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segunda-feira, dezembro 28, 2015

Aprender, Aprender Sempre

No seu 122º aniversário, um Poema a Mao Tse Tung, por Roque Dalton Garcia, poeta salvadorenho (1935-1975) colocando temas de reflexão para os Maoistas portugueses: se estudam a composição de classes em Portugal, se identificam qual a força principal que pode transformar a sociedade, se acham que apenas agitar o fantasma da classe operária, só por si, na actual divisão nacional e internacional do trabalho é condição suficiente para a vitória do socialismo...

Mao Tsé Tung levou o marxismo-leninismo até às suas últimas consequências
pelo menos num aspecto fundamental: o de construir a aliança operário-camponesa no seio da guerra do povo e assim tomar o poder.

Seguindo Lenine, definiu o povo, situou as classes e as camadas sociais que formam o povo, localizando assim o inimigo interno, nacional, o que apoia os imperialistas estrangeiros
e no seio do povo distinguiu duas forças: a força principal e a força dirigente

A força dirigente era a classe operária que se contava por centenas de milhar
e a força principal era o campesinato que se contava por centenas de milhões
A força dirigente não era suficientemente poderosa  para sozinha tomar o poder, e a força principal não poderia por si só orientar o seu potencial

Os que queriam abraçar o leninismo só pela aparência, acreditavam
que bastaria à força dirigente ocupar as cidades, os “centros nervosos” do país,
com greves e manifestações, que conduziriam, paulatinamente, até à insurreição.

Isso significava, na prática, manter separadas a força dirigente da força principal
levando em conta a vasta extensão da China
Houve grandes matanças; e por causa desta concepção a classe operária chinesa foi massacrada, não só simbolicamente, em Xangai e noutras grandes cidades.
Mao Tsé Tung retirou o leninismo da armadilha das cidades e da cabeça e dos braços dos operários,
das cabeças, das bocas e das mãos dos intelectuais e das organizações do partido, e conduziu a força dirigente até ao coração – fortaleza inexpugnável – da força principal:  as massas trabalhadoras dos campos. E ensinou-nos, deste modo, que na era do imperialismo agressor esta tarefa é desde o principio, num ou noutro sentido, uma tarefa que necessita da garantia das armas.

Assim o Partido Comunista da China, o partido da classe operária, pôde unir os trabalhadores do campo para a grande guerra do povo, uma dupla guerra do povo:  a guerra contra a invasão imperialista japonesa e a guerra contra as classes dominantes chinesas  e contra os seus lacaios comuns: os militaristas da exploração do povo encabeçados pelo sangrento Chang Kai Chek
a guerra pela libertação nacional e a guerra por uma nova democracia que abriu o caminho para o socialismo.
E deste modo entrou o leninismo no mundo dos países colonizados e neocolonizados
atravessando rios e desertos numa Grande Marcha para norte
respirando o cheiro a sangue e pólvora, sofrendo sob a fome e a sede, descalço e esfarrapado,
porém com o fusil reluzente
o poder nasce da ponta das espingardas e as espingardas são apontadas ao alvo pelo partido,
desenhando mapas, planificando operações à luz de lamparinas de azeite debaixo da chuva e de neve,
de dia sob o sol implacável sempre com a tocha operária erguida ao céu
que atiçou as labaredas na pradaria camponesa até que o sol ficasse vermelho.

sábado, dezembro 26, 2015

no dia 25 de Dezembro de 1991 a União de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi oficialmente dissolvida

Face à problemática da decadência económica colocada pela “perestroika” (abertura liberal e re-estruturação) em Março desse mesmo ano foi proposto aos cidadãos da URSS um referendo sobre o destino do sistema de economia centralizada pelo Estado. O engodo usado pelo secretário-geral do Partido ainda dito Comunista Mickhail Gorbatchev conluiado com os interesses estrangeiros, foi o de que se tratava de um regresso ás práticas democráticas de Lenine - 78% dos votantes optaram pelo “sim” à continuidade da URSS. Como se veria, era um embuste.
Persistindo em actuar contra a vontade dos eleitores as tensões sociais agravaram-se, instalou-se o caos na economia, o acesso às necessidades básicas dos cidadãos foi boicotado. A 24 de Agosto houve uma intentona de golpe-de-estado levada a cabo por sectores liderados por altas-patentes militares em Moscovo. As forças armadas foram desgraçadamente divididas. É o momento em que os russos, privados do controlo operário sobre as hierarquias, rompem com os velhos hábitos de obediência, passividade e resignação, pensando reafirmar os seus direitos, dispostos a assumir as suas responsabilidades como cidadãos. Unidades inteiras recusaram-se a tomar parte na conservação do poder do Estado. Um grande número de tropas enviadas para cercar o parlamento russo deparou-se com uma multidão de 100.000 pessoas reunidas para defender o governo que tinha desertado para o lado de BorisYeltsin. O ministro da Defesa Dimitri Yazov e seu vice, Valentin Varennikov, foram presos. Três dias depois, face ao fracasso do golpe, o marechal Sergei Akhromeyev suicidou-se no seu gabinete do Kremlin.

O marechal Akhromeyev tinha dedicado toda a sua vida a três instituições: as Forças Armadas soviéticas, ao serviço das quais tinha sido ferido em Leningrado em 1941 e através de cujas fileiras tinha ascendido ao cargo de chefe do Estado-Maior Geral (entre 1984-1988); o Partido Comunista, ao qual havia aderido desde os anos 30 e em cujo Comité Central havia servido desde 1983; e à causa da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em si, fundada oficialmente um ano antes de seu nascimento, em 1923. Na sequência do fracasso do golpe em Moscovo todas essas três vertentes se tinham desintegrado. Yevgeny I. Shaposhnikov, o novo primeiro-ministro indigitado anunciou que 80 por cento dos oficiais das forças armadas deveriam ser substituídos por serem politicamente suspeitos. O traidor de serviço Gorbachev, ouvido o seu conselheiro para os assuntos militares, escreveu uma cíninca nota sobre o suicídio do marechal Akhromeyev : “Tudo aquilo por que tenho trabalhado foi destruído”. Em finais desse ano a situação tinha-se tornado insustentável. O Partido Comunista foi ilegalizado. Multidões entusiasmadas em Moscovo rejubilavam ao deitar por terra as estátuas de heróis da revolução socialista russa. Devido á negativa dos presidentes das Repúblicas da Comunidade de Estados Independentes para continuar a fazer parte da União Soviética e reconhecer os órgãos de poder central , a 25 de Dezembro de 1991 Gorbatchov optou por se demitir do cargo. Terminou deste modo uma experiência, mesmo assim um feito histórico único, que havia durado 74 anos.
Hoje, existem ainda muitas forças politicas dentro dos Estados Unidos que insistem em tratar a Rússia como uma potência perdedora, lembrando o facto ao actual presidente Vladimir Putin. Na época George Herbert Bush não tinha perdido tempo quando procurou explorar a situação para obter ganhos políticos domésticos, afirmando no discurso do Estado da União de 1992; "pela graça de Deus, a América ganhou a Guerra Fria." Os três presidentes seguintes tomaram essas palavras muito a sério e trataram a Rússia como vencida em vez de compreender que não foi a pura força e poder do establishment político dos EUA, mas sim o genocídio da economia revisionista socialista que derrubou a URSS. Os Estados Unidos começaram desde então a tornar-se cada vez mais agressivos em vez de inteligentes. O presidente Bill Clinton ordenou os bombardeamentos da NATO à Sérvia sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e defendeu a expansão do Pacto Atlântico para incluir antigos países do Pacto de Varsóvia e montar uma rede de bases militares que começaram a cercar e ameaçar mesmo de frente a Rússia.

