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domingo, março 16, 2008

um filme sobre Sachsenhausen

Apresentado pela crítica como um “policial cruzado com filme de guerra” chegou às salas “Os Falsificadores” (Die Falscher) à conta de ter sido o melhor filme estrangeiro nos óscares2008.

Provavelmente será visto por muito pouca gente (exibido apenas em duas salas na grande Lisboa), não vá o objecto do realizador austríaco Stefan Ruzowitsky aliciar para comparações incómodas quando se questiona o passado. Mas, apresentado como “uma história verdadeira”, mais uma peça de promoção da vitimização dos judeus na indústria do holocausto, terá o miolo desta obra de ficção algo a ver com a reconstrução da realidade histórica possivel?

A nacionalização da actividade de emissão de moeda dos Bancos centrais na Alemanha Nazi

No final da 2ªGrandeGuerra os nazis congeminaram um plano secreto para destabilizar a Inglaterra inundando a sua economia com milhões de libras falsificadas. O protagonista principal da história foi Salomon Smolianoff, (no filme, Sorowitsch) um judeu russo que tinha sido preso em 1927 por falsificar notas de 50 libras em Amsterdão onde cumpria pena; foi transferido para um campo de trabalho a cerca de 35 quilómetros de Berlim, onde reuniu um grupo notável de falsificadores que trabalharam sob a direcção do chefe de policia reformado alemão cujo nome de código era Major Herzog, na verdade o Major das SS Bernhard Krüeger.
A operação do fabrico de notas de contrafacção no campo de Sachsenhausen teve o nome de código “Operação Bernhard”, em honra do homem que dirigiu a operação. Krüeger, um engenheiro têxtil, sob as ordens directas de Heinrich Himmler reuniu a equipa de falsificadores, executivos da banca e artistas plásticos de vários campos.

O esquema nazi, começou em 1942, com a alegada intenção de “bombardear” a economia da Grã-Bretanha com milhões de notas de libras esterlinas falsificadas (de 5, 10,20 e 50) perfeitamente iguais às do Banco de Inglaterra. As notas são consideradas a contrafacção mais perfeita que alguma vez foi produzida, sendo extremamente dificil, senão impossivel, distinguir as verdadeiras das falsas. Os nazis tinham 100 agentes alemães infiltrados que colocavam este dinheiro falso em circulação, normalmente depositado em bancos suiços, usado depois para pagar operações alemãs em todo o mundo, depois de as notas chegarem a ser testadas como boas pelo próprio Banco de Inglaterra. Entre 1943 e 1945 as impressoras da unidade especial de Sachsenhausen forjaram 8.965.080 notas de banco com o valor total de 134.610.810 libras inglesas, o equivalente a preços correntes de hoje a mais de 7 biliões de dólares. (nada que a FED não faça hoje num ápice!)

Os homens que trabalharam na impressão eram delinquentes comuns com cadastro por falsificação de dinheiro na Alemanha. Foram trazidos para Sachsenhausen pelas suas habilidades excepcionais e conhecimentos de tipografia para falsificar documentos e notas. Nove deles eram Judeus internados em Auschwitz (5 oriundos da Polónia, 1 Holandês, 1 Francês, um Checo e 1 Cigano). Foi a este núcleo duro de “experts”, os melhores na sua “arte” que foi entregue o comando de uma equipa que em 1944 chegou a contar com 142 falsificadores a trabalhar na “Operação Bernhard”. Destes, o mais qualificado, eleito como chefe-de-fila, foi o já referido Salomon Smolianoff. Outro era Adolf Burger um judeu checoslovaco, preso em Bratislava em 1942 onde falsificava passaportes, cédulas de nascimento, guias de transporte e outros documentos usados para a evasão de comunistas perseguidos pela Gestapo Checa, num regime fascista que depois da invasão de 1939 se converteu em fiel aliado de Hitler. Enviado para Auschwitz para o trabalho escravo, quando souberam das suas aptidões repescaram-no para Sachsenhausen.

De acordo com Adolf Burger, que escreveu um livro onde conta a sua odisseia, os falsificadores, em 22 de Fevereiro de1945 nas vésperas da derrota nazi, conseguiram fazer com sucesso as primeiras 200 notas de 100 dólares, e preparavam-se para fabricar o seu primeiro milhão em dinheiro norte americano nos dias seguintes. Mas isso nunca veio a acontecer, porque entretanto chegou uma ordem dos Serviços de Segurança do Reich para parar os trabalhos e desmantelar a maquinaria. Quando Sachsenhausen foi evacuado em Abril de 1945 e tomado pelo exército soviético, o grupo de trabalho da Operação Bernhard foi transferido para Ebensee, um campo secundário de Mauthausen na Áustria que foi libertado pelo exército americano em Maio de 1945. Depois de sair em liberdade, Burguer instalou-se em Praga onde publicou um pequeno livro escrito em checo "Cislo 64401 mluvi" ("O Preso nº64401 Fala"). Este número, gravado no braço, de acordo com o código de tatuagens de prisioneiros em Auschwitz, significava que no caso se tratava de um especialista em tipografia. Estas séries de números eram usadas em cartões informatizados que faziam parte dos ficheiros elaborados pela IBM para o Reich. Anos depois, já radicado na Alemanha Oriental (DDR) Burger publicou outro livro: “O Trabalho do Diabo” (Des Teufels Werkstatt) um best-seller que nunca foi traduzido para inglês. Depois da queda do chamado regime comunista, em 1988, uma cadeia de televisão da Alemanha Ocidental realizou o documentário de 45 minutos “The Devil's Workshop”, baseado no livro.

Sãos e salvos, a imagem feliz e sorridente dos judeus Adolf Burger, Salomon (Sorowitsch) Smolianoff, Ernst Gottlieb, Max Groen e Andries Bosboom posando para a fotografia (ou Burguer com três enfermeiras americanas), e as fotos da vida quotidiana dos judeus em Sachsenhausen contradizem todas as imagens do famigerado holocausto de judeus que a partir de então se começaram a construir. Como se via nos felizes convívios de Yalta, Potsdam ou Teerão, de facto, como não podia deixar de ser, regra geral os judeus colaboraram normalmente ou fizeram parte dos regimes vencedores (Estaline era judeu georgiano, Churchill filho da Casa judaica de Blenheim). A comunidade judaica colaborou primeiro com os Nazis, depois com os Soviéticos, por fim com os Americanos. Na verdade foi nos Estados Unidos que a maioria dos refugiados judeus procurou exilio durante e no fim da 2ª Grande Guerra, onde se juntaram à primeira vaga do principio do século. São famosas as histórias de colaboração entre os Nazis e as Famiglias do “Big Business” norte americano. A lista de colaboração de empresas multinacionais no negócio dos campos de concentração é vasta. (como agora)

Depois do ataque de neonazis que destruiu o 'Barracão 38'
do Museu em 1992, cinco anos depois (manda quem pode)
o governo israelita de Yitzhak Rabin encomendou o projecto
de design de reconstrução à equipa de arquitectos
Braun, Voigt & Partners de Frankfurt

Começando em finais de 1939, nas instalações que são apresentadas hoje como o sítio onde os prisioneiros eram executados, a Estação Z, os pavilhões do Bloco 19 situados nas traseiras da zona industrial do campo de Sachsenhausen, alojaram as actividades do grupo de falsificadores que disfrutava de privilégios especiais, boa alimentação, cuidados médicos e alojamentos dignos. Depois da invasão da União Soviética em 1941 pelo exército alemão, os prisioneiros russos identificados como «Comissários Comunistas» eram trazidos para este ponto, condenados e fuzilados. De acordo com um folheto distribuido no actual Memorial pelo menos 12.000 presos soviéticos foram executados na Estação Z desde finais de 1941. Num tribunal militar conduzido pela URSS em Outubro de 1947 o comandante do Campo Anton Kaindl “confessou ter ali gaseado prisioneiros”. Quando o campo de concentração foi reconvertido para “Museu Judeu de Sachsenhausen”, uma parte do muro da Estação Z foi removida e o “Crematorium” que alegadamente tinha sido destruído foi reconstruído, em 1953 (!).

