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terça-feira, janeiro 12, 2010

a actualidade de um PS conhecido

Ao reler a bem vinda versão pirateada na Internet do livro de Rui Mateus “Contos Proibidos” sobre o escândalo do fax de Macau que envolveu o directório do Partido Socialista no final do segundo mandato de Mário Soares como Presidente da República – não se pode deixar de recordar o modus operandi dos agentes económicos globais sobre paises e regiões, descrito num outro livro salvo erro nunca traduzido para Portugal,

,,, “Confessions of an Economic Hit Man” de John Perkins, um alto funcionário de uma agência estatal dos Estados Unidos que acabaria por se demitir em 2004. “Confissões de um Assassino Económico” descreve a actuação desses agentes como sendo “profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países em todo o mundo em golpes de triliões de dólares” - Os assassinos económicos actuam manipulando recursos financeiros do Banco Mundial, da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outras organizações norte americanas e internacionais, como o FMI. Através de empréstimos, eles canalizam verbas de países para grandes corporações e famílias abastadas que controlam grandes fontes de recursos naturais. John Perkins afirma que "os seus instrumentos de trabalho incluem relatórios financeiros adulterados, disputas eleitorais fraudulentas, extorsão, sexo e assassinato. Um assassino económico é um empregado do imperialismo nos tempos da globalização".

Legenda da foto da capa do livro de Rui Mateus: “Discussão informal à margem de uma reunião da Internacional Socialista em Amsterdão, entre Mário Soares, Rui Mateus e Helmut Schmidt em 16 de Abril de 1977, nas vésperas da partida de Mário Soares para os Estados Unidos, sobre se o Grande Empréstimo a Portugal deveria ou não ser feito através do F.M.I."

do prefácio de Contos Proibidos:

“Para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade politica, não existem regras idóneas de financiamento de partidos nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos “pilares morais” do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados se tratasse de algo suspeito, de algo subversivo”
Rui Mateus, “Contos Proibidos, Memórias de um PS Desconhecido”, Edit. D.Quixote, 1996 – esgotado e não re-editado

Não estamos perante um caso isolado de incompetências (a falta de gente com ética na politica - que é silenciada pelos métodos mais mafiosos que se possam imaginar, como o despedimento do jornalista Joaquim Vieira e o fim da Grande Reportagem onde publicou três artigos intitulados “O Polvo”) ou falta de visão comercial (a D. Quixote como empresa comercial cujo alvo é o lucro das vendas, que não reeditou um livro que vendeu 30 mil exemplares no 1º dia – mais que certo porque alguém a subsidiou para não o reeditar). Estamos colocados perante acções concretas, persistentes, quotidianas, levadas a cabo por um bando de facínoras ligados à Maçonaria internacional que venderam o país e tentam secar toda a verdade sobre isso.

O país ainda não está pago. E a alternativa a este bando tem sido a actuação de outro bando: Cavaco e a Opus Dei, que para anafar a sofreguidão das suas clientelas militantes, reformaram a dívida a cem por cento mais juros e conduziram o país onde hoje o encontramos. Nestas mais de três décadas, entre os factos relatados de 1977, a publicação de “Contos Proibidos” por Rui Mateus em 1996 sobre a corrupção no Partido Socialista e este ano da desgraça de 20o9/10 (em que tem vindo a lume a corrupção apadrinhada pelo actual PR /PSD), onde estão as posições do Manuel Alegre ou Jaime Gama tomadas sobre isto?não estão expressas, porque Alegre e/ou Gama sempre foram dois homens do mesmo aparelho que Mário Soares - Alegre/Gama é a última esperança do eterno retorno do jogo duplo

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Maka - Anti Corruption Watchdog

Quando Angola volta a estar na moda pelos piores motivos, tememos pela segurança de pessoas que têm a coragem de dizer coisas como diz o jornalista Rafael Marques
"Como prática corrente, deputados à Assembleia Nacional, cinco dos quais membros do Bureau Político do MPLA, têm estabelecido sociedades comerciais com membros do governo e investidores estrangeiros, assim como têm realizado contratos com o Estado, para enriquecimento pessoal:

Uma em cada cinco crianças morrem de doenças relacionadas com a falta de saneamento básico em África e noutras regiões de pobreza extrema, como na América Latina, Índia e sueste asiático. Sobre o tema é aconselhável ler o artigo de Maggie Black "O tabu dos excrementos, perigo sanitário e ecológico" (LeMondeDiplomatique, Jan2010): "toda a gente "faz", mas não se fala nisso. Contudo, este tabu ligado à decência, cobre todos os anos milhões de mortes evitáveis. Com uma crescente população urbana, a gestão dos excrementos tornou-se uma questão vital, tanto para a saúde como para a dignidade humana"
Sugestão: não seria desapropriado que as populações tomassem a iniciativa de "tratar" primeiro os excrementos vivos que se vestem de fatiotas finas e se acumulam nos gabinetes que as governam.

domingo, janeiro 10, 2010

queriam guita

Aos comentadores, amigos, inimigos e assim-assim, que aqui exprimiram opiniões ou sugeriram links se pede desculpa pelo facto de esses comentários terem desaparecido abruptamente; o que se fica a dever ao facto de o "Haloscan/Echo" ter interrompido o serviço gratuito que desde sempre esteve activo neste blogue; avancemos...
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Internet

Um ficcionista gringo publicou há dois anos na revista neocon transAtlântico (a versão nacional faliu) um artigo com o titulo estará o Google a fazer de nós estúpidos? O que é que a Internet nos está a fazer aos miolos? As pesquisas na Internet podem facilitar-nos a vida, ou por outro lado estamos a perder a capacidade de concentração?