quinta-feira, novembro 26, 2015

sobre o Socialismo na era dos Call-centers e do Trabalho Indiferenciado

“Apelar aos trabalhadores sem ter ideias estritamente cientificas ou uma doutrina construtiva, especialmente na Alemanha, equivale à vã e desonesta travessura de apregoar que se pressupõe um profeta inspirado de um lado e do outro apenas asnos boquiabertos (…) pessoas sem uma doutrina construtiva não são capazes de fazer coisa alguma, e de facto nada realizaram até agora excepto fazer barulho, atiçar chamas perigosas e levar à ruína a causa que abraçamos” (resposta de Marx a um opositor na Liga Comunista em 1846)

Marx cita o caso particular da Alemanha, onde o estádio de desenvolvimento tecnológico já tinha criado uma ampla maioria de operários, na época uma classe revolucionária capaz de agir com sucesso na transformação social em direcção ao Socialismo. A Rússia de 1905-1917 não era um país industrializado, não tinha uma classe operária em número significativo, excepto na urbana Petrogrado. Daí a célebre pergunta colocada pelo jornalista americano na entrevista a Lenine no Instituto Smolny: “e propõe-se fazer tudo isso com mais de 90 por cento de mujiques analfabetos? Na verdade em todo o restante e vasto território russo seriam precisos quatro anos de guerra civil e vencer um cerco feroz das potências imperialistas a partir do exterior. Lenine, perante o legado feudal czarista iria “rever” e actualizar o conceito marxista de organização do Partido Comunista a partir da radicalização da ala esquerda da social-democracia: “Todo o Poder aos Sovietes!”. Foi legitimo e teoricamente certo, marxista, que uma minoria liderasse o processo revolucionário até à vitória, adquirida pela conquista progressiva do povo trabalhador para o partido e para causa comunista.

Ponto. 98 anos 98 no futuro, Portugal, perante as classes sociais em presença e a divisão internacional do trabalho vigente, supunhamos que temos um bando de profetas inspirados, aka grosseiros, politicamente analfabetos, sacanas e civicamente malcriados (obviamente há excepções), fazendo um barulho proselitista dos diabos debitando aqui o mesmo discurso de 1917 com destino a supostos asnos boquiabertos?. Poderão montar com relativo sucesso um soviete exclusivo entre eles na Avenida do Brasil, mas não vão conseguir sair à rua, excepto para beber a bica, se entretanto não falirem.

quarta-feira, junho 03, 2015

e assim nasceu esta democracia impoluta

desde a primeira hora do 25 de Abril de 1974 o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP) afirmou tratar-se de um golpe-de-estado visando recondicionar a burguesia e "modernizar" as condições de exploração capitalista nacional, monopolistas, latifundiários, generalato, politicos fascistas, todos atascados na guerra colonial e repudiados por todo o mundo civilizado.
a reacção contra o embrião do Partido Operário não se fez esperar
no dia 28 de Maio de 1975 o governo "revolucionário" do MFA-Unido-ao-Povo-do-P"C"P manda prender 432 militantes comunistas, ilegalizando e impedindo o MRPP de concorrer às primeiras "eleições livres" 
...........

sexta-feira, abril 24, 2015

Fascismo e Comunismo? era preciso sermos vigilantes

"Estalinismo" é um conceito politico-económico datado de uma determinada época, não é uma prática escolhida e importada avulso para a nossa época (em que as relações de produção económico-sociais são diferentes) por individuos a titulo pessoal consoante os seus estados de alma. "Estalinismo" não é uma definição apicável em modo contemporâneo, a menos que se seja seguidor ideológico de mentirosos ultra-reaccionários. (a ler: Os arquivos mostram as mentiras da propaganda sobre a história da União Soviética. De Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn)

o pavilhão da União Soviética na Expo Mundial de 1937 realizada em New York (EUA) 
contava com duas estátuas gigantescas esculpidas em granito, o material de que é feita
a herança socialista dos dois grandes lideres Lenine e Estaline

Vladimir Putin designa o regime de Estaline como uma coisa feia. Mas ressalva que o regime de Estaline não pode ser comparado com o regime de Hitler. Porém, o povo da Rússia discorda do primeiro pressuposto de Putin. Os russos recordam o regime de Estaline como o regime que salvou a civilização humana da catástrofe Nazi e trabalhou na construção de uma nova sociedade mais justa. Ao inquérito feito sobre esta questão os russos responderam assim: 1. Concordam com Putin: 5,6% - 2. o regime de Estaline salvou a civilização humana e ajudou a construir uma nova sociedade mais justa: 93,5% e 3. não sabe/não responde: 0,9%. Aconselha-se portanto Putin a parar de mentir baseado nos contos infantis do Soljenitsine que leu na adolescência.
O espirito do Tempo
JV. Estaline: "Sou apenas um discipulo de Lenine 
e o meu objectivo é ser bem sucedido como seu discipulo"

"Temos de pôr fim à complacência oportunista que surge a partir da suposição equivocada de que à medida que crescem as nossas forças, os nossos inimigos se tornam cada vez mais dóceis e inofensivos. Tal suposição é fundamentalmente errada. É um eco de um desvio de direita, que garante a toda a gente que os inimigos aceitam calmamente a influência do socialismo, que por fim se tornariam socialistas reais. Os bolcheviques não devem descansar sobre os louros e ficar de cabeça vazia. Não precisamos de complacência, mas de vigilância, o verdadeiro bolchevique tem uma vigilância revolucionária.

Devemos lembrar-nos que quanto mais desesperada a posição dos inimigos se torna, mais facilmente eles vão agarrar-se a medidas extremas, as últimas medidas do condenado na sua luta contra o poder soviético. É preciso lembrar isso e ser vigilante".