No Ocidente a história apenas se tornou oficialmente conhecida no Outono de 2006 através do livro de Lawrence MalkinOs Homens de Krueger: o Complot Secreto de Contrafactores e os Prisioneiros do Bloco19” publicado simultaneamente pela Brown Little nos Estados Unidos e na Alemanha com o titulo "Hitlers Geldfaelscher"
Três notas para concluir que as "instalações de memória" são feitas e refeitas conforme as encomendas: o livro original “O Preso nº64401 Fala” de Adolf Burger não refere quaisquer “câmaras de gaz”, tampouco execuções de judeus nessa condição. Segundo a informação original do próprio campo, os prisioneiros alegadamente ali fuzilados tê-lo-iam sido na qualidade de “comissários comunistas”. O governo da URSS foi tão responsável pela fabricação do mito do holocausto, quanto as sucessivas Administrações dos Estados Unidos, mormente desde a formação da Administração do proto-judeu Henry Solomon Truman em 1945, o vice-presidente mandatado para reconhecer o Estado Sionista de Israel
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e como o passado foi o prólogo do presente, as consequências são visiveis:
Realizaram-se ontem um pouco por todo o mundo manifestações contra a ocupação e a guerra no Iraque pelo exército dos Estados Unidos da América.

(ver no Pimenta Negra)

sábado, março 15, 2008

A Era do Vazio (II)

A “entrevista ao quotidiano” do primeiro ministro foi um pseudo acontecimento. Com mensagens subliminares eficazes, “buxas” metidas à laia de publicidade pelo meio, como nas novelas da TVI com os champôs: o livrito de Timothy Gaston Ash de título inglês “Free World - os Estados Unidos a Europa e o Futuro do Ocidente” despreocupadamente deixado em cima da secretária, meticulosamente focado em grande plano pela câmara. E como existe na função comunicacional uma metodologia e um dirigismo bafiento que tresanda a neocons, sua excelência o presidente da república também faz “a mesma rábula do quotidiano – os dias do presidente” no sitio internet de Belém – presidente e 1º ministro são uma fotocópia um do outro na subserviência às cenas de tap-dance bushistas em Washington.

Estes objectos mediáticos, são fait-divers, distraem as pessoas com alcoviteirices e encaminha-as psicologicamente para um ethos onde se emocionam com o acessório: a parker, o café, as 11 horas do relógio, o jogging,“o zangado”, saudades da Carla Bruni, a secretária tímida que nem é boazona, enfim, uns tipos como nós, embora um bocadinho sacanas. Acedermos ao universo de gente tão importante, é um prémio de satisfação directa na época da felicidade de massas. Claro que, pelo ridículo do falso nevoeiro, toda a gente percebe que se trata de um embuste. Uma encenação. Topados, como seria de esperar a malta diverte-se que nem uns perdidos a desbroncar pormenores. O Poder abusou da generalização do código humoristico na performance dos actores – nas sociedades sempre existiu historicamente a gargalhada espontânea, o grotesco do riso dos bobos na Idade Média, a paródia dos cultos aos dogmas religiosos, a grosseria contra as putas. Mas a partir da Idade Clássica o cómico tornou-se civilizado, os excessos e as exuberâncias são desvalorizados, a basófia é um comportamento vil e desprezado, precisamente para persuadir os tolos com a superficialidade da mensagem virtual, escondendo a obscenidade das práticas concretas sobre as vítimas.
ps:
mas aqueles cromos, alternativos, que em boa verdade adoramos são os de mensagens lineares e tácticas explícitas: "agora vamos ali treinar os rapazes que vão jogar no Torneio Coca-Cola (sic) e os jogadores que se recusem a assumir as directivas do treinador são colocados em lista de transferências" uau!
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sexta-feira, março 14, 2008

crise, consumo & psicopatas

O bisavô do Euro é o Plano Marshall, que reforçou a cooperação europeia”, afirmou recentemente Jacinto Nunes, ex-governador do Banco de Portugal (um intocável do tempo de Salazar) (1), na cerimónia que teve lugar na Fundação Luso Americana (FLAD) no aniversário dos 60 anos “do que se pode considerar o lançamento do Programa de Recuperação da Europa”.

A assistência financeira da banca norte americana com novos investimentos em 16 paises europeus (para além dos chorudos retornos em juros e lucros que nunca são mencionados na propaganda) “tinha como objectivo aumentar a produtividade, reforçando por esta via o nível de vida, caminho considerado essencial para evitar tensões sociais que criassem tentações revolucionárias com alinhamentos à URSS”

Descoberto o mistério de polichinelo de que o anticomunismo é o fantasma real que sempre tem guiado a política ocidental, salte-se umas décadas por cima da Guerra Fria até ao presente mais recente, o da emissão efectiva da moeda única europeia: quando o Euro foi lançado em 2001 uma vulgar carcaça custava 2 tostões; hoje custa 30 escudos. Da criação de mais valias aumentando os custos de produção, numa espécie de espiral inflacionária eterna, vive o sistema capitalista, atropelando tudo e todos em nome do sacrossanto sistema financeiro. (é urgente que cada um investigue por si quem detém os poderes de decisão que gerem os bancos centrais, que são de natureza privada, e se disponham a agir em conformidade no momento em que votam)

Que Europa, e em particular que Portugal temos então hoje? Paulo Ferreira em editorial no Público (12/3) explica: “os excessos financeiros têm os seus custos; o crédito está mais dificil e mais caro. Os desiquilibrios serão certamente corrigidos, nem que seja à custa de uma recessão”. E tudo isto porquê? “porque o país tem vivido acima das suas possibilidades”. Mas de que país se fala? O dos salários minimos, do trabalho precário, das empresas deslocalizadas que remetem milhares para as esmolas do fundo de desemprego ou para a emigração de mão de obra desqualificada e não raro escrava? – ou o das remunerações principescas dos gestores da banca, suportadas por lucros excessivos, crédito fácil para especular em bolsa ou reformas douradas dos gestores públicos e privados? a perplexidade que deixa neste parágrafo cinco pontos de interrogação, pede um último: porque têm uns, muitos, de pagar os escandalosos privilégios de outros, poucos?

