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Cena final de Accatone
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"Cristo Morto"
de Andrea Mantegna - Pinacoteca de Brera, Milão
“Áh, aquilo que queres saber, meu rapaz, acabará não perguntado, perder-se-á sem ser dito”
in “Shane” de George Stevens
Os mesmos actores que Pasolini transformou em marginais, pequenos delinquentes, bandidos, putas e proletários, fazendo deles personagens nobres saidos como que da mitologia de uma narrativa religiosa como nos quadros de Caravaggio, representaram depois os apóstolos no “Evangelho Segundo Mateus” salazarentemente traduzido entre nós para “O Evangelho Segundo SÃO Mateus”. Diria o realizador em entrevista:
“ Encontro muita semelhança entre a fuga de José e a Virgem e os milhões de refugiados que existem no mundo actual” – o que lhe valeu fortes ataques do Vaticano e da classe politica conservadora. Por essa época Pasolini tinha-se tornado famoso, tendo já trinta processos judiciais contra ele por diversos crimes e ofensas contra a moral e a religião – inclusivamente tinha sido expulso do Partido Comunista por defender o Marxismo e o Cristianismo como as grandes forças- motriz da Civilização Ocidental – “A ideia religiosa nunca foi contrária à classe operária” dizia, citando Gramsci.
“Il Vangelo Secondo Matteo” marcou a plena consagração de Pasolini como cineasta, sendo unânimemente aclamado e entre os muitos prémios como em Veneza (1964) nem faltou o do Office Catholique Internacionale. Muito se receara quando se soube do projecto. Mas eis que, paradoxalmente, o marxista Pasolini, com a reputação que o rodeava de “provocador” assinou uma fidelissima adaptação do Evangelho, literalmente seguido sem qualquer omissão ou acrescentamento. Vale a pena acrescentar duas declarações suas: “É uma obra de poesia o que quis fazer. Não uma obra religiosa, no sentido vulgar da palavra, nem, de algum modo, uma obra ideológica. Em palavras simples, eu não acredito que Cristo seja filho de Deus, porque não sou crente (pelo menos conscientemente).
Mas acredito que Cristo é divino, ou seja, acredito que nele a humanidade é algo de tão elevado, rigoroso e ideal que ultrapassa os termos comuns da humanidade. Por isso, falo em poesia: instrumento irracional para exprimir este meu sentimento irracional em relação a Cristo (...) uma violenta chamada de atenção a uma burguesia estupidamente lançada na destruição dos elementos antropológicamente humanos, clássicos e religiosos do homem”. Na verdade a figura de Cristo é aqui representada com a mesma violência de um resistente: como algo que contradiga radicalmente a vida como esta é vivida pelo homem moderno.
“Não vim trazer a paz, mas a guerra” – nas próprias palavras de Jesus é a chave para a compreensão da ideia de Cristo, sempre à frente dos apóstolos como um lider revolucionário que prega continuadamente na sua marcha até Jerusalem. Na sua sacralidade laica Cristo é reduzido no seu humanismo, a um género de cristianismo socialista, rompendo-se assim com o cliché da iconografia Cristã. Esta é a reconstrução mais realista da história de Cristo, um porta voz intemporal dos danados da Terra – que nada tem a ver com a hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) – sabemos como acabou Cristo, e como acabou Pasolini, ambos vitimas do poder descriccionário.
A perda e o declinio da Civilização deve-se ao Poder que está sentado sobre montanhas de despojos de vítimas.
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Os mesmos actores que Pasolini transformou em marginais, pequenos delinquentes, bandidos, putas e proletários, fazendo deles personagens nobres saidos como que da mitologia de uma narrativa religiosa como nos quadros de Caravaggio, representaram depois os apóstolos no “Evangelho Segundo Mateus” salazarentemente traduzido entre nós para “O Evangelho Segundo SÃO Mateus”. Diria o realizador em entrevista:
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“Il Vangelo Secondo Matteo” marcou a plena consagração de Pasolini como cineasta, sendo unânimemente aclamado e entre os muitos prémios como em Veneza (1964) nem faltou o do Office Catholique Internacionale. Muito se receara quando se soube do projecto. Mas eis que, paradoxalmente, o marxista Pasolini, com a reputação que o rodeava de “provocador” assinou uma fidelissima adaptação do Evangelho, literalmente seguido sem qualquer omissão ou acrescentamento. Vale a pena acrescentar duas declarações suas: “É uma obra de poesia o que quis fazer. Não uma obra religiosa, no sentido vulgar da palavra, nem, de algum modo, uma obra ideológica. Em palavras simples, eu não acredito que Cristo seja filho de Deus, porque não sou crente (pelo menos conscientemente).
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“Não vim trazer a paz, mas a guerra” – nas próprias palavras de Jesus é a chave para a compreensão da ideia de Cristo, sempre à frente dos apóstolos como um lider revolucionário que prega continuadamente na sua marcha até Jerusalem. Na sua sacralidade laica Cristo é reduzido no seu humanismo, a um género de cristianismo socialista, rompendo-se assim com o cliché da iconografia Cristã. Esta é a reconstrução mais realista da história de Cristo, um porta voz intemporal dos danados da Terra – que nada tem a ver com a hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) – sabemos como acabou Cristo, e como acabou Pasolini, ambos vitimas do poder descriccionário.
A perda e o declinio da Civilização deve-se ao Poder que está sentado sobre montanhas de despojos de vítimas.
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