) ou de abjectos facínoras aristocratas tisnados pelo sol, e de cruz às costas, no caso dos hispânicos (“Aguirre”, Herzog). Vimos o herói solitário que cavalga na vanguarda da tribo de exploradores (Cavalgada Heróica, Ford), sobre cuja sombra se fecha a porta após a conquista da estabilidade (The Searchers) o grito de criança pelo medo de abandono do conhecimento sobre o mundo imenso ("Shane", Stevens), a gota de sangue que cai dentro do copo do borrachon incapaz de servir uma justiça impossivel ("Rio Bravo"), a sofisticação da sêde do mal ("Touch of Evil", Welles), a pirataria comandada a partir dos off-shores ("Captain Blood", Curtiz) aceitando como única a parte que os grandes impérios empresariais da comunicação profissional lhe contam ("Citizen Kane"). As bandeiras vermelhas censuradas na exibição nos EUA (“1900”,Bertolucci); enfim, a perda generalizada da vergonha (“o Auto do Vigário”, Fellini)
E quem não lhe deu ("Singing in the Rain", Donen) para pesquisar a vida entre este tipo de exemplos seleccionados, vegetou por entre uma mundividência fantástica, ("Dogville", Lars von Triers) mormente pensando, quando cavalgando ao longe vislumbrava o Gary Cooper ou o John Wayne montados como se fossem um só nos seus cavalos, que os minotauros de facto existiam. ("Paths of Glory", Kubrick)





(mosaicos na Villa Adriana, Tivoli, Roma - em luta contra a selvajeria da Natureza: nenhuma concessão a Rousseau)

Exacto, esse mesmo Wayne, cavalgadura ("Apocalypse Now", Coppola) que se notabilizou por uma tirada famosa: “que o extermínio dos “índios” nativos americanos foi um “mal necessário” face à imperiosa necessidade de conquista de espaço vital para a civilização”.

Foi desse entendimento hollywoodesco como a coisa mais próxima do que seria qualquer obra cultural que alguma vez lhes passou sob as pencas elitistas judaicas, que os modernos esbirros do Império extrairam a filosofia de vida dos animais mirabolantes que pensam com os cascos militares – método desmentido décadas mais tarde pelo negócio de retorno às origens (Dança com Lobos, Costner) um olhar do lado de lá do espelho saído directamente da ancestral “Ghost Dance” dos extintos Lakota do chefe Big Foot que estavam a ser egoístas para com aqueles que precisavam de terras (como agora se precisa de petróleo). Ou seja, agora que somos todos índios, começamos finalmente a perceber a parte do mundo que nos tinha sido deliberadamente ocultado. Antes disso já Barthes e Foucault tinham declarado a morte do Autor. Guy Debord chegou mesmo a produzir um manifesto contra o próprio Cinema (Contre le Cinema) – leia-se, contra as pipocarias multiplex propriedade das indústrias da kultura – ou da arte de fazer esquecer o essencial. Desapareceram Antonioni e Bergman mas todos nos consideramos agora herdeiros das obras de Autor; aliás, no copyright socializado da era da comunicação globalizada pelas novas tecnologias, emissores e receptores, somos todos autores. (“Do the Right Thing”, Spike Lee). Por isso a ideia de Cinema que temos continuará viva.

Ingmar Bergman, "O Sétimo Selo" – derrotar a morte num jogo de xadrez - nenhuma contemplação, guerra sem quartel contra os penitentes da ignorância mística

relacionado:
Roland Barthes, "The Death of the Author & From Work to Text". O fim do Autor como fundamento da evolução do mundo
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quarta-feira, agosto 01, 2007

Antonioni e a História do Cinema (II)