Gilles Lipovetsky na “Era do Vazio” (2) teorizou sobre o problema mais geral da coesão social na actual época de mutação originada pela diversificação dos modos de vida, pela desagregação da sociedade, dos costumes, a emergência de um modo de individualização inédito e do modelo de socialização dos prejuizos do sistema fazendo-os distribuir equitativamente pela colectividade como um todo, o aliciamento publicitário do individuo contemporâneo para o consumo de massa, enfim, a nova forma de controlo dos comportamentos. A pensar certamente nisto, Durão Barroso, noutra página da mesma edição do jornal, afirma que os “consumidores estão mais fortes numa Europa mais próspera” deixando o aviso: “mesmo as empresas mais poderosas não poderão ignorar a opinião daqueles que as mantêm em funcionamento

E é do consumo da produção “das maiores empresas mundiais” que vos quero falar, no 5º aniversário da invasão do Iraque, uma triste efeméride que protestamos no próximo sábado dia 15. Como escaparam essas “empresas mais poderosas” à crise latente que assola os Estados Unidos desde o crash da economia virtual de 2001 e a emergência da catástrofe Bush? Despejando e esturrando literalmente milhões em material de guerra sobre dois paises – significa que existem “consumidores” que consomem compulsivamente bombas e balas sem o seu acordo, produção essa que deveria ser urgentemente ilegalizada. Para finalmente e de uma vez por todas, pôr um fim à crise, cujo custo, não o esqueçamos, é pago por todos nós. Exagero?
O núcleo duro das 10 maiores empresas mundiais, certamente o verdadeiro coração que bombeia a vida pelas veias da economia global (em 1.Samuel.25 a Vida está no sangue, o coração é o orgão que a bombeia; e a Lei do coração é a aniquilação dos menos aptos Levi 17.14) – ultrapassando a lei da concorrência, actuam em regime de cartel, desprezando a insignificante “sociedade civil” e sobrevalorizando a componente militar (3), de facto o verdadeiro motor do capitalismo contemporâneo que já não se funda na produção mas principalmente na destruição, sendo ambas as componentes habilmente conjugadas e a sua compreensão ocultada das opiniões públicas. Chega-se até ao desplante do apelo ao negócio, pedindo o alistamento de voluntários para engrossar as fileiras dos exércitos mercenários contra inimigos criados artificialmente.

Nesta encruzilhada, “os direitos do homem são simples extensões particulares de um direito único, o de sobreviver com o único fim de trabalhar para a sobrevivência de uma economia totalitária, que se impôs falaciosamente como único meio de subsistência da espécie humana” (4) E esta situação apela a uma viragem histórica – justamente ao contrário do que diz Barroso – mesmo as empresas mais poderosas não poderão ignorar que não as queremos em funcionamento para este tipo de produção; não como consumidores, fazemos essa exigência na qualidade de cidadãos!

(1) salazarismo: ver na Revista Atlântico (sem link)
(2) Gilles Lipovetsky "A Era do Vazio", Ensaio Sobre o Individualismo Contemporâneo", Ediç. Antropos, 1983
(3) A expressão "Complexo Industrial Militar" foi cunhada no discurso do Presidente Dwight D. Eisenhower de despedida à nação em 1961
(4) in Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, Raoul Vaneigem, Edit. Antígona, 2003
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quinta-feira, março 13, 2008

e nós por cá?

Como todas as pragas, também aqui nos chegou o esquecimento global

Descem em mim poentes de Novembro
A sombra dos meus olhos, a escurecer
Veste de roxo e negro os crisântemos

E desde que era meu já me não lembro
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!

(Florbela Espanca)

quarta-feira, março 12, 2008

Pedro Ignacio Pérez Beotegui, 60 anos, faleceu ontem, vítima de doença prolongada, em Vitória, a sua terra natal, no País Basco. O breve obituário seria igual a tantos outros que passam com a ligeireza possivel diante das turbas que não se notabilizaram em vida, com a convicção assumida pelo senso comum que dos mortos, ou se fala bem ou não se fala.
Mas Pedro Ignácio que passou à posteridade com o nome de guerra “Wilson” notabilizou-se, e muito – foi um dos temiveis militantes da ETA que integrou o grupo responsável pelo atentado que matou o sucessor indigitado por Franco para perpetuar o regime fascista em Espanha. No dia 20 de Dezembro de 1973 o General Almirante Luis Carrero Blanco saiu da missa habitual na Igreja de São Francisco de Borja e dirigia-se a casa quando a meio caminho, na Calle Claudio Coello, 75 quilos de explosivos estrategicamente colocados num tunel escavado sob a rua e accionados à distância dinamitaram o carro em que seguia. General e viatura subiram à altura de 30 metros, saltaram o telhado e, bocados de carne e destroços de sucata irmanados no mesmo ideal, aterraram no meio do pátio interior de um convento de jesuitas. Uma morte abençoada – Carrero Blanco ainda hoje ostenta o recorde mundial de salto em altura na modalidade de Fascistas mortos.
Esta breve inspiração deveria fazer flanar de
felicidade qualquer radical com borbulhas de ressentimentos vários. Se não nos tivessem roubado a memória da história recente, do que se passou e passa na transição do fascismo para um regime oligárquico que lhe disputa o odioso, muito possivelmente a realidade seria hoje outra, sobre a ETA e o sector da sociedade Basca que continua a reinvindicar uma ruptura com o franquismo que nunca aconteceu. A luta continua. Porquê?
qualquer coisa aqui não bate certo.

Estuda o Passado, Porque o Passado é o Prólogo

Numa época em que se prendem terroristas em campos de concentração, se condenam suspeitos a várias penas de prisão perpétua acumuladas, se torturam inocentes desprevenidos para obter resultados na “luta contra o terrorismo” – o perigoso etarra “Wilson” morreu em casa na cama. Paz à tua alma companheiro, que a terra te seja leve. Afinal és o herói por conta própria que aplicaste a almejada justiça popular. Mas,

Segundo Philip Agee, o ex-agente autor do livro “CIA, Inside the Company” a CIA foi criada depois da 2ª GrandeGuerra para assegurar a intervenção clandestina na transição dos regimes nazi-fascistas da Europa.
Henry Kissinger o mais influente politico norte-americano do último quarto de século, um protegido de David Rockefeller, de quem se pode dizer com propriedade ser Judeu, Sionista e Maçon, esteve um dia antes, mais concretamente vinte e três horas antes do atentado mortal, reunido durante seis horas com Carrero Blanco em Madrid. Reuniu primeiro com o ministro de Negócios Estrangeiros, depois com Don Juan Carlos cujo comportamento mediático na data já era visivelmente o de um Rei. Kissinger chegara à capital espanhola dia 18; algumas semanas antes chegaram cerca de 20 agentes da CIA com a missão de zelar pela segurança do secretário de Estado que ficaria durante dois dias alojado nas instalações da Embaixada americana – Nessa mesma noite do dia 18 o grupo de Etarras ultimou os preparativos da colocação de explosivos e passagem de cabos pelas fachadas exteriores junto ao túnel previamente escavado, que se situava a menos de 100 metros da embaixada dos EUA. No meio de todo o aparato de segurança na zona não é surpreendente que os serviços secretos não tenham detectado quaisquer indicios da escavação que foi bastante ruidosa? (atribuida aos trabalhos de um escultor residente na vizinhança)

