Confesso que sempre me tinha intrigado a
estrofe da
canção de
Leonard Cohen, um
judeu nascido na América; até que um dia me topei com outro dos seus poemas:
“Bem vindo a este livro de escravos
escrito durante o teu exilio
afortunado filho-da-puta...
enquanto eu tinha de lutar
com todos os flácidos mentirosos
da Idade do Aquário”

O gigantesco monumento em memória dos judeus mortos na Europa durante a 2ª Guerra, erigido em Berlim, tem uma dimensão despropositada e obedeceu a critérios de propaganda. Não é apenas
arquitectura pervertida. Encomendado ao arquitecto
judeu-americano Peter Eisenman a obra ocupa a área total de um enorme quarteirão (20.000 m2) na zona mais nobre da cidade, paredes meias com as Portas de Brandenburgo e o
Reichtag (o edificio do Parlamento, remodelado em 1999 segundo projecto do
arquitecto judeu Norman Foster). No próprio centro de informações do memorial,
(a) curiosamente construido aproveitando o abrigo subterrâneo do gabinete do Marechal Hermann Göering, se reconhece a importância de outros holocaustos similares, nomeadamente de militantes comunistas alemães, emigrantes russos, grupos de etnia cigana, homossexuais, etc. Nos anos que precederam o fim da guerra havia, só na Alemanha,
3 milhões e 500 mil soldados russos que estavam detidos como prisioneiros em campos de concentração. Quando o Exército Alemão começou a sucumbir ao avanço do Exército Vermelho fácil se torna perceber, na carnificina gerada, quem teria tido o maior número de vítimas, quando em desespero de causa os Nazis se decidiram pela “solução final”.

Finalmente, a coroar a monumental remodelação urbana depois da queda do Muro,,, nos terrenos a norte do “Memorial Judaico” (ele há com cada coincidência !?) está em construção a maior
embaixada dos Estados Unidos no estrangeiro, com inauguração prevista para 2008, com a qual só rivaliza a que está simultâneamente a ser
edificada em Bagdad como centro nevrálgico de controlo de todo o Médio Oriente.
“Quem não olha para os erros do passado, está condenado a repeti-los”
Berlim 1918-2008

O confronto entre as potências imperialistas, pela conquista de espaço económico vital, teoricamente tinha acabado (1914-1918), a Alemanha tinha perdido e estava sujeita ao pagamento de humilhantes indemnizações de guerra às potências aliadas. O esbulho, fixado por ultimato de 1921 em 132 mil milhões de marcos foi reflectido em cortes abruptos das condições de vida dos alemães e provocou uma tremenda crise interna, afinal ditada do exterior pelos vencedores. Era necessário pagar anualmente uma dívida de 3500 milhões de marcos-ouro. Os governos conservadores devem então ter tentado passar a mensagem “de que
era preciso cortar nas despesas para equilibrar o défice”
Contudo a responsabilidade da declaração de guerra tinha partido da oligarquia monárquica – o rei da Prússia Wilhelm II e Imperador da Alemanha foi o responsável pela declaração de guerra à Russia e à França – mas agora a situação económica de muitas famílias é que era desesperada. Mais de 200 mil soldados tinham sido mortos em combate. A principal indústria, a do armamento, tinha sido colocada sob alçada militar. O desemprego generalizou-se.
Heinrich Mann, (cujo primeiro nome era
Luiz) um
judeu socialista de Berlim futuro prémio Nóbel, depois de “
o Professor Lixo” (1) escreve “
Os Pobres”. Mais tarde depois de tomar o caminho do exílio para os Estados Unidos publicaria a sua obra bibliográfica “
Uma Época em Exame” (1945) considerada de grande importância para se conhecer a Alemanha da primeira metade do século XX. As greves e as manifestações sucediam-se. Era necessário recorrer à mobilização geral das forças policiais para reprimir as grandes manifestações de desempregados. O clima geral era de insurreição e de guerra civil, tanto mais que a Revolução Russa tinha triunfado em Novembro de 1917 e em Berlim tinha sido fundada, ainda no seio do Partido Social Democrata (USPD), a
Liga Spartakus, com a militante
judia-polaca Rosa Luxemburg à cabeça, que congregava o movimento comunista em redor de um
programa de acção preconizando a formação de conselhos (sovietes) de Operários e de Soldados.