Nicholas Carr: “Você salta de um site para o outro, recebe várias mensagens ao mesmo tempo, é chamado pelo Twitter, pelo Facebook ou pelo Mensager. Isso desenvolve um novo tipo de intelecto, mais adaptado a lidar com as múltiplas funções simultâneas, mas que está a perder a capacidade de se concentrar, ler atentamente ou pensar com profundidade. Isso é resultado da dependência crescente em relação à Internet. Essa forma de pensar vai reduzir a nossa habilidade para pensar contemplativamente. Consequências? – a riqueza da nossa cultura não é apenas a quantidade de informação que se consegue juntar. Tem a ver com os indivíduos pensarem profundamente sobre a informação, avaliarem os dados que recebem e não se deixarem bombardear passivamente por vários estímulos”. (revista Sábado)

Concluindo, temos acesso em quantidade à informação, mas o resultado poderá ser mais pobre. E os culpados não são a Internet, o Google, nem os sites corporativos que são uma mera extensão do jornalismo de empresa gerida pelo patrão. Há outras causas. Por exemplo, a Amazon vende o Kindle por 186,50 euros, mas o Estado português acrescenta à comercialização mais 40 euros de taxas alfandegárias. Mesmo que o consumidor se disponha a pagar 227 euros para escolher 1.500 livros (que é a capacidade descarregável do aparelho) entre os 400 mil disponíveis, em língua portuguesa há apenas um autor à escolha: Paulo Coelho.

Quer isto dizer que os espertinhos que se propõem ser “cultos” dentro do anglo-americanismo, pagam com língua de palmo a sua própria alienação. É dentro desta óptica de torcer os pepinos logo desde pequeninos que se desenvolve o negócio de Estado em redor dos computadores Magalhães nas escolas. Outra bizarria ainda mais espantosa na “cultura nacional” é o facto de ser preciso pagar para ler Pacheco Pereira (!) ou por exemplo os bloggers para acederem a um programa de comentários como o Haloscan tenham de passar a pagar uma anuidade. (É por essa razão que temporariamente os comentários estão aqui desactivados). Nestes pontos Nicholas Carr tem razão, a Internet pode fazer dos maus utilizadores gente estúpida, se na era da liberdade de informação internacionalista se dispuserem a pagar a sobrevivência económica das elites nacionais.

Relacionado, mas que não cabe nos "kindles":
"Bens Comuns na Era digital: a economia dos bens comuns tem na Internet um dos campos mais férteis para a multiplicação de experiências de disponibilização de conteúdos à escala global. A associação Wikimedia Portugal, recentemente criada, pretende alargar o universo digital dos conhecimentos de livre acesso em lingua portuguesa, tanto em texto como em imagem" (Walter Pimenta, no Le Monde Diplomatique)
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sábado, janeiro 09, 2010

hilariante

face à vaga gelada que assola a Grã Bretanha, o chefe dos serviços meteorologicos John Hirst que tinha previsto este inverno como um dos mais amenos de sempre, é inquirido por Andrew Neil da BBC que lhe pede justificações: "você ganha um salário que é superior ao do primeiro ministro..." (ver video aqui)

como é conhecido Al Gore é o principal empresário na venda da ideia de privatização do negócio sobre a poluição atmosférica, fazendo o pleno na conquista do Prémio Nóbel da Paz e do Óscar da Academia para a melhor obra documental. O método de reconhecimento neoliberal através da distribuição mediática como é sabido é eficaz - assim como uma espécie de pesticida para adubar o pensamento humano na óptica da compreensão limitada do consumidor.

ou não tão hilariante...

Em 1991 o Clube de Roma publicou como propaganda à criação do espaço de comércio comum na Europa, um opúsculo da autoria de Alexander King e Bertrand Schneider no qual a páginas 104-105 se pode, numa altura em que a URSS estava em processo de extinção, ler o seguinte:

Na procura de um novo inimigo que nos possa unir, sugerimos a ideia que a poluição, a ameaça do aquecimento global, a escassez de água, a fome e tudo o que se possa relacionar com o pagamento destas facturas… todos estes perigos são causados pela intervenção humana. Considerando este pressuposto… o inimigo real, será então a própria humanidade

Ao mesmo tempo, Al Gore, à época vice-presidente de Clinton, vendia à América do Norte, em nome da criação de mais emprego para as exportações nacionais, qualquer coisa parecida com a propaganda em redor da criação da zona de comércio livre NAFTA (1), que quebrou as fronteiras alfandegárias entre os EUA, México e Canadá.
Al Gore mentia (e vemos hoje à distância, com que lata)… porque a partir daí, tanto na Europa como na América do Norte, o que se verificou foi a destruição sistemática de postos de trabalho nacionais. No fim da jornada, como hoje é particularmente visivel criaram-se gigantescos défices públicos em todos estes paises. A quem serve o negócio do "mercado livre"? Lá iremos, mais uma vez, em post próximo. Para já ficamos com o video do primitivo Al Gore, ainda longe do estrelato proporcionado pela promoção do Cap&Trade climático (Compra e venda de direitos de poluição sobre o uso da atmosfera)