JV Estaline "Os defeitos no trabalho do partido e medidas para liquidar os trotskistas e outros concessionários da nossa casa: Relatório ao Plenário do Comité Central do RKP, Março de 1937"

"O fascismo - é uma ditadura terrorista aberta dos elementos mais mais reacionários, mais chauvinistas e imperialistas do capital financeiro. Fascismo -. é o poder do capital financeiro,  é a organização de represálias terroristas contra a classe trabalhadora, da parte revolucionária do. campesinato e da intelectualidade. O fascismo na política externa -. é o chauvinismo na sua forma mais crua, cultiva o ódio xenófobo contra outras nações ".
Georgi Dimitrov - líder búlgaro do movimento Internacional Comunista.

quarta-feira, abril 15, 2015

recuperar as "conquistas de abril", de acordo com o acordo com o A em letra pequena

mon petit portugal
Abril não volta! e os militantes da linha "da frente" não devem andar a debitar abstracionismos, sob pena de se transformarem "nos de trás". Antes do mais é necessária uma revolução cultural, ter a coragem de actualizar o léxico ideológico. Abandonar a ilusão da bajulação europeia que destinou os portugueses a fazer camas de hotel e servir à mesa os turistas ricos. Numa sociedade como a nossa, dependente e terceirizada o que significa o "Proletariado"? e "Intervenção de Massas"? para concluir ser precisa "uma acção apontada para o futuro, que faça frente ao capitalismo de hoje". Mais uma abstração: que "Futuro" e em relação a que Passado? ao da famigerada aliança Povo-MFA?. "Povo", outra abstração: o povo das conquistas de Abril (como as catadupas de pseudo-comunistas enfiados com empregos na função pública. estão à espera de fazer uma revolução com empregados de escritório e call-centers? como esse "Povo" cuja maioria assistiu paulatinamente à desindustrialização do país confortavelmente instalado atrás de secretárias. Pudera. Corria-lhe o "Capital" assistencialista à improdutividade a curto prazo de olhos postos em recuperá-lo em centuplicado no médio prazo. E o P"C"P a ver.

Melhor seria que se reciclassem e auto-educassem a vista grossa para ver onde está hoje o capital contemporâneo, não o "capital" abstracto, ou o capital financeiro produzido artificialmente - indefinição que leva o autor deste escrito a fingir chegar à conclusão de "ser necessária uma acção politicamente independente que ouse levantar as suas exigências de classe contra os interesses do Capital". o proletariado é uma "classe"? e homogénea? - melhor seria para a sanidade pública dos portugueses que "os da frente" vissem onde está o verdadeiro Capital, o que é assente no Valor-Trabalho (acumulado, planificado e controlado por um Partido Comunista), o capital que está neste momento a produzir uma revolução à escala global. E os do "P"C"P a (não) ver.

segunda-feira, abril 06, 2015

Produção, Circulação e Consumo na Globalização Imperialista

Há greve nas grandes superfícies comerciais na Grécia. Os trabalhadores exigem que o governo faça aprovar legislação no sentido de tornar o domingo como dia de descanso obrigatório durante todo o ano para todos os estabelecimentos de comércio retalhista, visando principalmente as grandes superfícies geridas pelos grandes grupos monopolistas do sector. É uma greve contra o Consumo, não é uma greve por melhores salários ou condições na Produção.
Quando hoje se fala na conquista dos "meios de produção" pela classe operária ou pelos "trabalhadores" - muitos se esquecem que na actual divisão internacional do trabalho, a essência do capitalismo determina-se em primeiro lugar não pela Produção (que cria Valor, mas atravessa uma crise de sobreprodução), mas pelo investimento artificial no Consumo - fabrica-se dinheiro em massa para o despejar sobre os consumidores para que estes comprem o que não podem (nem devem, nem precisam) a crédito nas catedrais do consumo, de onde resulta uma espécie de anti-Valor... que finalmente fará implodir o sistema. Tanto mais quanto a grande maioria da propriedade dos meios de produção estão fora da esfera nacional. A partir deste momento, a própria relação produção-consumo e satisfação das necessidades é deslocada para um outro patamar, diferente daquele que se encontrava presente desde o pensamento de Marx.

«e chegou enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. – em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal» (Karl Marx, 1867)

Dentro da esfera nacional, a teoria revisionista do desenvolvimento das forças produtivas na URSS, considerando que a luta de classes terminaria acto continuo à tomada do poder, tinha por trás a política que impôs a transformação da ditadura do proletariado em " Estado de todo o povo". Mas a estatização sob um poder único dos “meios de produção” não é sinónimo de socialismo, porque não considera a simpatia e apetência pelo consumo induzido a partir do exterior durante o período de transição entre o capitalismo e o comunismo. Na análise marxista nesse periodo prevalece a necessidade da ditadura do proletariado, principalmente sobre o Consumo, quando estes bens não possam ser supridos pela produção nacional – aqui prevalece a tese de Marx, de cada um consoante as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades, Nesta perspectiva, a construção socialista exige uma luta política e ideológica permanente para garantir a participação activa das massas a todos os niveis (2). Ou seja, a prática real da ditadura do proletariado, que significa ditadura para uma minoria, e a mais ampla de democracia para a maioria. Esta luta tem como nó central no plano teórico abater a teoria revisionista burguesa do “só desenvolvimento das forças produtivas”. A contradição fundamental na construção do socialismo é a que opôe as relações sociais impostas pelos interesses dos trabalhadores à desactualização das forças produtivas.

(1) a ler, “Sociedade de consumo, modernidade e globalização”
(2) a seguir, "Contributos do Maoismo para a teoria Revolucionária"

sexta-feira, março 13, 2015

o 11 de Março, visto 40 anos depois, expurgado das famosas "faltas de memória" ultimamente tão em voga

O general Spínola havia provocado a revolta contra o Movimento das Forças Armadas em Tancos e mandara avançar forças sobre Lisboa, convencido que poderia conseguir um levantamento de outras unidades, descontentes com a progressão da revolução para o socialismo. 

Estavam previstas as primeiras eleições livres para Abril de 1975, quando começou a circular o famoso boato da lista "Matança da Páscoa" visando a direita reaccionária. Nunca ninguém viu semelhante “lista”, tratava-se de contra-informação. No dia 3 de Março o jornal “A Capital” informava que havia um golpe-de-Estado em preparação que contava com o apoio da CIA e da República Federal da Alemanha (onde o PS tinha sido fundado. Através da germânica Fundação Friedrich Ebert havia entregas de dinheiro a Vitor Constâncio para financiar o PS exigindo como contrapartida que Mário Soares não se aliasse ao Partido Comunista. Frank Carlucci marcou um almoço para esse mesmo dia 11 de Março com Rosa Coutinho, o mesmo Rosa Coutinho que, depois, ficou com a tarefa de elaborar um relatório sobre os acontecimentos do 11 de Março. (1) Não foi só "A Capital" que deu antecipadamente a noticia do golpe. No dia 6 de Março a revista francesa "Témoignage Chrétien” anunciava a trama em preparação pelos spinolistas . Nas eleições para o Conselho das Armas e Serviços do Exército, nomes sonantes do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho , Melo Antunes, Franco Charais e Vasco Lourenço não são reeleitos e para os seus lugares são "eleitos" oficiais spinolistas. "Achei esses resultados encorajadores” disse Mário Soares em entrevista dada a Maria João Avilez. De facto Mário Soares tinha conhecimento através dos serviços de informação das Forças Armadas sobre a preparação do putsch. (2) O objectivo era substituir Costa Gomes alçando de novo Spínola a Chefe de Estado, suspender a Assembleia Constituinte, alterar a data das eleições para Novembro num acto eleitoral que escolheria de uma só vez o Presidente da Republica, uma Constituição e um Programa de Governo e ainda os deputados duma designada Assembleia Nacional (em defesa dos valores dos patrões da nação).