No dia 19 a agenda de conversações entre Carrero Blanco e Henry Kissinger girou em torno de um ponto único, a especialidade deste último estratega: o comunismo e a guerra necessária para o combater numa altura em que os invertimentos norte-americanos na Europa se confrontavam com a retrógada interpretação dos restos do fascismo. Rui Tavares hoje actualiza a questão: “Para muita gente, em Espanha como em Portugal – apesar da europeização, da imigração, da secularização e da modernização em geral – é “suposto” que o povo queira sempre a mesma coisa. E como tal, não é “correcto” que ele vá mudando”
Kissinger pediu a Carrero Blanco que o teor da reunião se mantivesse secreto, incluindo para as administrações e chefias abaixo, na medida em que o encontro não foi considerado “oficial”. Nesse dia Carrero Blanco não teve tempo de despachar mais nada. No dia seguinte voou de cena deixando uma cratera no pavimento de 10 metros de diâmetro.
Como sempre, o vazio abriu caminho para as chamadas “interpretações conspirativas” do atentado. (Kissinger também tinha estado presente em Roma em vésperas do rapto e posterior assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas - Gianni Agnelli patrão da Fiat, o verdadeiro Rei de Italia, disse certa ocasião: “os Brigadistas … são os executores, porém os verdadeiros protagonistas... vivem, vivem… uns em Itália, outros nos Estados Unidos… a sua política não agradava a alguém com muito poder” – no dia do rapto, Aldo Moro, o chefe da Democracia Cristã que tinha governado a politicamente instável Itália durante mais de 30 anos dirigia-se ao Parlamento para propor uma aliança com os comunistas.) E além do mais, pouco depois, começou a ser divulgado o teor da Operação Gladio – confirmado por Giulio Andreoti, mais recentemente seguido pelo ex-presidente Francesco Cossiga quando questionou a versão oficial da autoria do 11 de Setembro

Um relatório entregue pelo Procurador Fiscal Herrero Tejedor coincidiu com a data do atentado de Madrid: reportava a chegada à Base militar de Torrejon em Madrid de dez minas anti-tanque procedentes de Fort Bliss. Este tipo de minas, empregues no Vietname, eram muito sofisticadas para a época; dispunham de sensores acústicos extremamente sensiveis capazes de ser activados por controlo remoto. Que faziam na Europa? É licito supôr-se, abrindo caminho à especulação, que seriam utilizadas para atentar contra altas personalidades?. Não foi possivel concretizar o destino ou paradeiro das bombas. É provavel que algumas delas fossem parar ao túnel etarra para reforçar a carga convencional? – dos exames periciais feitos aos destroços recolhidos no local por equipas militares (os únicos então admitidos neste género de investigação) nada foi divulgado, nem as presumiveis provas, os restos das explosões, foram facultadas a peritos independentes – tal como nos mais recentes atentados de 11 de Março!
Como escreveu José Luis de Villalonga, o autor da biografia do Rei: “porque razão no dia do atentado desapareceram da Calle Claudio Coello todas as viaturas da embaixada americana? Foi como se tivessem sabido antecipadamente o que iria acontecer. Creio que provavelmente os serviços secretos sabiam, provavelmente a CIA também sabia”.

Como souberam acerca do 11 de Setembro, ou do 7 de Junho em Londres. Como a semana passada souberam da morte do autarca basco moderado que foi assassinado porque serviu de incentivo eleitoral ao voto na direita possivel, o muito conveniente Bloco Central de interesses – ao mesmo tempo que quase irradicou as representações regionais ou alternativas em Espanha. Na actual política criminosa do Império, é muito lucrativo dispôr-se de uma parte da ETA que se possa instrumentalizar, usar e diabolizar. Ainda que, em certas circunstâncias, provavelmente ou não, nem os próprios militantes disso se apercebam
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terça-feira, março 11, 2008

sobre o holocausto

por mero acaso não é verdade
"Actualmente não é realidade, mas é a minha realidade, a minha maneira de sobreviver"
Misha Defonseca, escritora belga residente nos EUA à Time Magazine, pedindo desculpa por o best seller (com o qual ganhou 22,5 milhões de dólares!) onde conta as suas "Memórias" de sobrevivência ao holocausto, se revelarem ser falsas. Ela nem sequer é judia e nunca esteve no gueto de Varsóvia, como chegou a afirmar. O resto da estória é a mesma do costume noutros ramos de negócio: desmascarada, um tribunal condenou-a a devolver o dinheiro ganho com a fraude, mais juros e custas no total de 32,4 milhões e penhorou-lhe a casa em Millis no Massachusetts; mas entretanto a autora e o editor tinham depositado os lucros em contas off-shore.

No meio deste embróglio a parte mais verdadeira desta espécie de alucinações em torno de relatos revisionistas da História parece ser aquela onde Misha Defonseca, aliás Monique De Wael, conta a forma como em 1941 quando tinha 7 anos fugiu para a floresta das Ardenas quando viu os pais serem presos, acusados como traidores à causa da Resistência por denunciarem os companheiros à Gestapo. Ela esteve relutante em contar a história, mas por fim o editor americano Mt. Ivy Press lá a convenceu a escrever "Misha: A Memoir of the Holocaust Years" onde relata como sobreviveu ao lado dos lobos que a acolheram e alimentaram. Vagueou 1900 milhas pela Europa e deu um tiro num soldado alemão em legitima defesa. Foi assim que resistiu e permaneceu escondida dos Nazis até ao fim da 2ª grande guerra mundial. Nada de especial, se comparado com as divertidas (ou sinistras) ficções elaboradas por Primo Levi e Elie Wiesel - na verdade o esforço Sionista para aldrabar a História começou com o "Relatório Americano sobre Refugiados de Guerra, Campos de Extermínio Alemães: Auschwitz e Birkenau, Washington, DC, Novembro de 1944" (ver aqui) a partir do qual a causa tem arregimentado os mais perversos farsantes:

"Não muito longe de nós, chamas elevavam-se dum fosso, gigantescas chamas. Eles estavam a queimar algo. Um camião aproximou-se da vala e descarregou a sua carga — crianças pequenas. Bebés! Sim, eu vi — vi com os meus próprios olhos... Aquelas crianças nas chamas. É surpreendente que eu não tivesse conseguido dormir depois daquilo? Dormir era fugir dos meus olhos"
Elie Wiesel, (uma notável testemunha falsa)
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segunda-feira, março 10, 2008

A marcha, a mulher e a novela

"Luís Filipe Menezes dizia que a “Marcha da Indignação” que percorreu Lisboa na tarde de sábado era a “ponte 25 de Abril do engenheiro Sócrates”. Com uma diferença significativa: a “Marcha da Indignação” não viu os canais generalistas interromperem a sua emissão (a própria SIC Notícias se limitou a directos nos noticiários de hora a hora, mas no interim continuou a programação normal de magazines do canal).
Claro que 80 mil pessoas a manifestarem-se pacificamente pelas ruas de Lisboa é muito menos “televisivo” do que confrontos entre manifestantes e a polícia de choque no “garrafão” da ponte 25 de Abril — e havia coisas muito mais interessantes para mostrar na televisão, como aquele espectáculo do Dia Internacional da Mulher apresentado por Bárbara Guimarães e Ana Marques que tinha todo o aspecto de ter sido “inventado” à pressão para concorrer com a estreia de Vila Faia no polémico horário de que muito se tem falado. (A propósito: não resultou.) Tirem as vossas conclusões"
Jorge Mourinha
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domingo, março 09, 2008

uma frase 100 mil vezes repetida e ampliada percorre o país

Ruptura! - um momento histórico

se Correia de Campos já foi, graças a manifestações populares espontâneas, é possivel derrotar Lurdes Rodrigues e Sócrates!

em matéria de liquidação do sistema público de ensino, Sócrates fez mais, nos dois anos que leva de governo, do que Psd, Cavaco e Cds juntos desde o 25 de Abril. "a escola cheira a enxofre" diz um professor indignado.
cartazes da manifestação de ontem:
"Sempre votei PS, e agora?"

"Exigimos resultados: a Demissão da Ministra!"
"os Professores não são empregados de escritório"
"Exigimos respeito pela nossa profissão, somos todos titulares"
"o erro já vem de trás, titular sem avaliação"
"basta de horários de 11 horas!"
"Não somos baby-sitters"
"a Educação não deve pagar a factura"
"pelo Futuro da Educação dos nossos filhos!"
"Basta! das políticas da União Europeia"
"com estes "generais" a batalha da educação está perdida!"