Al Gore Sold Out America on NAFTA (1991)



(1) o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio propôs a total eliminação das barreiras alfandegárias entre os três países beneficiou a economia mexicana e ajudou-a a enfrentar a concorrência representada pelo Japão e pela União Europeia, enquanto alguns outros defendem que apenas transformaram o Canadá e o México em "colônias" dos EUA, piorou a pobreza no México e aumentou o desemprego nos EUA (wikipedia)
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sexta-feira, janeiro 08, 2010

ano novo, vida velha (II)



















(Depois da tentativa de atentado no voo Delta Northwest 253) “não é exagerado dizer que o mundo escapou a um desastre” (Guusje Ter Horst, ministra do Interior holandesa em entrevista ao Wall Street Journal. (where else?) - o “falhado atentado” que visaria provocar o pânico em Detroit pretendeu tão só, com grande economia de meios, reavivar a memória dos atentados de Londres e Madrid, já que a fraude primordial do 11 de Setembro passou em definitivo à mitologia a-histórica.

O efeito Gatilho

A partir que os Media assumem o relatado e começam a matraquear balas noticiosas, as multidões só têm que acreditar e assumir o Medo. Passe o reparo de Dick Cheney a Obama no day after, “lembrem-se que estamos em guerra”, as medidas subsquentes são a partir daqui baseadas no Medo e não em factos. O nosso general delegado para a Imprensa, J. Loureiro dos Santos assumiu de imediato o perigo nestes termos: “Embora os serviços de informações dispussessem de noticias sobre a existência de um plano de ataque a um avião de passageiros (…)Abdulmutallab conseguiu embarcar pronto a fazer explodir o avião perto de Detroit (sic)
(Não seria preciso destruir a cidade meu ex-general porque a crise capitalista e a recessão associada, primeiro à indústria e depois à falência do imobiliário, já há muito que destruíram Detroit: 300 milhões de défice apenas nessa urbe e ainda só agora começou)

o medo vai ser tudo / …e cada um por seu caminho
havemos de chegar / quase todos / … a ratos
(Alexandre O`Neill)

clique na imagem para ampliar

Mais à frente, pelo meio da página escrita para preencher a encomenda semanal, o nosso ex-general toca no aspecto essencial da questão: “os EUA nunca deram grande importância a esta região (Yémen), limitando-se a apoiar o governo com alguns milhões de dólares e levando a efeito acções de vigilância marítima ao longo da sua costa, em que utilizam aviões não tripulados para visar objectivos seleccionados e abater alguns dos mais destacados lideres alqaedistas regionais…” (sic) - Eis o busílis: (passe a metodologia cobarde e indigna do novo militarismo informatizado) o combate da Aliança do Atlântico Norte pelo controlo judeu-Sionista do resto do mundo é uma guerra Justa?

Lateralmente a “ética da guerra” (Michael Walzer) que põe a guerra a debate, equacionando a violência organizada frente à politica pacifica, a conclusão falhada da “teoria da guerra justa” remete para a famosa lei “inter armi silente leges” (em tempo de guerra calam-se as leis) desembocando, via Bush/Cheney, na “obra literáriado actual 1º ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, redigida no já longínquo ano de 1986 (quando ainda nem havia “al-qaeda"): Terrorism: How the West Can Winyes we can: até o slogan de Obama parece ter sido decalcado daqui.
Na sugestiva lição deste famoso expert em terrorismo, fica todo um programa politico de longo prazo, que a história se tem encarregado de converter em verdade oficial.

Para o sionismo norte-americano as boas politicas são as graduais, aplicáveis pela doutrina do keynesianismo militar, que precisam de ser desmascaradas de forma radical, sem quaisquer ilusões reformistas.

A mitologia que vai sendo inscrita na maquinaria popular fica seguramente a pairar no limbo macro-histórico. Mas cá em baixo existem vítimas, pessoas concretas. E para descrever as suas odisseias individuais, como diria certo autor, apenas nos resta o recurso à literatura. Pela parte que nos toca, sugere-se um romance sobre as agruras da Cinha Jardim e da cadela Juanita, ambas apanhadas em New York tendo como pano de fundo o incómodo das novas regras nos aeroportos. Bem gira e inspiradora esta fonte, o 24 Horas
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quarta-feira, janeiro 06, 2010

o jovem que ameaçou destruir o modo de vida ocidental

Ano novo, vida velha. “Terminámos o ano como começámos a década: sob a ameaça do terrorismo” – a frase é da ponta de lança delegada do sionismo em Portugal, Esther Mucznik – que continua: “porque a Al-Qaeda (traduzido literalmente: A-Rede islâmica) continua viva, embora fragilizada do ponto de vista militar”. Pois é, ultrapassando para já a discussão sobre o militarismo institucional numa situação em que a maioria das vítimas são civis, do ponto de vista das declarações de guerras religiosas, depois os outros é que são acusados de anti-semitismo.