Em Novembro, o rei Wilhelm II abdicava, pondo fim ao II Reich, e cada uma das facções politicas em palco proclamava à sua maneira a República Alemã; era a Revolução.
Foi desta varanda do Stadtschloss (hoje, depois de vicissitudes várias, a fachada foi remontada no
Lustgarten) que
Karl Liebknecht em 9 de Novembro de 1918 proclamou a
República Socialista Livre da Alemanha.
(1) celebrizado no cinema como argumento para o filme “
O Anjo Azul” realizado por Joseph von Sternberg.
Os grandes
Banqueiros e os patrões da Industria cedo se aperceberam da importância da manipulação das massas populares e de como estas poderiam ser neutralizadas e
vendidas ao Poder através da criação de ilusões. Na época as obras de Sigmund Freud e Carl Jung causavam grande polémica, e tiveram leitores atentíssimos. Sob a égide de Hindenburg, e financiada por magnatas como Ludendorf, Kirdorf, Thyssen e Krupp foi criada a UFA, (
Universum Film Aktiengesellschaft), que ainda hoje existe, virada principalmente (como é óbvio) para a produção televisiva. Hoje o Dresdner Bank é o principal accionista dos estúdios; a sua filial hi-tech berlinense na
Pariser Platz, concluida em 2001, situada paredes meias com a embaixada americana foi projectada pelo arquitecto
judeu-americano Frank O`Ghery.
A inauguração dos estúdios da UFA em 1917 em Babelsberg, nos arredores de Berlim, constituiu um padrão de inovação que trouxe fama mundial para o cinema alemão. Aí foram produzidos muitos filmes famosos: “O Gabinete do Doutor Caligari” de Robert Wiene, “Madame Dubarry” do
judeu Ernst Lubitsch, “Nosferatu” de Friedrich Murnau, “A Morte Cansada”, “Matou M”, “Doutor Mabuse” e “
Metrópolis” do
judeu antinazi Fritz Lang, “Diário de uma Mulher Perdida” de Georg Pabst, entre muitos outros. Com a chegada do Nazismo nos anos 30 (Hitler considerava a UFA infestada de realizadores, argumentistas e actores judeus, o que até era verdade), a maior parte dos realizadores deixou a Alemanha a caminho do
exilio nos Estados Unidos, onde continuaram a trabalhar.
A hegemonia de Holywood estava garantida.

De autoria de um dos que ficaram - Werner Kraus - surgiu uma obra premonitória dos tempos que aí viriam - o filme considerado o mais anti-semita de sempre: “
O Judeu Süss”. Se fosse nos dias que correm, a personagem
terrível seria o Bin Laden.
Porém, se a
élite cultural judaica abastada e a burguesia rica e próspera tinham conseguido escapar-se para a
América, as classes dos
judeus mais desfavorecidas tiveram
um destino bem mais trágico.
concluindo:
o III Reich foi anti-semita porque perseguiu e matou judeus,
o IV Reich é anti-semita porque persegue e mata árabes, (mas nem todos)

,,, pelo caminho, da ala esquerda da Social-Democracia alemã,
tudo o que resta hoje é este pedestal vazio na nóvel Potsdamer Platz
onde antes estava a estátua de Karl Liebknecht.
Reza uma competente placa em aluminio que a estátua
foi desmontada por deliberação camarária tomada por maioria
da Assembleia Municipal. Têm vergonha da sua História,
(
ou medo?) mas estão enganados nos simbolos, que
desmontam por um lado, mas que edificam por outro.
Aliás, a História da Alemanha deixou de ser escrita por alemães.
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