Nesse mesmo dia, na Editora Arcádia em Lisboa, Mário Soares assinava os primeiros exemplares da edição portuguesa do seu livro "Portugal Amordaçado". Por cima os caças faziam voos rasantes sobre o Ralis. O novo poder tencionava prender todos os militares considerados revolucionários e ilegalizar o PCP, tido por esta tropa politicamente analfabeta como um partido comunista e não uma associação revisionista disposta a vender a alma à Aliança Povo-MFA, em vez da aliança Operários-Camponeses, e a toda a espécie de conluios com a burguesia que após a queda do fascismo se perfilou atrás de Mário Soares. A tensão político-militar atingiu o seu ponto extremo e culminou com a patética rendição dos pára-quedistas em frente ao RAL1, sob a mediação do comandante Luís Costa Correia e com a fuga de Spínola para Espanha.


Relatado posteriormente no livro “Segredos de Abril” escrito por fonte próxima de Soares, “revelava-se” que na verdade o 11 de Março que saíu não era o que estava preparado pelos spinolistas - foi o que estava contido na frase «é preciso picar o bicho» - uma conspiração pensada pelo P”C”P para obrigar a reacção a mostrar os dentes e aproveitar o ensejo para levar a cabo um contra-golpe (4). Longe de todas estas tramóias estavam os verdadeiros comunistas (pejorativamente designados por extremistas de esquerda) envolvidos em todas as frentes das lutas populares, ocupando fábricas, expropriando latifúndios agrários, saneando fascistas, espulsando os oligarcas. Enquanto o P”C”P tentava travar as justas lutas do povo em nome das suas alianças com o MFA e a promessa de uma “maioria de esquerda” com o PS, havia por todo o país protestos anti-“comunistas” e sedes do P”C”P a arder… mas apesar da percepção do ódio do povo pelo revisionismo social-fascista, nesse dia o regime saído do 25 de Abril rumava a um reforço do autoritarismo do Estado e o Partido dito Socialista saiu incólume da situação do tal golpe que há muito estava a ser preparado, não pela “extrema-esquerda” mas pelos parceiros do PS na Europa e nos EUA (5)

“Esse contra-golpe escolheu imediatamente como inimigo a abater o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), por se tratar do único Partido, com forte apoio da classe operária e da juventude, que ousava desmascarar as manobras de assalto ao poder por parte do PCP e as terríveis consequências que uma ditadura social-fascista representaria para o movimento operário e ainda por ser o único Partido que, em alternativa, defendia a necessidade de levar até ao fim uma revolução democrática e popular, que levasse a cabo o total desmantelamento do aparelho de estado fascista e das suas polícias e realizasse as aspirações dos trabalhadores e do povo ao Pão, à Paz, à Terra, à Liberdade, à Democracia e à Independência Nacional . Foi em aplicação deste sinistro desígnio do PCP e de um sector do MFA por ele controlado que o MRPP viria a ser ilegalizado, impedido de participar nas chamadas primeiras eleições da "Democracia" e, posteriormente, objecto do assalto às suas sedes e da prisão de centenas de militantes e simpatizantes seus. Pese os malabarismos de historiadores de pacotilha não hão-de apagar a memória do povo que somos (6)

fontes
(1) Frederico Duarte de Carvalho (2) Francisco Seixas da Costa (3) Manuel Duran Clemente (4) “Segredos de Abril” de Jose Manuel R Barroso (5) O "segredo" do 11 de Março (6) "Luta Popular": o Golpe Fascista e o Contra-Golpe Social-Fascista

domingo, março 01, 2015

Não pagamos... não poderemos pagar, mas vamos-lhes dizendo que pagaremos

o Partido Comunista da Grécia (KKE) apoiado na sua força eleitoral de 4,5 por cento promoveu uma manifestação contra o prometido acordo entre o Governo grego e os parceiros europeus (por via do Eurogrupo). Compareceram cerca de 7000 pessoas. Um dia antes outra manifestação convocada por um grupo anticapitalista 50 arruaceiros provocaram motins e partiram vidros de montras. Enfim, o KKE e outros extremistas elegeram o Syriza como o principal inimigo por terem dado um primeiro passo para fazer implodir a Troika ... e deram o mote para que o Syriza fosse ridicularizado pelas televisões, especialmente as dos seus mais encarniçados adversários, Espanha e Portugal, quando os encarregados da locução leram o texto: "acabou-se o estado de graça do governo da Grécia"!
Numa sondagem feita na última semana o apoio da população ao governo de Tsipras passou dos 36,5 por cento verificados nas eleições de 25 de Janeiro para perto dos 50 por cento que doravante suportam o programa de ruptura do Syriza (1) contra a ingerência estrangeira conluiada com a burguesia nacional (1) que colocaram o país à beira de uma catástrofe humanitária. 

O ministro das Finanças grego admitiu na última sexta-feira ter apresentado deliberadamente aos seus parceiros europeus um programa de reformas vago para assegurar o aval dos Parlamentos da zona Euro ao prolongamento do programa de "ajuda" a Atenas. "Estamos orgulhosos do nivel de imprecisão. Eu uso a expressão imprecisão criativa. Quero ser o primeiro ministro das Finanças a não referir números excepto se tiver a certeza que os vou conseguir. Eu disse aos parceiros da UE que se lhes desse um valor de receitas ou de receitas de evasão fiscal estaria a mentir-lhes" afirmou Yanis Varioufakis à AntennaTV. Na opinião de Varoufakis, com o acordo que saiu do último Eurogrupo, "o Memorando (da Troika) acabou e o comportamento inaceitável acabou (...) Estamos numa Europa que se sabotou a si própria. Disse antes que no Eurogrupo não há sequer discussão. Nós estamos a mudar a Europa (...)
(...) Eu estava em Franckfurt com cinco agentes da policia secreta alemã. Pedi para ir à casa de banho e um deles tinha de ir comigo - "queria agradecer-lhe porque a Europa precisa de mudar também por nós alemães" disse ele - contou o governante, garantindo que na Grécia não tem seguranças. "Se eu precisar deles então será a altura de me demitir"

Parlamento da Grécia decidiu-se por "usar duas ferramentas para reparar as injustiças que foram cometidas contra o povo grego": 1. Constituição de uma Auditoria à Dívida Pública e Inquérito sobre a forma como foram concertados os Memorandos da Troika... 2. Constituição de uma Comissão para reivindicar as reparações de guerra devidas pela Alemanha. (OkeaNews)