Ninguém viu nada. Kurt Haskell, um dos passageiros do voo Delta 253 ao ser obrigado a ficar enclausurado numa sala após a evacuação forçada do terminal do aeroporto afirmou taxativamente: Hoje é o dia em que eu me apercebi que o meu próprio país me está a mentir, a mim e a todos os americanos. Isto sobre o tal tipo que foi surpreendido num caso de jet-stress numa casa de banho do avião. Do que se quer dar a ver, esconde-se que “vernão é compreender. Tudo foi feito a partir de um único individuo (muito conveniente- mente árabe) e de uma super-seringa explosiva – e querem-nos fazer acreditar (a mim especialmente, que nem a mini-caixinha das pílulas para a loucura consigo fazer passar através dos “scaners” e apalpanços aeroportuários) que o puto Umar Farouk Abdulmutallab de 23 anos seria uma séria ameaça à civilização de índole yankee. Visto por outro prisma e por outros motivos, até será, não ele, o jovem privilegiado filho de banqueiro nigeriano (a quem bastou um curso de três meses num Instituto de língua árabe no Yémen para aprender a fabricar bombas (?), mas o verdadeiro perigo: a resistência interna das populações ocidentais aos crimes belicistas dos neoconservadores.

uma vez que o povo esteja aterrorizado, existem condições para a imposição de um Estado policial, em nome da própria defesa desse povo” (Mae Brussel) “Se a tirania e a opressão se abaterem alguma vez sobre a nossa terra, isso só poderá ser feito em nome do combate a um inimigo estrangeiro” (James Madison)
A primeira pergunta que o inspector faz quando se depara com o crime é a clássica: quem beneficia com o conto de fadas bombista? Após a detenção as autoridades afirmaram imediatamente que Abdulmutallab tinha confessado ter recebido treino da “rede terrorista”. No dia seguinte, sábado dia 26, o senador judeu-neocon Joe Lieberman (o que cumprimenta Bush de duplo beijinho na face) veio pressuroso ao Senado recitar uma comunicação, concluindo com uma evidência: “O Iraque foi a guerra de ontem, o Afeganistão é a guerra de hoje. Se não agirmos preventivamente o Yémen será a guerra de amanhã”. Lieberman um dia depois admitiu em entrevista à Fox News que “as autoridades não estavam certas de que contactos teriam havido entre “o filho extremista do banqueiro” e que indivíduos no Yémen. Mas este não temos a certezaserviu na mesma como “facto concreto” para desencadear o primeiro impulso para os media corporativos começarem a rufar os tambores de uma nova guerra assente numa histeria absurda despejada sobre a população. Encerrou-se durante horas o ponto mais visível da mitologia do medo, a praça de Time Square em New York. As novas regras de segurança espalharam o pânico nos aeroportos (1).

No domingo dia 27 Obama enviou o secretário da Defesa Brennan (o mesmo de Bush) ao local para vender a ideia do ataque a partir do Yémen. A secretária de Estado para os negócios estrangeiros Clinton certificou de seguida o alarme comunicando que “a instabilidade no Yémen constitui uma ameaça global". Gordon Brown fez o coro apropriado (como Blair fez com Bush) com a sugestão de criação de uma brigada anti-terrorista à escala global; e até o nosso moço de fretes Luís Amado concluiu que “o Iémen fica perto de mais de Portugal para não nos preocuparmos”. Passados dez dias os Estados Unidos suspenderam a repatriação dos 91 yemenitas que se encontram presos em Guantanamo.

No final de tanto aparato, conclui-se que as verdadeiras razões da nova empreitada belicista se ficam a dever ao facto de a Lei de Excepção decretada durante o mandato de George W. Bush que alterou o “Patriotic Act” com medidas draconianas sobre segurança expirava no final do ano por decisão do Congresso, uma vez que eram inconstitucionais. Era preciso acontecer algo para que existissem razões para prorrogar a alteração da lei. E o que aconteceu foi um embuste, ou como se diz nos EUA uma operação de “false flag” como tantas outras. Todos os intervenientes oficiais no caso do “falhado-terrorista-da-seringa-explosiva-escondida-nas-virilhas” mentem – e de uma forma tão primata que têm servido como objecto de chacota a meio mundo.

Aliando a este facto outra intenção, Webster Tarpley, no RússiaToday dismistificou rapidamente os propósitos das administrações dois-em-um Obama/Bush ao citar a Al-Qaeda, uma criação da CIA como grupo de pressão na área de acção dos interesses norte americanos:“o falso acto terrorista do qual decorre o ataque ao Yémen, um dos paise mais pobres do mundo, decorre da vingança pelo atentado de um agente duplo que limpou recentemente de cena sete agentes da CIA no Afeganistão”.