Michelangelo Antonioni nasceu em 1912 em Ferrara uma pequena e curiosa cidade comunal da Emiglia Romagna entre o Veneto e Bolonha. Começou como crítico demolindo ferozmente as comédias italianas das décadas de 40 (Risi, Scola, Sordi); as suas críticas mostravam como “era terrível a Itália do pós-guerra” e como as pessoas tinham ficado superficiais e banais. A sua primeira ligação à realização de filmes deu-se como guionista de Roberto Rosselini – “filmar para mim é viver” diria mais tarde ("o Grito",1957). Em “Il Deserto Rosso” rompe com a análise social crítica neo-realista europeia consignada na dicotomia fascismo-antifascismo (DeSicca, Visconti, Lattuada, Zurlini, entre outros) – pela primeira vez uma história filmada debruçava-se sobre a indiferença da humanidade e sobre a sua cegueira em ver o mundo que estava a ser criado – mais concretamente, revendo-se na forma de filmar cruamente as instalações fabris exportadoras ao serviço do imperialismo, anteviu o fim da classe operária como alternativa de comando político na sociedade industrial. Efectivamente, como se iria vendo de seguida, apesar de o Partido Comunista (PCI) ser sempre a força mais votada em Itália, nunca conseguiria formar governo, incumbência sempre habilmente concertada a favor de instituir a “democracia cristã” como lider de uma sociedade de zombies apoliticos.

Da trilogia estrangeira de Antonioni (Blow-Up) que vagueia depois por “Zabriskie Point”, num exercício estético sobre a contracultura nos Estados Unidos (1970) com banda sonora dos Pink Floyd: "big man, pig man ha,ha,ha, what a charade you are" - chega-se à sua obra mais importante: “Profissão: Repórter” (1975), de seu título na Europa; o filme ficou anos sem estar disponível para o público nos Estados Unidos, até que o próprio actor principal, um Jack Nicholson ainda livre de cabotinismos de estrela acompanhado por uma fabulosa Maria Schneider - dono dos direitos sobre a obra – se encarregou anos depois de restaurá-la e relançá-la nos cinemas americanos, apelidando-a esotericamente de “The Passenger”, (vidé os tiques yankees no trailer)

Um homem num mudo desespero tenta fugir à sua própria vida. Um jornalista famoso e esgotado, David Locke, que troca de identidade com um desconhecido que morre subitamente. Antonioni considerou-o o seu filme “estilisticamente mais maduro” e também "um filme político", pois foca, usando uma linguagem metafórica, "a integração dramática do indivíduo na sociedade actual". Não só do jornalismo desvirtuado do que é hoje uma indústria (tal qual como os filmes) ,que nada tem a ver com receitas nem com espectadores, e por algum motivo é co-financiada pelo Estado ou pelos grandes grupos económicos que lhe fazem concorrência – Locke confronta-se com a declarada intenção de transmitir conteúdos e dirigir “mensagens”, e vê os media em geral (como nós agora vemos o Cinema) converter-se em ferramenta de colonização cultural. A nova identidade de Locke não só não esbateu esta problemática como ainda lhe somou novos problemas: ao vestir a pele do empresário rico Mr. Robertson cedo descobre que era agora o fornecedor das armas que sustentavam a guerrilha separatista. Todas as suas obsessões estão aqui: a crise de identidade, o existencialismo, a incomunicabilidade, a valorização da ambientação e da arquitectura desértica da paisagem, transferida para um formato de road movie

No célebre e fascinante plano-seqüência final de sete minutos, em que a câmara atravessa a grade simbólica saindo do quarto onde Locke repousa, e se perde depois em longos pormenores praticamente alheios à acção, só quando volta finalmente para dentro para revelar apenas um cadáver é que percebemos que as grandes narrativas jornalísticas morreram. É a verdade da nossa época: o verdadeiro repórter já não tem origem nos bancos das escolas de comunicação.
Antonioni não explica nada: Em “Profissão: Repórter” existem aliás muito mais perguntas do que respostas. Tudo isto se passou há mais de 30 anos; não deu por nada?