(1) Três pessoas presas na Grécia por deverem dois milhões de euros em impostos 


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Grécia - durante mais quatro meses...

varoufakianismo
... se verá qual a evolução da situação, tendo sempre em mente que o Syriza, passe a propaganda odiosa lançada pelo radicalismo burguês, é uma força essencialmente social democrata disposta a aplicar um programa de centro-esquerda no sentido da terceira-via de Giddens, que propõe uma mera e mais que programada reviravolta no capitalismo na Europa para evitar a sua falência - não para produzir nenhuma "revolução socialista" sem base social de apoio nem condições geoestratégicas para tal, conforme imaginaram muitos arautos do nosso ultra-esquerdismo caseiro em menos de um mês. Nem o PCP, um partido essencialmente reformista, advogaria tamanha irresponsabilidade. Assim sendo, o governo Tsipras este fim de semana já congelou 404 milhões de euros de grandes depositantes, que não conseguiram provar a origem lícita do dinheiro. O programa de reformas da Grécia deverá obter 7,3 mil milhões de euros de receitas no combate à evasão fiscal e à corrupção - portanto, a Grécia está a inverter a situação dos governos neoliberais europeus que esbulham os cidadãos para salvar bancos.  O que é uma passo muito positivo que merece todo o apoio das classes trabalhadoras europeias e não a diabolização.
(Keep Talking Greece) Na proposta entregue hoje ao Eurogrupo a Grécia compromete-se tacticamente a pagar as dividas contraídas e a não pôr em risco as metas fiscais com medidas unilaterais (Infolibre). Em flash-back:
ultimato europeu?
Em 2011 a exposição dos bancos comerciais privados ao financiamento da dívida pública dos Estados era, no caso da Grécia, de 55,7 mil milhões de euros por parte dos franceses, 21,4 mm da banca alemã e de 10,1 mil milhões dos bancos portugueses. A exposição de Portugal era superior aos bancos dos Estados Unidos, que tinham 8,4 mm de investimentos no endividamento da Grécia. Como se sabe, os prejuízos da banca comercial infectada por produtos tóxicos nos balanços aldrabados foram transferidos para a esfera pública como dívida soberana do Estado – nem que tivesse sido combinado, nesse mesmo ano de 2011 houve a transição do governo (PS) que pediu a “ajuda” da Troika (junta financeira tripartida parida pela EU de Barroso) para o governo (PSD) cavaquista de Passos Coelho, encarregado de confiscar aos portugueses dinheiro quanto baste para suportar doravante a dívida do Estado que antes era dos bancos.

Recorde-se a história e compare-se o que então não foi dito com o que Yanes Varoufakis afirma agora: “o dinheiro das "ajudas" não chegou à Grécia, foi antes para os grandes bancos”. ” – Cavaco Silva vem insistindo na fábula dos “portugueses foram dos que mais contribuíram para o resgate grego”, mas a Grécia é que está a dar dinheiro ao teu governo, estúpido!. Questionado sobre a postura de Portugal e Espanha, Yanis Varoufakis deu uma resposta politicamente correcta, invocando a sua boa educação para não ir mais além, mas que não deixou de revelar a postura da Ministra das Finanças no Eurogrupo, que envergonha os portugueses... Os governos de Portugal e Espanha "estão a querer ser mais alemães do que a Alemanha", desabafou Varoufakis ao correspondente da RTP após a reunião do Eurogrupo"



Para cumprir com os compromissos dos anteriores governos para o pagamento da dívida e respectivos juros e sustentar a gestão corrente do Estado a Grécia necessita de entre 58,7 a 85 mil milhões de euros, para o que precisa de manter este sistema de financiamento, recusando no entanto a ingerência estrangeira nas medidas de austeridade pondo em execução o "Plano o Salónica". Depois que o novo governos grego ousou enfrentar o “desafio audaz contra os imperialistas financeiros” o país conseguiu um acordo com o Eurogrupo que anula os compromissos de austeridade assumidos com a Troika, reavendo soberania e capacidade de decidir na direcção de novos parceiros, incluindo a Rússia e a China, unindo-se, caso o venham a entender, à “nova ordem económica” emergente criada pelo bloco dos BRICs.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Comunismo, Revisionismo, Capitalismo

Acaba de ser revelado um plano mantido em segredo concebido pela China de Mao Tsé-Tung em 1955 para superar os Estados Unidos dentro de 100 anos. Um programa baseado na tradição milenar da arte de governar chinesa, adaptando-a posteriormente à modernidade muito por influência da célebre visita de Nixon e Kissinger àa China na década de 70. Já passou mais de metade de um século e o êxito de uma economia planificada como player global face à selvajaria capitalista mundial é já bem visível. Nesse documento, escrevia Mao sobre a principal tarefa da Revolução: "vamos acabar com a crença errónea generalizada de que China é um país atrasado, pobre e introspectivo” (ler mais). Neste contexto, faz todo o sentido revisitar as etapas divergentes que resultaram do conflito ideológico entre o Partido Comunista da China e o Partido Comunista da URSS.

No início do ensaio "Duas Revoluções", publicado na New Left Review há cinco anos, Perry Anderson descreveu o seu objectivo como uma explicação do contraste entre os resultados históricos das revoluções comunistas russa e chinesa. A sua tentativa envolveu a reflexão em quatro níveis: forças revolucionários originais; pontos de partida objectivos para a reforma; escolhas políticas durante a reforma e suas consequências; e a longo prazo a determinante cultural-histórica. Pode-se assim esperar um tratamento simétrico das duas revoluções, mas isto não é o que se seguiu. "o Partido Comunista da China sobreviveu à queda URSS, comenta Anderson, e o seu futuro coloca talvez o maior enigma central da actual política mundial. O foco organizador do que se segue será a China, que não se reviu no regime reformista burocrata do capitalismo de Estado russo. Por outras palavras, o desfecho do caso russo ajudou a lançar luz sobre as decisões politicas chinesas, mas o contrário não se tinha verificado, para mal dos russos. A União Soviética falhou, e seu fracasso serviu como testamento para o sucesso da República Popular da China. ("The Party and its Sucess Story, by Wang Chaohua)A Response to ‘Two Revolutions’

O relato de Anderson do “Southern Tour of 1992” de Deng Tsiau Ping aparece como o ponto de ruptura fundamental, quando a China finalmente virou a sua orientação socialista interna e abraçou o mainstream do capitalismo mundial. Mas, como observado anteriormente, pelo menos desde 1987, Deng já tinha resolutamente abraçado o desenvolvimento económico como tarefa central do Partido. Para Deng e para o PCC, o significado mais importante e duradouro da “Revolta” de Tiananmen foi que se cancelou a necessidade de justificar posições políticas ao velho discurso "socialista", um convite para perguntas irritantes. "Socialismo" passou agora simplesmente a significar que o Partido iria permanecer no poder a todo o custo, como garante da Constituição Socialista. Foi na sequência de Tiananmen que se tornou possível a Deng propagar o slogan: "a Estabilidade acima de todo o resto" (wending yadao yiqie). Foi neste contexto que Deng ordenou aos decisores políticos para parar a conversa fútil sobre o 'capital socialista' e 'capital capitalista'.