Dir-se-á mais. Se as coisas aconteceram com a mesma lógica de acção da célula terrorista que operou no Yémen em 2008, Israel está, como sempre, comprometido nas grandes questões de terrorismo de Estado. Na célula terrorista que foi descoberta em Outubro de 2008 a análise de dados de um computador do grupo da jihad islâmica de Abdullah Fadhel Bassam al-Haidari tinha ligações a uma agência dos serviços secretos israelita (fonte)

(1) O ridiculo dos novos conselhos da Homeland Security

terça-feira, janeiro 05, 2010

engenharia fracturante (literalmente)

Mitchell Simpson era um tipo que fez carreira como piloto de testes chegando a Subdirector para o Desenvolvimento de Tecnología Avançada na Raytheon Missile Systems, uma das mais importantes empresas fornecedoras de material militar norte-americanas. Há cerca de uma década Simpson resolveu operar o pirilau e passou a ser a Miss Amanda Simpson. Hoje é noticia por ser a primeira transexual a ocupar um cargo de alto nivel na Administração Obama (fonte) ao assumir a chefia do Departamento de Comercio como Assessora Técnica para a Industria de Segurança, cargo onde supervisionará as exportações de tecnologia e armamento dos Estados Unidos. (fonte) Heterossexual, bissexual, transexual, trissexual, assexual, com Bush ou com Obama poderá mudar o lugar ou a natureza do sexo, porém as práticas sexuais de bombofilia é que não mudam
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efeméride: a monarquia católica está de volta

No preciso momento em que se entra no ano das comemorações dos 100 anos da morte da monarquia vítima de decadência, são decretadas medidas que advogam novamente a intrusão da Igreja na gestão de assuntos da esfera do Estado. Sob o mesmo mote da ingovernabilidade de Portugal durante a 1ª República (a gestão da pobreza) passar-se-á a discutir agora a mesma causa que conduzirá à decadência e morte da actual contrafacção de república. Oxalá. Naquela época, se bem nos lembramos, os revoltosos acusavam a oligarquia real (aliada ao embrutecimento do povo pelo catolicismo) pelo facto de roubarem a Fazenda Pública
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segunda-feira, janeiro 04, 2010

o Crespo e os Estoicos

"É preciso um comité de sábios para dirigir o país para evitar que Portugal não vá falir como se fosse uma pequena empresa" (Mario Crespo) pensando talvez apenas no país visivel para a plebe, não discutindo as relações de dependência que emanam das redes internacionais de dominação: o Tratado de Roma optimizado pela burguesia nacional para Tratado Neoliberal de Lisboa, os negócios militares de agressão externa sob a égide do Pacto do Atlântico Norte, o pacto de "estabilidade" decretado pelo Banco Central europeu, a opressão financeira comandada agências de rating do Fundo Monetário Internacional, as regras sobre patentes impostas pela Organização Mundial de Comércio, etc. etc. - poderá o país que funciona sob a capa destes poderes invisiveis obter consensos pela não discussão destes tabus? - segundo Shakespeare sábios seriam os pais que conhecem os seus próprios filhos - ora, crónicas de conveniência, os espertos que se deixam submeter aos burros que gerem estas pletora de instituições são do tipo de sábios que conhecem demasiado bem a mãe do Crespo da SIC...

a vida da "anima" na cultura de Atenas, Alexandria e Roma - uma interessante conversa sobre filosofia clássica - os estoicos nos jardins de Epicuro: nem uma gota a mais de água para além daquela que é necessária para matar a sede (para ouvir aqui)
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domingo, janeiro 03, 2010

padres sem crise, sem desemprego (nem, tino na língua)

Mesmo que fosse verdade, o fim da recessão técnica não significa mais empregos. Situação que, como se comentou ontem sobre os votos de bom ano do PR aos portugueses, gera conflitos e tensões sociais - "o flagelo do desemprego que atingiu este ano o valor mais alto desde há muitos anos (10,2% em Novenbro de acordo com os dados do Eurostat) deverá persistir ao longo do ano de 2010. Ninguém quer fazer previsões, mas é pouco provável que a taxa de desemprego baixe dos dois digitos ao longo de 2010 (...) a avaliar pela história económica recente, os postos de trabalho apenas começam a ser gerados entre um ano e um ano e meio após o país sair da recessão. E Portugal ainda está mergulhado nela" (Visão).
A produção industrial em Portugal continua a baixar: baixou 7,6 por cento em Novembro. Se esta tendência se mantiver, como se vai manter, conforme notou o economista Carlos Pereira da Silva, o desemprego atingirá rapidamente os 15% logo que o governo retirar as ajudas à formação profissional. Atendendo que o número de não inscritos no fundo de desemprego ronda os 170 mil, a taxa ultrapassará de facto os 20 por cento!

O mundo maravilhoso onde os interesses dos patrões e dos trabalhadores se harmonizam não existe - seria como a ilusão de salvação do bem pela vida eterna para a Igreja, aviões privados e resorts de luxo, para todos e não apenas para a clientela de Cavaco. Mas mesmo com a casa às moscas ambas as instituições continuam a dizer missa. Falando de emprego, o curioso é que uma associação improdutiva como a ICAR, que nada faz excepto controlar a passividade social perante o ataque da classe dominante às classes trabalhadoras, função para a qual é muito convenientemente remunerada pelo Estado, se arroge a botar faladura sobre o entendimento entre os representantes dessas mesmas classes exploradoras, como faz o bispo designado pelos deuses para Lisboa:
"o endividamento público e a regionalização são exemplos de situações que exigiam um entendimento entre os partidos"
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sábado, janeiro 02, 2010