e a vida é um instante,,











Michelangelo Antonioni 1912-2007

Não é possivel hoje dizer nada sobre Antonioni (o cineasta em si), a Arte é uma Arma de Luta e o respeito obriga-nos a guardar silêncio. Antonioni definia-se a si próprio como um intelectual marxista, mas se formos ver a imagem que lhe querem legar como tradição, veremos apenas a chamada "trilogia do tédio" existencial (ideia que Marx ancorou ao "trabalho alienado") - a Aventura, a Noite, o Eclipse - as fúteis listas de prémios que coroaram formas artisticas reconhecidas pela novidade, pelo escândalo, pela elegância e pela economia de meios "transformadas em objecto chique no escavar do vazio de uma burguesia ociosa" (Ruy Gardnier).
A partir desta fase fazem parte da história da identificação de classe, o Antonioni fundamental: "O Deserto Vermelho" complementada por outra tetralogia essencial que, mostrando a crise da familia burguesa do pós guerra na Itália assimilada à força pela invasão do americanismo, pelo boom económico e pela modernização, desconstruiu a imagem e levou à perda de ilusões do cinema neo-realista italiano dos anos 60: “Prima la Revolucione” (Bertolucci, 1962), “I Pugni in Tasca” (Marco Bellocchio, 1965) “Teorema” (Pier Paolo Pasolini, 1968 - "cosa ne pensa della società italiana?": "la borghesia più ignorante d'Europa") “Dillinger è morto” (Marc Ferreri, 1969)

"Fazer uma história de Cinema é contar todas as histórias"
Jean-Luc Godard

Quando passaram "A Saída dos Operário da Fábrica Lumiére" no boulevard de Capucines em Paris (1885), os irmãos Lumiere foram os primeiros a tirar partido de um defeito na visão humana que não permite detectar os intervalos negros entre a colagem de imagens fotográficas passadas a determinada velocidade. George Meliés com "Réve d`Artiste" catapultou em definitivo o novo meio tecnológico à categoria de Arte (1898). Em pouco mais de cem anos um longo caminho foi feito no encadeamento das imagens até ao clássico icone pop-Art de Antonioni: "Blow-Up" onde o fotógrafo de moda Thomas capta instantâneos onde pensa ver nas imagens ocultas a olho nu as evidências de um crime cometido num parque londrino. Ficção ou realidade? Para chegarmos a Antonioni, a grande questão é saber se a nossa vida não é, ela própria, uma ilusão, que nos é efabulada pela lógica das indústrias culturais hodiernas

David Hemmings, in "Blow-Up" (1966)
à procura dos buracos negros ocultos entre as imagens da realidade
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terça-feira, julho 31, 2007

a silly season,,, ou de como se vai indo no partido de Cavaco

Sabemos que a chamada “época idiota” em Portugal abrange praticamente todo o ano. Como se faz nas sondagens eleiçoeiras, bastam uns quantos raides pontuais pelos incontáveis balcões das incaracteristicas tascas infecto-contagiosas do país para nos darmos conta do estado maioritário de grunhice : as conversetas de dichote fácil sobre a tusa lusitana, a cervejola e o pirezinho de não sei quê gordoroso, o riso alarve colhido directamente do álcool, enfim, os políticos profissionais que emanam “do nosso povo” não poderiam ser muito diferentes. Pani e circences, haja quem nos divirta! – fica para a posteridade o melhor dito grunho desta época:

O objectivo de José Sócrates é instalar uma república socialista em Portugal
(ouve-se um arroto em fundo, e cai o pano)




Actualização: a opinião factual de amsf que não merece ficar escondida na caixa de comentários:
"O Marques Mendes (MM) veio fazer uma triste figura à Madeira.Em 2005o foi convidado a vir ao Chão da Lagoa para posteriormente ser desconvidado e agora veio porque se fez convidado de acordo com as afirmações do Filipe Menezes.
O MM vem namorar os c/ de 10.000 votos dos militantes do PSD/M esquecendo que na semana anterior denunciou uma prática que é comum dentro do PSD. Segundo as suas próprias palavras os caciques do PSD arrebanham os militantes com as quotas por pagar e fazem-nos votar no candidato que apoiam a troco do pagamento das referidas quotas. Certamente essa prática será aplicada na Madeira nas próximas directas para a eleição da liderança do PSD pois a quase totalidade dos militantes regionais não têm as quotas em dia.
O seu aparecimento junto do AJJ terá dividendos a curto prazo mas a longo prazo essa "solidariedade" ser-lhe-á atirada à cara".