Para entender isto, é útil olhar novamente para a Rússia. A comparação de Anderson entre os dois países rompe-se neste momento, pela razão de que a União Soviética deixou de existir em 1991. Mas mesmo a Rússia pós-soviética talvez possa ter algo importante a dizer-nos sobre a China pós-maoísta. A perestroika foi claramente a reforma política privilegiada sobre a reforma económica, enquanto na China a reforma económica foi a prioridade a todos os niveis, sendo o factor politico sacrificado à economia. O primeiro caminho levou, na análise padrão, a completar o desastre, o segundo para um sucesso espectacular. Medido pelo crescimento do PIB, o contraste é evidente. Mas há um outro lado da história que geralmente é negligenciada. Nas duas sociedades, quem suportou os custos da reforma? Na URSS, porque a mudança política veio primeiro, garantindo pelo menos a liberdade de expressão (e, em certa medida de organização), com várias opções a escolher nas urnas, era difícil para o Estado lançar todas as responsabilidades para o bem-estar social. Mesmo após o colapso da União Soviética, e da celebração aberta do capitalismo em uníssono pelos Governantes e pelos Media, os Estados sucessores mantiveram quase invariavelmente, de algum modo e dentro do possível, os programas públicos de educação e cuidados de saúde herdados do tempo de vida da URSS.

Em contrapartida, ao colocar a reforma económica em primeiro (e último) lugar, a liderança chinesa empenhou-se em reduzir os encargos do Estado, quebrando sem qualquer preconceito moral e de modo dialéctico as promessas políticas da República Popular e suas classes trabalhadoras unidas como um todo metafisico. Bem antes da inflação de 1988, numa altura em que Deng cooperava ainda de forma amigável com Zhao, o governo central já estava a preparar legislação sobre falências de empresas inviáveis e esquemas para o marketing de trabalho e mercado de habitação, sem se preocupar com a opinião pública, opções geralmente aceites por se tratar de libertar os meios de produção do espartilho do Estado, globalizando a sua influência a nível de mercado mundial.

sábado, dezembro 13, 2014

Sobre o "Desenvolvimento" nas Sociedades Capitalistas

Na década de 70 um grupo de intelectuais do meio universitário, face aos desvios revisionistas do que seria o caminho de desenvolvimento para uma sociedade socialista e comunista, fundam o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, no que foram rapidamente secundados por um número crescente de operários da cintura industrial de Lisboa. Enquanto a grande burguesia acolitada pelos fascistas do regime, cujo principal interesse era "modernizar" o capitalismo, davam a mão ao Partido (Pseudo) Comunista Português (P"C"P), imediatamente a seguir ao golpe-de-Estado de 25 de Abril de 1974 uma parte importante dos militantes do MRPP foi encarcerada e o partido ilegalizado e impedido de concorrer às "eleições livres". Em termos de desenvolvimento transviado que culmina agora numa geração perdida os resultados sociais estão à vista de todos. Em 1971 era secretário-geral dos comunistas Arnaldo de Matos, o mesmo que escreve hoje esta crítica ao "desenvolvimento capitalista"  
40 anos depois...
"As Conferências de Lisboa são um fórum internacional bienal (...)  destinado a debater o tema do Desenvolvimento. Nos dias de hoje, e ao contrário do que sucedia nos anos das décadas de sessenta e setenta do século passado, em que o orbe se apresentava dividido política e economicamente em três mundos, o desenvolvimento deixou de versar apenas sobre a transformação dos países economicamente atrasados, para passar a ocupar-se dos problemas do crescimento económico, da sua sustentabilidade e da distribuição de riqueza à escala global, envolvendo todos os países e continentes, qualquer que seja o respectivo grau ou estádio de crescimento (...)  Os nossos secretários- de-Estado estão ainda naquela etapa dos conhecimentos económicos em que o desenvolvimento era visto como igual a investimento, e não havia meio de compreenderem que um país pode morrer afogado em investimento, sem nunca alcançar o desenvolvimento, como em parte aconteceu até a Portugal, com a avalanche dos subsídios europeus a fundo perdido, mas só aplicáveis onde o capitalismo anglo-franco-germânico autorizasse (…) O segundo erro da Primeira Conferência de Lisboa sobre o Desenvolvimento está no inusitado papel que a organização concedeu ao controlo ideológico da conferência pelos funcionários da União Europeia. Ora, precisamente esses funcionários deveriam estar proibidos de debater em público a problemática do desenvolvimento, à uma, porque, no seu conjunto, a União Europeia, dispondo embora de um terço do mercado mundial, tem um crescimento que mal atingirá 1% no corrente ano, e acolhe no seu seio o segundo maior conjunto de pobres do mundo. E haverá pouca gente que entenda tão bem a ignorância europeia em matéria de desenvolvimento como a entende o martirizado povo português. (o artigo completo está publicado no Luta Popular)

segunda-feira, outubro 20, 2014

Descascando a batata d`“O Capital no Século XX” (III)

Para Thomas Piketty não se passa nada de anormal na natureza da composição do Capital. Ou por outra, passa, mas apenas na economia clássica, a sua “investigação histórica” passa ao lado da prática política, da descrição dos agentes provocadores das guerras, dos negócios ocultos que não entram na contabilidade das nações, da economia paralela gerida pelas burguesias nacionais, enfim, pela luta de classes. Por estas pequenas minudências, a obra está repleta de imprecisões, omissões, ou até, dir-se-ia, manipulações grosseiras. Citando dois parágrafos sobre o processo de acumulação de capital no Novo Mundo, vê-se exaltada desde logo a importância dos Estados (colónias de origem anglófona) que se Uniram:

Começando no negócio da "Louisiana Purchase" e na transação comercial de compra do Texas e do Novo México e da subsequente guerra de exterminio dos nativos doravante chamados de "indios",  os Estados Unidos tinham esgotado as suas capacidades de ocupação do território contíguo disponível dentro da sua área continental. Empresariaram-se novas guerras, como a guerra hispano-americana que conduziu à aquisição da ex-colónias espanholas. A indústria e a agricultura dos Estados Unidos tinham crescido além de sua necessidade para o consumo, precisam de mercados, de ganhos de hegemonia, como diria Hitler: Lebensraum . A ideia de que uma grande nação deveria ter um grande poder naval, filosofia desenvolvida pelo almirante Alfred Thayer Mahan, que dirigiu o Naval War College. Mahan construiu um novo paradigma baseado no seguinte princípio: o poder marítimo constituiria o vértice da supremacia das nações na história contemporânea - a nova politica de expansão por todo o continente americano daria pelo nome de "Doutrina Monroe".