Cavaco, o Bloco Central e o agravamento da crise









o judeu Levi, cujo nome afanou do latim levir, a páginas tantas advogava, o casamento da mulher com o cunhado quando lhe morria o marido sem deixar filhos. A esperteza saloia servia para que, ao voltar a procriar nova descendência, não houvesse perda de herança nem património adquirido e estes valores pudessem permanecer dentro do clã. A habilidade do irmão do marido quando não gostava da gaja consistia na prática de ejacular para fora. É esta primeira memória de coito interrompido por motivos alheios à vontade do garante do sistema que Cavaco Silva receia verdadeiramente. Com o andar dos tempos o termo que definia o onanismo do Bloco Central passou a ser mais conhecido como sinónimo de masturbação, ou seja, cada um mija ou toca ao bicho com a sua e saca o mais que puder enquanto estiver em cima da gestão do Estado. Nestes termos o desejo da continuação da união de facto entre PS e PSD pela parte de Cavaco é mais que previsível. É difícil manter o Bloco Central politicamente a funcionar, salvaguardando a ilusão de alternância, mas não é de todo impossível...

... desde que a malta não se aperceba do malabarismo. Por outro lado, sob o mote de que a herança destes dois se divide agora como hipoteca por todos nós – uma vez que os créditos pedidos à banca estrangeira já representam 108,6% da riqueza produzida pelo país – para combater os interesses da clientela do Bloco Central não se vê outra saída senão talvez foder (Abrunhosa, 1995) - (talvez, não, quem não deve nada, tem a certeza) que mais podemos fazer senão produzir novos actores com desejo de emancipação para votar noutras alternativas? Mas Cavaco e o Fisco ao serviço dos prestamistas transnacionais vêem-nos apenas como nova escravatura na perspectiva de pagadores de impostos futuros. É sobre eles que irá recair a canga. E assim declararam desde já oficialmente que todo o esperma é sagrado, na condição que se produza cada vez mais contribuintes andrajosos…

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Leda e o Cisne revolucionário

Até 31 de Janeiro estará patente na Cordoaria Nacional em Lisboa, a exposição sobre Alberto Korda, o fotógrafo cubano que foi autir do retrato mais reproduzido no mundo – o guerrilheiro heróico – Ernesto “Che” Guevara.

A mostra, intitulada “Korda, Conhecido Desconhe- cido”, apresenta cerca de 200 fotografias retiradas dos arquivos pessoais do autor, versando sobre as criações de moda nos Studios Korda (a primeira ocupação do fotógrafo) para depois prosseguir pela “beleza da mulher”, por retratos do povo, do mar e, finalmente, os lideres revolucionários. A este último incómodo os patrocinadores (a Câmara Municipal de Lisboa) não se poderiam, naturalmente, furtar. Esta exposição é uma visão redutora, que pretende tornar invisível, pessoalizando os intervenientes da revolução popular que conquistou Havana no dia 1 de Janeiro de 1959. Faz hoje precisamente 51 anos.
O filme exibido em paralelo na Cordoaria é também parcial, uma vez que cria artificialmente uma “ilha Korda” (por via do tal famoso retrato) no meio do mar agitado da Cuba revolucionária, enquanto ignora outros autores de imagem, trabalhadores genuínos e não ícones dos Media. A mostra atinge finalmente o clímax com a inscrição na parede de um slide que desperta deveras a atenção: Alberto Korda teria morrido em Paris (em 2001) nos braços de uma jovem trinta anos mais nova que ele – ao que Fidel teria comentado “esse é mesmo o Korda que eu sempre conheci”.
Pois é, estes revolucionários são lixados, só querem é cobrir
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Leda e O Cisne, Corregio, 1531, GemaldeGalerie Staatliche, Berlim

Lamenta-se, mas o verdadeiro objecto documental não é o que se apresenta na exposição “Korda, Desconhecido&Tal”. O objecto que deveria estar a ser projectado seria “KordaVision, Uma revelação Cubana”, um documentário do realizador cubano Hector Cruz Sandoval de 2005. Alberto Diaz Gutierrez Korda viveu de facto esses anos loucos 50 e 60, do rum e da moda sob a ditadura de Fulgêncio Batista, o que não impediu que viesse a ser nomeado o fotográfico oficial da revolução. Mas em conjunto com ele cresceram também grandes repórteres de imagem como, entre outros, Raúl CorralesLiborio Noval e Roberto Salas, que são aqui recebidos pelo Comandante Fidel Castro - enfim, trabalhos de um colectivo que reúne imagens poderosas que causaram grande impacto por todo o mundo. Minudências que decerto não interessam aos promotores publicitários mais interessados em ícones para t-shirts

Clique na imagem para redireccionar.1:26:54
(legendado em castelhano)

quinta-feira, dezembro 31, 2009

os corvos sobre a seara

na ligação sob o titulo acima, cita-se uma sondagem que afirma que 58% dos americanos estão de acordo com o uso de processos de tortura sobre terroristas com a finalidade das autoridades poderem obter informações sobre ameaças à segurança interna. E se as ameaças forem inventadas para adquirir unanimidade na opinião pública sobre as acções governativas no controlo das populações? precisamente, para lhes ocultar o verdadeiro terrorismo ?