sábado, julho 28, 2007

Imagine-se que, em nome do Ocidente, seria mesmo inadiável tomar posse administrativa de regiões, pessoas e bens, que possuem matérias primas essenciais para o "normal" e imprescindível funcionamento da complexa civilização ocidental, entenda-se, do usufruto imoral das maravilhas da civilização por uma pequeníssima minoria de privilegiados do 1º mundo. Nesta óptica, Bush, respectivos capangas e os seus delegados internacionais, serão apenas um bando de tarefeiros contratados que, uma vez concluída a tarefa de destruição dessas áreas de intervenção, se reformam com benesses douradas, deixando a reconstrução e a reorganização do que sobreviveu para outros gestores politicos, aparentemente não comprometidos com os crimes perpretados. Na verdade tudo é concertado, entre uns e outros, com a devida antecedência, sob a égide dos donos do mundo, que pré- determinam, a cada passo, através dos cordelinhos financeiros quem apoia e paga o quê.

"Tudo se passa como se não tivéssemos interlocutor"
Eduardo Lourenço, in "Labirinto da Saudade"
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sexta-feira, julho 27, 2007

a profecia de Bolivar

Don Quixote avistou uma tasca e foi como se vira uma estrela no firmamento. Esgotado pela jornada, não se mostrou esquisito quanto a comeres:
"Sea lo que fuere, venga luego, que el trabajo y el peso de las armas no se puede llevar adelante sin el gobierno de las tripas"
Estávamos nisto, quando, vindos do norte chegaram os assaltantes, cercaram a tasca e impuseram uma providência cautelar ao uso da cozinha,,

intervenções militares norte americanas na América Latina


(via MRZine)

quinta-feira, julho 26, 2007

Adeus, e muito obrigado por tudo, a todos vocês escravos, que pagam a coisa pública

O caso envolveu tráfico de influências e falsificação de documentos,
apesar disso, três antigos ministros do Governo neocon de Durão Barroso e Paulo Portas - Carlos Costa Neves, Telmo Correia e Nobre Guedes - ficam de fora da acusação no processo "Portucale", que lesa o Estado português em milhões de euros. Só no processo sobre os amendoins desaparecidos (que irá julgar onze amanuenses da arraia miúda) houve transferências directas para contas do CDS no valor de 1 milhão de euros. Ainda por cima, Portas ameaça processar o Estado, por "quebras de segredo de justiça"

Como sempre, Cavaco é o Alfa e o Ómega no processo. Ora leia-se com atenção a cronologia do caso: (Ricardo Garcia, no Público)

P - O que é o projecto Portucale?
R - É um empreendimento turístico do Grupo Espirito Santo, no concelho de Benavente, projectado para 237 lotes, dos quais 167 para moradias, comércio, dois hotéis, dois golfes, um centro hípico, uma barragem e um clube de tiro. Remonta ao início dos anos 1990.
P - Por que razão é polémico?
R - Em primeiro lugar, pela participação ruinosa da Companhia das Lezírias, uma empresa pública, na origem do projecto. A empresa entrou no negócio com um terreno de 509 hectares, coberto com sobreiros em bom estado vegetativo. Mas depois abandonou o projecto, em 1994, vendendo a sua participação ao Grupo Espírito Santo, que ficou com um terreno por um preço muito abaixo do que realmente valia. Um inquérito da Inspecção-Geral das Finanças concluiu que a Companhia das Lezírias fez um péssimo negócio, mas ninguém foi responsabilizado.