Cuba. A ilha do Caribe obtém a independência pela luta liderada pelo patriota José Marti, um burguês radicado nos Estados Unidos, dos quais não teve a minima dificuldade em obter generosa ajuda militar e financeira: A política económica da ilha caiu refem da tutela de Washington desde a independência cubana em 1898. Ainda hoje nas paredes do Hotel Nacional se podem ver fotografias da época com as tropas yankes assentadas em tendas de campanha na Plaza d`Armas em La Habana. As tropas dos EUA procederam a diversas ocupações: em 1906, 1912, 1913, 1917 e 1933. Segundo a Constituição cubana, tais ocupações eram legítimas, pois a Emenda Platt assegurava o direito de intervenção militar norte-americana. Em 1934, essa prerrogativa foi substituída por um acordo comercial. Mas os yankees permaneceram, sendo que no inicio da década de 60 cerca de 90 por cento da propriedade e da economia cubana estava nas mãos das corporações e da máfia estado-unidense. Surgiu Fidel y las cosas se iriam a cambiar. Porém os EUA ao abrigo dessa antiga "ajuda", respaldada por uma concessão de deveria durar apenas 50 anos, ainda hoje permanecem em Guantanamo, um triste simbolo para vergonha da humanidade. (dados na wikipedia)

de novo, o que diz Piketty:

Em 1913 nos Estados Unidos o Congresso reuniu e votou a Lei da Reserva Federal  que autoriza a um consórcio de bancos privados, liderado pela familia Rothschild a proceder à emissão da moeda que mede toda a economia em nome dos interesses do Estado. Seria entre a 1;30 e as 4;30 da madrugada do dia 22 de Dezembro de 1913  quando a lei foi aprovada. Outro banqueiro de origem judaica, Jacob Schiff, lidera na ocasião a Liga Anti-Difamação (Anti Defamation League), nos Estados Unidos. Esta organização foi formada em paralelo com a liberdade de criar dinheiro por privados para difamar como "anti-semita" qualquer cidadão que questione ou desafie a conspiração que esteve e está na origem da chamada globalização. Em 1920, Winston Churchill fez uma distinção entre os emigrantes judeus integrados no espirito nacional e os "judeus internacionais". Disse ele que estes últimos "estão por trás de "uma conspiração mundial para derrubar a civilização e reconstituirem a sociedade com base no desenvolvimento da tirania, de malevolência invejosa e igualdade impossível...". Refere-se, claro está, à ascenção do espirito revolucionário internacionalista do comunismo que na época triunfa na Rússia.

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Segundo o autor, há que pôr cobro aos rendimentos sobre o Capital já acumulado, que cresce exponencialmente mais que os rendimentos do Capital produtivo. Remédio proposto: lançar mais um imposto de 80%  sobre o património dos ricos acima de meio milhões de dólares. Contabilidade. Mas não há expropriações, nacionalizações, criminalização dos proprietários de bens adquiridos ilegalmente, nem sequer a suspensão imediata da política de emissão exponencial de mais papel-moeda que sustenta um sistema económico artificial e provoca o endividamento dos países submetidos ao capitalismo. Ora, Thomas Piketty andou a dormir enquanto George Soros o ajudava a compilar o calhamaço. Então, ao longo desta estória não foi mesmo mais impostos que os Estados Unidos lançaram? só que em vez de o fazerem aos seus ricos, exportaram-nos criando pobres por todo o mundo. Exportando capitais e guerras como modo de acumulação capitalista. Mal anda portanto de novo Piketty ao circunscrever "O Imperialismo Último Estádo do Capitalismo" a época e às circunstâncias temporais da 1º Grande Guerra em que Lenine o escreveu

sábado, julho 05, 2014

o BES e as habilidades da Dona Banca

e ainda bem que a selecção nacional de futebol do outro Bento foi um belo fiasco prestado à nação, senão as congeminações no campo politico-económico em Portugal teriam o épico rótulo de acontecimentos gloriosos...

“...E agora, tal como Miguel Cadilhe o foi para Oliveira e Costa e o BPN, Vítor Bento foi o homem de confiança escolhido para adiar o mais possível o jogo do gato e do rato que pelo visto apenas começará a disputar-se entre o Ministério Público e Ricardo Salgado depois da factura de duas décadas de delinquência no banco do regime rebentar nas vidas dos portugueses.

Vítor Bento é o “Novo Presidente Executivo do Banco Espirito Santo (BES)”. Um homem do regime para gerir o naufrágio do banco do regime. Nada mais natural" (Filipe Tourais)
Esteve o estado de pré-falência do BES na origem da reunião do Conselho de Estado?
Escassas horas após o Conselho de Cavaco e sus Muxaxos de Estado é designado um homem do regime para assumir a administração do banco privado cuja famiglia fundadora deixa de ter o nome ligado ao BES. Certo é que a “instabilidade” no BES, sendo o banco do regime, contagia os juros da Dívida Pública”, daí a nomeação do actual administrador do Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP) para a equipa de administração do BES. Contágio pré-existente: nos esquemas montados pela Dona Banca o governo português vive de dinheiro emprestado por especuladores (investidores) estrangeiros com juros entre 3,5 a 5%, enquanto a banca nacional empresta dinheiro às instituições do Estado a 8 por cento.

Outro facto também já assumido (atingimos uma situação em que nem os próprios gestores do capitalismo se fiam nele): a famiglia de Ricardo Salgado Espirito Santo tentou por todos os meios separar o banco nacional (BES) do universo de empresas multinacionais do Grupo Espírito Santo (GES), indicando um dos seus homens de confiança para gestor do banco nacional, tentando criar supervisores estratégicos e outras manhas. Tal foi inviabilizado pelo longo historial de tropelias que deveriam colocar essa gestão na situação de arguidos face à justiça. Ou seja, os Espiritos Santo, que detêm apenas 6% das acções do BES, limparam e transferiram integralmente os prejuízos dos seus negócios internacionais para o banco nacional, transformando o BES naquilo que em gíria financeira se designa por um “Bad Bank”.