(...) e de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias
para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

Excerto do “Reconhecimento à Loucura” de Almada Negreiros
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quarta-feira, dezembro 30, 2009

"não há indícios contra Sócrates"…

Costuma dizer-se que há muitas maneiras de mentir; porém a mais repugnante de todas é dizer a verdade, toda a verdade, ocultando a alma dos factos

Presidente do Supremo (STJ) diz que houve "desconsideração" pela regras e por isso as escutas entre Armando Vara e o primeiro-ministro têm de ser destruí- das, assim: “O conteúdo dos 'produtos' em que interveio o PM, se pudesse ser considerado, não revela qual facto, circunstância ou referência de ser entendido ou interpretado como indício ou sequer como uma sugestão de algum comportamento com valor para ser ponderado em dimensão de ilícito criminal
Em época de reconhecimentos festivos, José Sócrates recebeu esta prendinha de luxo devidamente encenado à la Karl Lagerfeld, o tal que dizia: “Todos os costureiros almejavam ser grandes Artistas, porém acabaram a fazer roupa. É igual ao que pretende toda a Alta Sociedade, com a diferença que estes apenas a podem vestir” - obviamente, Sócrates, como mero manequim apenas veste a roupa que outros poderes lhe determinam. Apesar de defraudar alguns milhões de pessoas nos negócios da economia paralela do Estado neoliberal com obsuras entidades privadas, agora vestiram o tipo de gajo sério...
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terça-feira, dezembro 29, 2009

“Sinais de Fogo”

as histórias do quotidiano que já estavam escritas, face às tentativas do novo regime para as re-escrever como "grandes narrativas".

(…) estávamos de resto desabituados de qualquer actividade desse tipo. No liceu, a única manifestação colectiva era, tradicionalmente, uma greve comandada pelos dos últimos anos, a socos e pontapés nos pequenos (e com a já sabida invasão do pátio dos “pequenos”, para esse efeito), por ocasião do 11 de Novembro, Dia do Armistício, e que não era feriado. Ninguém pensava nos mortos da Grande Guerra, e não se tratava de uma afirmação de pacifismo: era apenas um costume pelo qual, quanto mais velhos, obrigávamos os mais novos a faltar às aulas naquele dia, tal como, anos atrás, haviam feito connosco. De politica, nenhum de nós sabia nada. Era como se tudo o que vinha nos jornais se passasse a séculos e milhares de quilómetros de distância. As nossas famílias não se interessavam por politica, senão em termos de “Ordem”, e louvavam-se da paz que o governo impusera a um país em desordem. Qual seria esta desordem e como era a ordem que o governo impunha, nós não fazíamos grande ideia. Os jornais falavam às vezes do caos administrativo e financeiro do passado, enaltecendo as providências do governo. Este, a julgar pelos jornais, ocupava-se em inaugurar obras públicas – lanços de estrada, chafarizes, casas do povo de não sei donde -, a propósito das quais invariavelmente eram recordados Afonso Henriques, Nun`Alvares, Vasco da Gama, e outros heróis menores.

Mas as trancendências do orçamento e da dívida pública ultrapassavam de muito as especulações das nossas famílias da média ou da alta burguesia. A “ordem” era o contrário de haver “revoluções”. Eu não me lembrava pessoalmente dessas revoluções do passado, que, na minha casa, se consubstanciavam no escândalo de uma criada, em 1910, quando do 5 de Outubro, ter assomado entusiasmada à varanda, para saudar com vivas os revolucionários que passavam. Minha mãe que não era monárquica nem coisa nenhuma, repusera a “ordem”, despedindo-a, o que, suponho, a família considerara um acto de coragem, equivalente ao das matronas ilustres como Dona Filipa de Vilhena. Na minha infância, ainda houvera “revoluções” que eram, para mim, inseparáveis de passarmos dois ou três dias no interior do quarto interior e escuro da casa, deitados no chão, “por causa das balas perdidas”, enquanto meu pai e o vizinho de baixo, na escada, discutiam de onde eram os tiros que se ouviam: a Penha de França, a Graça, a Ajuda, etc., sem chegarem a outro acordo que o resultante de, a um estrondo maior, meu pai voltar para dentro, e recolher-se no quarto escuro, chamado pelos clamores lancinantes da minha mãe. Depois, as revoluções tinham efectivamente acabado, ou abortavam longe e em silêncio, esmagadas suplementarmente pela severidade dos periódicos (que meu pai lia alto, com grandes assentimentos de cabeça) e por grupos de pesvadores da Nazaré ou lavradeiras do Minho, que, com os seu trajes típicos, vinham ao Terreiro do Paço, com os regedores na frente e a banda de música, oferecer flores aos salvadores da ordem, que se juntavam todos numa janela a agradecer, como eu e outros, escapados ao liceu, havíamos ido ver uma vez. Mas, de um modo geral, a minha família toda abstinha-se de “politicas”, coisa que era reservada a uma espécie humana que nela não tinha representação: os “políticos”, olhados todos com irónica displicência, mesmo que fizessem parte do grupo dos mantenedores da ordem tão desejada.