"Finalmente, as presentes mobilizações contra a "avaliação do desempenho" de Lurdes Rodrigues-Sócrates apontam contra alguns tijolos do edificio que nos últimos anos tem vindo a ser montado em nome da "competência", "avaliação", e "superiores interesses da Educação", e que apenas tinham o objectivo de justificar o roubo de salário e direitos a um sector constituido por 150 mil trabalhadores da Função Pública e por esta forma amenizar a crise financeira do liberalismo vigente. Aquela avaliação já definida no DL 2/2008 de 10 de Janeiro e que o ministério e governo tentam dar tudo por tudo para que as escolas concretizem, visa controlar a passagem de escalão para escalão dentro daquelas duas categorias já referidas através de uma teia de itens e grelhas que já mereceram o sarcasmo e denúncia de quase todos os analistas e que acabam por tornar claro e público o seu principal objectivo: poupar dinheiro congelando a progressão profissional na medida da crise orçamental" (E.H.)


"Na Educação, tal como nas Empresas e no Exército"

"a Ministra costuma evocar um argumento que supostamente tem um valor absoluto, mas que acaba por denunciar e trair a sua proclamada paixão pela "educação": diz ela que "se em todas as empresas e na generalidade da Administração Pública a progressão faz-se por avaliação, porque é que no ensino também não há um sistema a diferenciar quem lá trabalha?". Num debate televisivo com um dirigente da FENPROF ocorrido há tempos Lurdes Rodrigues chegou a argumentar que "se num exército há generais e sargentos, também no Ensino isso deve ocorrer". Tal pensamento foi evocado novamente no passado dia 2 de Março, no final de uma iniciativa da subsidiada Confap (Confederação de Pais) pelo Ministério da Educação, por Valentim Loureiro: "Não percebo como é que todos querem chegar a Generais". De facto, se no "mundo empresarial" nunca vemos o patronato e classe dominante a ser responsabilizada pelas graves crises sociais e desemprego, também no Ensino nunca vimos as anteriores dezenas de ministros de educação e respectivos secretários de estado serem julgados pela actual situação nas escolas, insucesso educativo, abandono escolar e desemprego para a generalidade dos jovens mesmo "diplomados".

Pelo contrário, todos eles - patronato, altos quadros, ministros, secretários, amigos e familiares seus, etc. - são premiados com privilégios vergonhosos e cargos honrosos após a "sacrificada comissão de serviço", ao mesmo tempo que, uns atrás de outros, prometem melhorias para depois de amanhã... Quer dizer, a "avaliação rigorosa e justa" que tanto evocam serve apenas para responsabilizar quem trabalha e desresponsabilizar os verdadeiros responsáveis pelo desumano e decadente liberalismo que também destrói a Escola Pública e afasta cada vez mais os jovens de uma perspectiva motivadora. Por exemplo, durante o governo de Sócrates, o desemprego global aumentou 6,5% e nos licenciados 63%!..." (Eduardo Henriques)

"Na verdade, o que os governos do PS e do PSD/CDS) queriam era poupar uns quantos milhões à conta do sector da Educação (e da Saúde), daí o congelamento de carreiras, o congelamento na colocação de novos professores e o processo de avaliação actual que travará (e fará poupar ao Estado mais uns milhões) o acesso ao topo da carreira a milhares de professores (...) e, de novo, os professores a confirmarem que o país já não vive a mesma situação política de há dois anos. Desta feita, várias manifestações espontâneas por todo o país foram convocadas por fora das estruturas sindicais e até começaram a surgir estruturas de organização à parte das direcções tradicionais dos sindicatos. Quando em Leiria se reúnem centenas de professores auto-convocados, quando, em Viana do Castelo, 3.000 professores saem à rua por si próprios e em dezenas de outras cidades acontece o mesmo estamos perante um novo fenómeno que abre caminho para o aprofundamento da contestação social"
Jornal Ruptura/FER
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sábado, março 08, 2008

dia 8

Comemorações à esquerda











Comemorações à direita

Shulamith Firestone é uma influente escritora feminista que usou o marxismo como ponto de partida. Começou por citar e elogiar Friedrich Engels, que no século XIX “viu que a divisão original do trabalho entre o homem e a mulher existia com o objectivo de educar as crianças. No seio da família o marido era o proprietário, a esposa o meio de produção, e as crianças um investimento no trabalho, e esta reprodução da espécie humana foi, no princípio, um sistema económico importante distinto do dos meios de produção". “The Dialectic of Sex” (1970)

Restos desse modo de produção feudal persistem nas sociedades contemporâneas. Você é uma feminista? Todas as mulheres já se fizeram essa pergunta pelo menos uma vez na vida e essa costuma ser uma resposta difícil de dar. Se a resposta for não, você admite implicitamente que as mulheres são inferiores - ou pelo menos foi condicionada pelas feministas a pensar assim. Se a resposta for sim, significa que essas mesmas feministas convenceram-na de que se está aliar a um grupo de demagogas histéricas, cujo objectivo nunca foi a igualdade, mas o poder. A palavra feminismo cheira a jacobinismo, mas a palavra misógino parece ser o seu único antónimo. Que fazer?
A única coisa a fazer é romper a fortaleza que as feministas de linha dura ergueram na mentes das mulheres e encorajá-las a pensar por si mesmas. Por isso, Cathy Young, autora de "Cessar Fogo!:Porquê os Homens e Mulhers Precisam de Juntar Forças para Atingir a Verdadeira Igualdade" cunhou a expressão: "feminista dissidente"
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sexta-feira, março 07, 2008

That`s not all folks!

Baptista-Bastos no DN : «A democracia portuguesa está deformada. Os partidos estão desacreditados e os políticos são desacreditantes. Portugal sobrevive num sonambulismo onde o desacerto se tornou coisa aprazível e a mediocridade a medida de todas as coisas”
Leonardo Ralha no CM: “Faltam movimentos que defendam ideias e entendam o futuro do País e do Mundo por oposição à modorra do “Centrão”, à ineficiência dos que temem ser de direita e ao desapego à realidade dos que ficam mais à esquerda”, afinal ambos do mesmo lado, digo eu.
A escolha do actual estado de coisas foi democrática. A grande maioria tem votado sempre ora no Psd ora no PS. Os eleitores não têm de que se queixar. Bem se sabe que os directórios escolhidos para os partidos do sistema não cumprem os programas com que se apresentam às escolhas. Há trinta e picos anos que as pessoas comuns sabem que é assim; contudo parece existir um prazer mórbido em perpetuar a almejada esperança que do céu caia, sem trabalho, esforço ou militância, benesses e mordomias iguais ou parecidas àquelas que caem como por milagre nas contas bancárias dos políticos e gestores que assaltaram o poder público. Como a interpretação desse sonho tarda a converter-se em realidade, talvez até nunca venha a converter-se, as odiosas culpas no cartório da falta de comparência do milagre, recaem sobre “os comunistas”. Se a CGTP junta 200 mil pessoas descontentes, a culpa é dos comunistas, se a Fenprof é obrigada a esconder qualquer sinal de filiação partidária e mesmo assim reúne o consenso da esmagadora maioria dos professores, a culpa é dos comunistas. Se o Pcp junta 50 mil numa manifestação convocada unicamente no seu próprio nome, a culpa é deles mesmos. Afinal, apesar da mal amanhada tergiversação ideológica, “os comunistas” parecem ser uns fulanos importantes: Assim sendo, até tomando como bitola o revivalismo das acções policiais pidescas, estamos como dantes:

"Paira um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o Papa e o Czar, Merkel e Sarkozy, radicais franceses e polícias alemães. Onde está o partido de oposição que não tivesse sido vilipendiado pelos seus adversários no governo como comunista?" (ler mais)
O Manifesto Comunista
na Era da Internet, explicado em vídeo - mais actual que nunca!
(legendado em português)

Besta de Estilo” de Pier Paolo Pasolini

Fragmento III, Paris
Vivo um sentimento de profundo ou desesperado rancor, de desilusão tão silenciosa quanto definitiva, de humilhação que não degrada apenas o velho que sou, mas degrada, por reflexo, toda a minha juventude. Este rancor, esta desilusão, esta humilhação derivam do facto de não ter vivido como Aliocha, embora tivesse podido ser capaz. Os sentimentos tão fortes, puros, violentos, que me agitavam em jovem em relação aos outros, não soube gastá-los sem interesse, como Aliocha; e não soube fazer deles segredo, revelando-os apenas aos que por eles se interessavam verdadeiramente. Não soube, assim, perder-me no silêncio, no pequeno lugar numa cidade qualquer que a vida me reservara. Quis investir com interesse esses meus sentimentos e num círculo de pessoas mais vasto. Desejei-o por ingenuidade. Acreditei que os meus sentimentos, assim fazendo, se iriam nobilitar ainda mais e sobretudo, sinceramente, engrandecer. Tornaram-se, porém, infinitamente mais pequenos e mesquinhos. E o meu rancor, a minha desilusão, a minha humilhação deveram-se àquilo precisamente que tornou pequenos e mesquinhos os meus sentimentos: a literatura.

Fragmento IV – o coro em Praga
Sala de Conferências (União de Escritores). Observadores ocidentais presentes: o que faz da conferência de imprensa de Jan algo de menos asceticamente comunista, etc.
Há algo de mundano, como nas apresentações de livros em Roma ou em Paris (sem o afluxo “ateniense” dos análogos encontros londrinos ou, melhor ainda, nova-iorquinos) em que o “demos” está presente, na forma de jovens com sede de cultura (actualmente algo irreverentes)
A última obra de Jan é uma reescrita de uma obra clássica de Vladimir Janácek; nela se fala de um crítico que reconstrói a Identidade de um pintor desconhecido, através de uma sequência obscura de descobertas de quadros novos e novas atribuições – como num policial puramente intelectual.
Este enredo, no livro de Jan, repete-se porém três vezes, em três momentos diferentes da história: um contexto rico (agrário, feudal: fascista); um contexto popular; e, por fim, um contexto pequeno-burguês. A relação de classe (entre descobridor e descoberto) é sempre especular: pois o patrício descobre um grande pintor popular; o pobre descobre ao contrário um grande pintor de família nobre; o pequeno burguês descobre, por fim, um grande pintor pequeno burguês (desaparecido nos campos de extermínio).
Neste último caso temos, porém, uma infracção da simetria: aí se insere a radical transformação do mundo que se deve à sociedade de consumo (que unifica o Oriente ao Ocidente): por isso a Identidade do grande pintor pequeno-burguês – reconstruída pelo crítico pequeno burguês através de deduções e trazida da sombra do desconhecido para a luz da história – sofre uma alteração interpretativa bastante anómala, em relação às duas primeiras vezes. A Pesquisa fica suspensa, perturbada
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quarta-feira, março 05, 2008

o estado da arte

O milhão de euros de "Das Märchen" no São Carlos

"O Emmanuel Nunes deveria ser preso por assassinar uma das mais belas obras de arte saídas do espírito humano: Das Märchen de Goethe."
"Nunca afirmei que o Estado não deve subsidiar a ópera e a cultura, antes pelo contrário. Aliás dá-me um gozo enorme que o dinheiro de uns quantos liberais incultos e primitivos seja usado para pagar a "ópera" do Emmanuel Nunes"
a condizer:
"Portugal deve ser o único país europeu onde o primeiro ministro orgulhosamente afirma que tem no seu currículo o projecto de ampliação de um palheiro, projecto esse que assinou, e do qual se afirma totalmente responsável"
Henrique Silveira, no "Crítico"

mais outro artista:
* A reforma dourada de Vasco Franco - APESAR de ter apenas 50 anos de idade e de gozar de plena saúde, o socialista Vasco Franco, número dois do PS na Câmara de Lisboa durante as presidências de Jorge Sampaio e de João Soares, está já reformado. A pensão mensal que lhe foi atribuída ascende a 3.035 euros (...) Já depois de ter entregue o pedido de reforma, Vasco Franco foi convidado para administrador da Sanest, com um ordenado líquido de 4000 euros mensais (...) O convite partiu do reeleito presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, cuja mulher é secretária de Vasco Franco na Câmara de Lisboa (...) Contas feitas, o novo reformado triplicou o salário que auferia no activo, ganhando agora mais de 1200 contos limpos. Além de carro, motorista, secretária, assessores e telemóvel.”
no blogue "Instante Fatal"
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terça-feira, março 04, 2008

Hutto Camp

É mais grave que apenas isto

Um americano em cada Cem está encarcerado. Na prisão; atrás das grades, neste preciso momento: 1 em 100. Este é um dado sem precedentes na história da América do Norte, a antiga “terra das pessoas livres”. (Land of the Free)
Ainda mais chocante é o facto de nem nas “terriveis ditaduras” comunistas, na Rússia e na China, nos seus pontos altos de convulsão social, tenha alguma vez esta percentagem atingido números semelhantes de pessoas presas. Então, o que está a acontecer?
É melhor começarmos por configurar o significado destes números, porque existem indicações que Bush e o clã de amigos por esse mundo fora tencionam elevá-los para percentagens ainda maiores. Porquê? – Gerir prisões converteu-se num grande negócio para grupos privados e, nos tempos que correm, (sob a capa da chamada “globalização”) todos sabemos como os grandes negócios conseguem prosperar:
1 – Procura-se politicos corruptos, o que não é assim tão dificil de encontrar,
2 – Pague-lhes por fora, ou meta-os dentro do projecto das prisões privadas, e faça-lhes ver as vantagens da privatização, que liberta o Estado de funcionários
3 – Recolha os lucros, pagos em cash pelo Estado
Veja-se como este negócio vantajoso já opera os novos tipos de prisão que, com vantagens sociais para as familias dos presos já encarcera crianças e bebés. Está a acontecer agora, neste momento, não se trata de nenhuma fantasia paranóica. Tanto mais quando vemos os direitos constitucionais ser alvo de medidas de excepção. A prisão-hotel para familias é uma indústria em crescimento nos EUA.

Globalizando o método - Será você o próximo? (verVideo)

A história veio publicada na New Yorker, só até certo ponto. O iraniano Majid Yourdkhani viajava em trânsito, da Guyana para o Canadá. Foi detido quando fez escala em Puerto Rico o ano passado. Como natural de um países do eixo-do-mal, Majid aproveitou a deixa para ele e a sua família pedirem asilo politico aos EUA. Foram levados para um local destinado a acolher emigrantes ilegais, no Texas, para uma instalação chamada T. Don Hutto Residential Center - na prática trata-se de um campo de detenção para emigrantes, administrado por uma corporação privada, a Corrections Corporation of America (C.C.A.)
O Departamento de Segurança Interna abriu a primeira prisão deste tipo na pequena localidade de Taylor, cerca de 30 quilómetros a norte de Austin; está praticamente repleta – é a primeira prisão familiar no país baseada neste modelo de funcionamento, que prevê encarcerar famílias inteiras – incluindo crianças, recem-nascidos, serviços de infantário e assistência para mulheres grávidas - havendo planos para que outros centros de reclusão sejam construídos rapidamente, aproveitando bases militares abandonadas que serão reconvertidas para o efeito. Não se trata de operações correntes ou transitórias. As pessoas estão preocupadas com este "ambicioso" programa que irá abranger o país inteiro: a quem são estas instalações destinadas? Será este o primeiro protótipo de uma rede de campos de internamento em massa? Campos de concentração como aqueles onde se internavam vadios, ciganos comunistas, gays e judeus na Alemanha Nazi?