Esse papel escandaloso na falência do BPN foi assumido pela estatal Caixa Geral de Depósitos. Ricardo Salgado não esperaria agora outra coisa senão uma acção similar. Transferência para contas nacionais de “contabilidades criativas” que recaem obviamente sob a alçada do Estado Português cuja responsalidade é do regulador “Banco de Portugal”. Enquanto isso, o grande capital internacional do Grupo mantêm-se firme, próspero e actuante lá fora, onde o Estado nacional não tem jurisdisção. Posto isto, a sugestão do Partido “Comunista” Português de nacionalizar o BES é completamente estúpida.
Um banco socialista provedor de boas acções navegando num mar capitalista infestado de tubarões? ou voltamos a nacionalizar os prejuízos, enquanto os activos do banco nacional (as contas dos clientes, as instalações e a “confiança”) ficarão sempre à mercê do grande capital internacional das holdings privadas que manipulam a marca BES ainda que nacionalizado?. Quer dizer, que manipulam a instituição Estado, cujas elites a usam para enriquecer com os negócios supranacionais globalizados e congeminados à revelia e em prejuizo do povo.

terça-feira, junho 17, 2014

Razão, Cognição, Emoção

"Triste época a nossa! Em que é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito" (Albert Einstein)

Joana Amaral Dias lança o livro “O Cérebro da Política”, com apresentação do filósofo José Gil subtitulado: “Como a Personalidade, Emoção e Cognição influenciam as escolhas Politicas”

De acordo com os seis atalhos cognitivos essenciais – afecto de referência, recomendação heurística, familiaridade, hábito de escolha por já se ter escolhido antes, viabilidade de vencer – “conclui-se que as pessoas votam de forma “simples” e sobretudo de forma emocional. Um exemplo destes processos é a nostalgia pelo Comunismo. Esse fenómeno da Europa de Leste pode ser lido de várias perspectivas. Certo é que várias sondagens levadas a cabo nesses países reflectem um sentimento: uma avaliação moral positiva do período comunista. Por exemplo, em 2009, 72% dos húngaros, 62% dos búlgaros e ucranianos e 60% dos romenos declararam que estavam pior do que durante o comunismo. Estes números colocam questões pertinentes: como é que as pessoas não se arrependem do comunismo? Como ignoram o seu legado opressor e criminoso? A verdade é que, apesar de todas as atrocidades, o comunismo deixou também uma “herança ideológica”, uma história alternativa de valores (tão progressistas quanto conservadores), uma narrativa”. (página 143).

Para além da autora considerar a experiência soviética do período tardio preconceituosamente como comunismo, não o distinguindo de uma mera experiência de “capitalismo de Estado”, ao induzir elementos de cognição errados na disciplina de Psicologia Politica que pretende os leitores assimilem, morre ao morder a língua e engolir do seu próprio fel. Entre o apelo à razão e à emoção, abandona a primeira e usa despudoradamente a segunda, ou seja, a mensagem subliminar que pretende passar é que das três possibilidades de escolha politica em presença – conservadorismo, liberalismo e marxismo – esta última não nos deve servir. Na verdade a razão de facto (da autora) é que o marxismo põe em causa o regime de propriedade privada tão caro à burguesia (aos que detêm os meios de produção social dos quais beneficiam).

"Frequentemente os dados da neurociência e das ilusões de percepção são usados para convencer as pessoas que as suas capacidades de perceber o mundo são limitadas" (página 79)

quinta-feira, maio 15, 2014

Um comunista não se disfarça, diz ao que vem

E a utilização dos símbolos e das cores não pode servir para enganar os eleitores. Temos aqui neste exemplo comparativo dois estilos:

Num folheto editado pela CDU-PCP que detém o governo da autarquia de Santiago do Cacém apela-se a uma manifestação contra o estado precário e perigoso em que a suspensão das obras de construção pelo governo deixou a via rápida que liga o concelho a Sines. A situação já dura à dois anos, a causa é justa, porém, só em periodo de campanha é que se lembram de apelar à população para que lute… As cores que o folheto utiliza é o vermelho sobre amarelo, as cores tradicionais do PCTP-MRPP que usa o simbolo dos comunistas: a foice e o martelo. Pelo contrário, o simbolo azul da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, que é de facto quem paga e edita o folheto, vem identificado de forma minúscula em baixo ao centro (ver a seta vermelha). Isto pressupõe uma ilegalidade, a pedir a intervenção da CNE. Uma Autarquia não deve nem pode fazer e pagar campanha eleitoral em favor do partido dessa câmara.

Nos 2 recortes de jornal Público (14/5) em cima à esquerda, os comunistas expressam concretamente o seu programa; dizem ao que vêm: combater o projecto ruinoso da adesão de Portugal à EU e apresentar a proposta de saída do euro. Ao contrário, a coligação CDU-PCP dita comunista mas disfarçada de azul celeste, limita-se a exibir-se, fazer promessas em abstracto, e apelos descarados ao voto.

terça-feira, abril 29, 2014

26 de Abril de 1974

É o povo que cerca as cadeias quem obriga a Junta Militar à libertação dos presos políticos. Com alguns notáveis da oposição democrática envolvidos nas negociações.
* Dos arquivos da RTP – vídeo 1 – ninguém sabe de nada… (ver aqui)
* vídeo 2 – “compreendam. O general Spinola tem muito que fazer”… As autoridades pretendem libertar apenas os encarcerados não envolvidos em “crimes de sangue” (ver aqui)
* vídeo 3 – Burocracia. “Mantenham-se calmos”.. Os presos reunidos decidem: “ou saímos todos ou não sai ninguém”. Começa a abertura das portas de Caxias (ver aqui)
* vídeo 4 – a grande estrela das acções paramilitares para abater o regime fascista – Palma Inácio - é libertado (ver aqui)

O nosso herói mais tarde irá aderir ao Partido Socialista, o que lhe garantiu uma velhice regalada e o ostracismo dos ideias antes propagandeados. Palma Inácio tinha sido o organizador do assalto à dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, concretizada com êxito em Maio de 1967 por um comando que integra igualmente Camilo Mortágua, António Barracosa e Luís Benvindo, que fogem num pequeno avião. Como é da sua natureza contra-revolucionária, o PCP (1) era contra este tipo de acções… 

um PS anti-Capitalista (!)
O assalto rende dezenas de milhar de contos, levados para Paris onde em Junho seguinte seria fundada a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) organização apadrinhada por futuros notáveis do PSD e PS. Porém as notas desviadas para servir à "luta de libertação do povo", eram novinhas em folha e escrupulosamente numeradas em séries ainda não em circulação, o que serviu para alertar os bancos internacionais sobre a sua origem, razão pela qual o Banco de Portugal não as cobriria. Nenhum banco as aceitaria. Nenhum? anos mais tarde, numa daquelas entrevistas que só passam altas horas da madrugada, Camilo Mortágua haveria de revelar que havia um único banco disposto a transaccionar esse dinheiro. Era o Banco do Vaticano - que aceitava fazê-lo pagando apenas 40 por cento do valor facial das notas, empochando os restantes 60 por cento, qualquer coisa como 18 mil contos (uma pequena fortuna na época). Para que é que o Vaticano quereria esse dinheiro ilegal é que permanece um mistério...
(1) É em nome da necessidade de romper com o «pacifismo» e o «Iegalismo» e de desencadear a luta popular armada que Francisco Martins Rodrigues, em finais de 1963, opera a primeira cisão de esquerda no PCP criando, no ano seguinte a Frente de Acção Popular (FAP) com o objectivo de lançar acções armadas segundo a filosofia marxista-leninista-maoista da conquista do poder. (fonte)
a santificação do soldadinho romano em nome do socialismo - (mural na aldeia italiana de Oliena)