P - E os sobreiros?
R - São a pedra no sapato da Portucale. Para concluir o projecto, a Portucale precisa de derrubar uma grande quantidade de árvores. Mas a legislação não o permite.
P - Por que motivo não se podem cortar sobreiros?
R - O sobreiro é uma espécie protegida devido à sua importância ecológica - por exemplo, é um travão à desertificação - e económica, sobretudo pelo valor da cortiça. A azinheira também tem o mesmo estatuto. O corte das árvores só pode ser efectuado se o projecto for considerado de "imprescindível utilidade pública" - uma figura que não se adequa bem a projectos turísticos privados.
P - Já foram cortados sobreiros na "Portucale"?
R - Sim. Cerca de 1700 em 1995, que permitiram construir uma barragem e dois campos de golfe. E mais 900 em 2005, para abrir espaço às infraestruturas do loteamento.
P - Como foi isto possivel?
R - Em 1995, o Governo de Cavaco Silva, a momentos de deixar o poder, alterou a lei de protecção dos sobreiros de modo a permitir o abate. Em 2005, também nos últimos dias do governo de Santana Lopes, três ministros declararam a "imprescindível utilidade pública" do projecto. É este último caso que está agora em processo judicial.
P - Houve também iniciativas de governos do PS?
R - Tudo indica que sim. Em 2001, no governo de António Guterres, o Ministério da Agricultura, apresentou uma proposta de alteração da lei, que permitiria o corte de sobreiros em casos de "empreendimentos com relevante interesse para a economia". Isto abriria a porta à "Portucale". Muito criticada a ideia caiu.
P - Qual é a posição deste governo?
R - Logo que entrou em funções, em 2005, o governo de José Sócrates anulou o polémico despacho do projecto Portucale. Mas também já fez o contrário: em Novembro passado, declarou a utilidade pública de um hotel e um casino, em Vidago, para permitir o corte de azinheiras.
P - O que argumenta a Portuale?
R - A empresa argumenta que os sobreiros a cortar eram uma pequena parte (inicialmente 12 por cento) dos 35 mil que existiam na propriedade. Invoca também que houve um deferimento tácito do abate dos sobreiros em 1993 quando a então Direcção-Geral das Florestas deixou passar o prazo para dar o seu parecer.
P - Qual é a situação do projecto?
R - O campo de golfe, a barragem e algumas estruturas já foram construídas há alguns anos. O loteamento está suspenso devido a uma providência cautelar da Quercus.

ps - Um marco histórico: as acções do banco de ricardo salgado abriram hoje com a cotação mais alta de sempre. Pois,,

quarta-feira, julho 25, 2007

o Medo Alegre

"The Psycho Squad", Peter Howson, 1989

a chamada de atenção de Manuel Alegre é, como muito bem tem andado a explicar por aí um publicitário famoso, um teaser - isto é, um alerta de diversão para o Medo feito por um homem de sempre do aparelho do Partido dito Socialista - destina-se fatalmente a desviar a atenção do essencial: o Horror!
pelo caminho, o frete - nada melhor para credibilizar a entidade emissora do Medo.

Alegre não abriu o bico nem tomou nenhuma posição frontal contra o processo de tomada de posse do seu partido para o ultraliberalismo pelo métodos americanos de eleição subterrânea, partido que já de si nunca tinha sido socialista, conquistado por gente nomeada com os mais sórdidos propósitos. Pior do que o horror com que Conrad jamais sonhou, estes personagens de opereta já vêm descendendo rio abaixo, percebendo até demais que o seu caminho é um rio transformado em esgoto, onde eles, dejectos flutuantes, personagens grotescas saídas de trevas de merda por ruptura nos depósitos do Império, estes senhores nem tampouco conseguem já ver que estão a começar a apodrecer em frente das câmaras de televisão.

Como se sabe desde que, por motivos de higiene Negri tornou o caso público, entrámos na era da “biopolitica” – o que pressupõe a criação (mesmo no sentido de capoeira) de homens bio- degradáveis – a condizer com o Poder,, recicla-se este e aqueles, vêm outros iguais com outro rótulo, quais produtos reciclados de segunda geração, com mais poder do que os que estavam antes sobre qualquer um de nós.
Os spartaquistas queriam que todo o homem com mais poder que outro pudesse ser revogável a qualquer momento. Seria bom. Porém, como a história demonstra, jamais podemos esperar que os que têm mais poder se decidam finalmente pela aplicação desta medida. Nunca acham ser este o momento certo. Eles crêem é que o povo é que deve ser revogável a cada instante, em massa!
Não sabemos realmente com rigor cientifico ao fim de quanto tempo de exercício um homem com mais poder que nós começa a fazer filha-da-putices, por isso a grande maioria tem colaborado docilmente na aposta em homens biodegradáveis. Cremos firmemente que a acção da natureza sobre os Políticos neoliberais, o efeito do sol e da chuva, a erosão pelo vento, a actividade bacteriana e a fermentação auxiliada pelo arremesso de uns valentes tomates podres, os façam inchar, até rebentar.

action against terrorists:
"O Massacre dos Inocentes" por Peter Paul Rubens, 1611