Como naqueles tempos, nos Estados Unidos de hoje, refugiados que procuram asilo ou a simples sobrevivência, oriundos de mais de 40 paises, foram declarados “indesejáveis”, são-lhes negados quaisquer direitos ou possibilidades de defesa e, sem que tenham cometido qualquer crime, são entregues a empresas privadas de segurança com jurisdição dentro de campos cercados de arame farpado que gerem guardas civis armados – e com este negócio facturam fortunas com eles, incluindo as crianças. Isto é algo que está operacional já neste momento, por enquanto apenas à vista de alguns norte americanos; sem dúvida que, olhando os precedentes das prisões secretas da CIA, o método alastrará. A grande questão é esta: se os amigos destes poderosos (e corruptos) podem usar este tipo de encarceramento político prendendo pessoas desprotegidas desta maneira, é óbvio que prevêm não haverá falta de “clientes” – quanto tempo faltará até começarem a visar outros segmentos similares da população?, "importando-os" e transferindo-os de qualquer Estado? (como aliás já fizeram com militantes das FARC, ou com os 5 cubanos presos por actividades de prevenção contra o terrorismo)
Este pequeno filme, feito por Matt Gossage e Lily Keber é uma reportagem sobre esta prisão; e pouco mais se conhece sobre o assunto porque as notícias são censuradas pelos media. Mas não é preciso ir muito mais longe, basta olhar para o "Hutto Camp" e vermos por nós próprios:

segunda-feira, março 03, 2008

Holocausto em Angola

Pepetela: “E se a vida animal desaparecesse da terra?; que fariam os sobreviventes?”
em “O quase fim do mundo”

“Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo. Se o fim do mundo quer dizer o aniquilamento absoluto da humanidade, haverá algum exagero na afirmação, pois escapou alguém, eu, Simba Ukolo, na ocorrência. Isso foi a primeira impressão, sozinho na minha cidade natal. Terrível sensação de solidão e de perda, mas sobretudo uma tontura de incredibilidade. Dava mesmo para acreditar em coisa mais absurda? Viria a descobrir depois, não era de facto o único, havia sobreviventes, embora talvez não fossem todas, as pessoas mais desejáveis com quem partilhar os despojos dos biliões de humanos desaparecidos. Foi um quase fim do mundo, esteve mesmo muito perto de o ser em absoluto, o apagamento total da raça humana, humana, percebi mais tarde. Mas vamos com calma. Que esta ideia demora a entrar nas teimosas cabeças, como os avisados conselhos dos mais velhos aldeões aos jovens estouvados das cidades, ou o trabalho persistente da formiga salalé erguendo as suas verticais cidades de terra vermelha. O fim do mundo não é tema que se trate com ligeireza, apesar de ter entrado em todas as línguas desde aquele rimeiro dilúvio que tornou famoso Noé e a sua arca. Também saiu constantemente das bocas de todos os trapaceiros que por este desgraçado planeta andaram, vendendo religiões de salvação ou poções para o evitar. O fim do mundo é assunto para ser tratado com delicadeza, prudência, reverente temor mesmo, pois implicou o óbito, ou melhor, o desaparecimento, de quase todos os seres vivos. A palavra desaparecimento, espero sinceramente, está aqui colocada com toda a propriedade, foi pensada e repensada, sopesada até em balança hipersensivel, antes de ser escrita. Se trata mesmo de desaparecimento, sumiço, eclipse, pois na realidade não sobrou nada deles, nem ossos nem cinzas, nem pelos ou unhas, nada. Presumo que nem os espiritos se aproveitaram, tão rápido e global terá sido o apagamento colectivo. Mas voltemos ao relato de como me apercebi de estar sozinho na terra natal” (...) no JL, pag. 24

Depois de ler este intróito, quase nos convencíamos que o escritor Pepetela, aliás Artur Carlos Pestana ex-ministro do governo de Angola na data dos factos, iria finalmente explicar-nos qual o seu papel no golpe-de-estado de 27 de Maio (1977), que vitimou dezenas de milhar de angolanos; e finalmente aceitar o repto deixado pelo historiador Carlos Pacheco em Dezembro de 2005 na "carta aberta a Pepetela" publicada no jornal Público:
"A declaração que V. Publicou o mês passado a justificar o seu papel na tragédia do 27 de Maio de 1977 é um documento tão cheio de omissões em relação aos factos que refere que eu não posso deixar de tomar uma posição crítica.
Ao protestar a sua inocência em relação aos horrores e à exterminação generalizada de militantes do MPLA nesse período, V. Diz ter-se limitado a desempenhar funções dentro de uma Comissão nomeada pelo Bureau Politico, cuja tarefa era “(...)seleccionar entre os depoimentos dos detidos(...) os que seriam mais elucidativos para serem transmitidos pelos orgãos de informação”. E deixa subentendido que qualquer outra responsabilidade que se lhe queira assacar, de participação na repressão ou em algum tribunal, é uma acusação desprovida de verosimilhança, fruto simplesmente de uma grande confusão com outras pessoas e entidades que funcionaram também no Ministério da Defesa em Luanda (onde se centralizaram as questões respeitantes ao 27 de Maio); visto o seu trabalho jamais se ter confundido com o que se passava e decidia noutros espaços. E termina por desejar que as instâncias superiores do MPLA venham em sua defesa e o ilibem de qualquer suspeita" (ler mais)

Mas afinal, a prosa de Pepetela é apenas mais um romance. Um desejo velado de aplicar a mesma receita que vitimou Nito Alves, Sita Valles e os seus seguidores como uma mundivisão alargada a universos mais abrangentes.
É sabido que o Poder, qualquer Poder, no dia seguinte à tomada de posse, se converte ao conservadorismo. Para perseguir os objectivos consignados pelas aspirações das massas, traçam-se programas e estratégias que deixam de ouvir essas mesmas massas. Regra geral é assim que nascem as ditaduras, pelo saneamento à esquerda de todas as vozes que opinam que não deveria ser assim. O Poder, ainda que se intitule popular, e por isso, deveria ser constantemente desafiado e posto em causa para que não haja desvios. É neste ponto que se desenvolvem as diplomacias secretas, acontecem as purgas e se extirpam todas as ideias "prejudiciais" de esquerda. Para que a direita, a longo prazo e em formatos cada vez mais odiosos, tenha condições de retornar ao Poder.

«Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.» (ler mais)

A propósito de outro livro recente, “Holocausto em Angola” (uma obra de uma insaciável pestilência salazarenta, no juízo de um leitor do Blasfémias) de Américo Cardoso Botelho, então um dos administradores da Diamang, um português preso na sequência dos acontecimentos, já José Eduardo Agualusa veio tentar branquear o assunto quando, sem citar nomes, cita o autor Cardoso Botelho afirmando: “ele não se limita a revelar os nomes dos principais responsáveis pelos crimes cometidos naqueles dias de horror – como fez, por vezes com incorreções gravíssimas, Dalila Cabrita (e Álvaro Mateus), acusando erradamente algumas pessoas de terem estado envolvidas nos interrogatórios a presos políticos
José Manuel Fernandes, que fez a apresentação do livro (o que é meio caminho andado para se perceber que o conteúdo não será muito esclarecedor) também agora se pronuncia: “o 27 de Maio0 de 1977 provocaria sempre uma tragédia, saísse quem saísse vencedor da luta que opôs o desconfiado e manhoso Agostinho Neto ao arrebatado e radical Nito Alves. Quem vencesse mataria com a mesma frieza, utilizando os mesmos esbirros, pois esses não servem senão quem manda e no momento em que manda. É assim que vemos irmãos mandar prender e executar irmãos, companheiros de luta ignorarem apelos de elementar clemência, homens de cultura servir como torturadores” (…) e conclui, trigo-limpo-farinha-amparo: “a utopia fatal do comunismo tinha essa lógica: justificava os maiores horrores em nome de um futuro radioso a que líderes iluminados nos conduziriam. Ela funcionou nas prisões de Luanda, como nas de Moscovo, Pequim, Saigão ou Praga; ou Havana. (…)” possivelmente até em Abu Graib, Guantanamo ou na afegã Pul-e-Charkhi e muitas outras, mas JMF é omisso nesta questão. Certo, também não explica a velha e a actual conivência de Cavaco Silva e Durão Barroso e do novo pau-mandado do PS com a ditadura em Angola. Mas o que tem esta lógica a ver com Pepetela, aliás o ex-ministro Artur Carlos Pestana, o inquisidor de presos, torturados e assassinados sumariamente sem culpa formada e sem um julgamento legal, e o facto do historiador Carlos Pacheco ter sido banido das páginas do "Público"?
e, para concluir, ninguém será julgado?

* mais informação em "Associação 27 de Maio"
* ver as "Treze Teses em Minha Defesa" de Nito Alves
actualização:
* Autora de "Purga em Angola" apresenta queixa-crime por difamação contra viúva de Agostinho Neto
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domingo, março 02, 2008

Sunday Blood Sunday























”Qualquer leitura é um acto de resistência a todas as contingências. Uma leitura bem conduzida salva-nos de tudo, mesmo de nós próprios. E acima de tudo, lemos contra a morte”
Daniel Pennac

Os «Livros Negros» de Gonçalo M. Tavares têm um novo Reino: Aprender a rezar na Era da Técnica. Lenz Buchmann é um homem atroz. Como médico, despreza os doentes. Como político, despreza a sociedade. Como marido..., como irmão... Como filho, enaltece irracionalmente o pai porque é assim que se comportam os homens desprezíveis. Depois de Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém, Aprender a rezar na Era da Técnica mantém o mesmo olhar agreste e tantas vezes sombrio sobre a condição humana:

"«O que vês quando olhas para onde todos olham?.

"Dois Lados e Não Um"
"Porém o material que estava em jogo era, no fundo, o mesmo: a doença matava com as células de que eram compostas as grandes vontades, decisões e acções do passado: é a mesma matéria com outra organização, com uma carga negativa"
(pag. 61)

sábado, março 01, 2008

«Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores/ Seriam uns amores/ Greves era só das seis e meia às sete/ Em frente ao cacetete/ Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos/ Feriado em Abril só no dia dos enganos/ Reivindicações quanto baste mas non tropo/ Anda beber mais um copo»
Sérgio Godinho, em “Arranja-me um emprego”

As Ovelhas vão pedir a intervenção do Lobo

Perante o que considera ser um “quadro de grande instabilidade nas escolas” e a “panela de pressão” em que se transformou o sistema educativo, a plataforma sindical que reúne as dez organizações representativas da classe considera que é “fundamental, urgente e inadiável” a intervenção do Presidente da República. Vamos pedir uma audiência ao Presidente da República, para que fique na posse de todos os dados sobre o que se passa na Educação. Respeitaremos a sua decisão, mas queremos prestar todos os esclarecimentos”, anunciou ontem Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, falando sobre a “Marcha da Indignação” marcada para dia 8 de Março onde são esperados 25 mil professores com o apoio de todos os sindicatos.

«Tu precisas tanto de amor e de sossego/ Eu preciso dum emprego/ Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso/ Por exemplo o Paraíso»
«Se meto os pés para dentro, a partir de agora/ Eu meto-os para fora/ Se dizia o que penso, eu posso estar atento/ E pensar para dentro»

Ainda não perceberam? – Cavaco Silva é o garante que zela para que o programa de desmantelamento do sistema de Educação no Estado Social seja cumprido. Cavaco foi o arquitecto das auto estradas medidas ao quilómetro como sinal de “desenvolvimento” (embora só tenham um sentido: para importar bens supérfluos ou outros que poderíamos facilmente produzir) e dos centros comerciais (que vendem fundamentalmente bens produzidos e comercializados por empresas estrangeiras) que desmantelaram o comércio tradicional nos centros das nossas cidades e reduziram os empregos disponiveis a ordenados mínimos e por turnos. Foi este o modelo da tardia adesão portuguesa ao capitalismo europeu. Acontece que é este paradigma de desenvolvimento que se encontra em falência. Do mesmo problema, herdado de 30 anos de governos do Bloco Central, de falta de estabilidade, e de precariedade cada vez mais acentuada, padece não só a classe dos professores, mas sim toda a sociedade. Ou mudamos todos juntos o regime, ou os eventuais 25 mil professores reduzem-se à sua insignificância. Como aliás tem acontecido até aqui.

recrutados para gerir a falência do sistema

Durante a ditadura “o espírito de quartel reinou soberanamente nas escolas. Ali se desfilava a marcar passo, obedecendo aos vigias, a quem só faltava o uniforme e as divisas. A configuração do edifício obedecia à lei do ângilo recto e da estrutura rectilinea. Deste modo se empregava a arquitectura a vigiar os desvios de comportamento, graças à rectidão duma austeridade espartana.

Raoul VaneigemDesmilitarizar o Ensino

Até aos anos 60 a instituição educativa continuou modelada por estas virtudes guerreiras, segundo as quais os jovens deviam ir morrer nas fronteiras, de preferência a entregarem-se aos prazeres do amor e da felicidade. Semelhante prescrição caíria hoje no ridículo, mas apesar da mutação iniciada em Maio de 1968 e do descrédito em que se vê o exército numa Europa sem combates (com excepção de algumas guerras locais em que desdenha intervir), seria excessivo pretender que caiu em desuso a tradição da imposição vociferada, do insulto ladrado, da ordem sem réplica e da insubordinação que a isso constitui apropriada resposta.
A quase absoluta autoridade de que o mestre se vê investido está mais ao serviço duma expressão de comportamentos nevróticos do que da difusão de um qualquer saber. A lei do mais forte sempre fez da inteligência uma das armas da estupidez. Há muitos, sem dúvida, que mostram má vontade perante o facto de apenas terem direito a ficar calados. Mas enquanto uma comunidade de interesses não puser no centro do saber as inclinações, as dúvidas, os tormentos e os problemas que cada qual vai sentindo no dia a dia – ou seja, naquilo que compõe a parte mais importante da sua vida – só a sobranceria e o desprezo poderão transmitir mensagens, cujo sentido não nos diz verdadeiramente respeito enquanto seres de desejos”

(continue a ler "Aviso aos alunos do básico e do secundário")
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