A família reprovara mesmo, e escamoteara como uma doença secreta, o telegrama de aplauso, que um tio meu (num momento de entusiasmo subsquente à última revolução que havíamos passado debaixo das camas) mandara ao governo. Só muitos anos mais tarde descobri que um irmão da minha mãe, que morrera jovem e tuberculoso, havia sido – apenas nas leituras de traduções baratas – “anarquista!”. Minha avó materna jamais falava nele, e creio que não acreditara nunca em que ele tivesse morrido mordido, nos pulmões, pelo bacilo de Koch, mas, na cabeça, pelo de Kropotkine. Claro que, ainda no liceu, o “Anschluss” fora discutido e a Guerra da Etiópia também. Mas as ascenção de Hitler, cujo nome começava a ser conhecido, não parecia, mesmo no noticiário dos jornais, como uma ameaça às democracias, mas sim como uma perturbação da “ordem” estabelecida pelos “Aliados” na Primeira Grande Guerra. E Mussolini era muito louvado oficialmente, ainda que com discrição, pela autoritária organização do progresso de Itália. Todavia a Guerra da Etiópia não era o mesmo que o “Anschluss”…
Que se unissem povos da mesma língua e da mesma raça, não nos parecia coisa por aí além. Que se atacassem o Negus e os “rases”, que o noticiário apresentava habilmente na contradição de serem uns selvagens quase antropófagos, que se recusavam às delicias do progresso, em nome de uma independência que datava desde Salomão e a Rainha do Sabá (e todos nós conhecíamos, de nome, muito mais a Etiópia do que a Áustria, já que esse país figurava nas pompas onomásticas dos reis de Portugal, que sabíamos de cor desde a escola primária), eis o que era, sem dúvida, uma agressão. Não o eram, é claro, as campanhas de ocupação africana, que andavam então na moda oficial: os italianos não tinham sido, na verdade, os descobridores da Etiópia, como nós o havíamos sido de tudo e da Etiópia também. Era, de resto, nestes termos de passado histórico que tudo era avaliado; e, a tal ponto as coisas nos eram distanciadas, que a República fora proclamada em Espanha, sem que déssemos por isso. Para mim, a Espanha era meramente um nome, e a multidão de espanhóis que costumavam veranear na Figueira da Foz, e atroavam com a sua agitação e a sua gritaria as ruas dos “cafés”.

E, no meu tempo, já as espanholas haviam sido batidas, no campo da prostituição, pela concorrência nacional. Na Figueira, elas não faziam vida, porque os compatriotas logo tratavam de as repatriar, por causa do bom nome da Espanha, a menos que fossem as bailarinas do Casino, que essas, muito lambidas e com sapateados, exemplificavam, para admiração dos portugueses, a grande arte da Hispânia. Conheci uma vez no “Pasapoga” de Madrid, uma dessas repatriadas da Figueira: todos os anos ia passar o Verão com a família, graças ao pudor patriótico (…) Jorge de Sena, "Sinais de Fogo", Obras Completas, Guimarães Editores, 2009

"A História é uma espécie de ecrã, sobre o qual projectamos as nossas visões do futuro. É um filme animado, à custa dos nossos medos e aspirações" (Carl Becker)

O actual revivalismo monárquico que certos “historiadores”, como Rui Ramos, vêm trabalhando, tem tanta legitimidade como o poder que foi transmitido directamente do fascista Francisco Franco para o Rei Juan Carlos da Casa de Bourbon. Através do historiador Manuel Rós Aguda viemos finalmente a saber, passados 60 anos, que a Espanha franquista depois de ter assinado o Pacto Tripartido com o regime Nazi alemão, se propunha invadir Portugal (com quem tinha assinado outro pacto de não agressão). Talvez daqui a outros 60 anos se venha a saber da credibilidade, quem é e para que interesses trabalha Rui Ramos. Quanto ao fantoche que empresta a efígie à causa, dito o rei sem trono Duarte Pio, ele próprio outro prolegómeno da casa dos Bourbon, esse já leva obra da qual o podemos conhecer perfeitamente bem. De facto, o candidato a bobo sem Corte é autor de um opúsculo laudatório do Beato Nuno, onde se pode ler esta pérola:

Quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol»

(“D. Nuno de Santa Maria - O Santo”, ACD Editores, 2005)
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segunda-feira, dezembro 28, 2009

os Votos ou a Revolta? ou a bissetriz entre ambos?













Na ilusão reflectida na mente das pessoas com formação humanista cristã (1), o Espírito, seria a Vida, enquanto, segundo São Paulo, a submissão aos prazeres da Carne seria a morte.
É com esta segunda percepção do Medo da morte que os poderes instituídos contam para incorporar a contestação e o ressentimento perante a miséria humana. Se lermos de facto bem a Bíblia, a compilação de estórias a que chamaram Livro nada mais faz que aterrorizar constantemente os crentes. Enquanto a Igreja desvia as atenções da salvação terrena: é “ao Estado” que competiria resolver as razões porque os individuos não vivem em segurança perante a constante ameaça aos direitos humanos (a paz, o pão, a saúde, a educação, a habitação, e finalmente a liberdade). Mas trata o Estado sonhado pelo “socialismo neoliberal” (2) efectivamente destes pontos?

Adágio - Spartakus e Frigia



A estafada mundivisão de São Paulo é um bom mote para se pensar o papel da Violência perante o poder do Estado (3), violência que em caso algum deveria ser usada contra ou a favor do Estado – conforme a vetusta personagem Daniel Oliveira teve a ousadia de afirmar num dos jornais fulcrais do regime - acontece que o Estado é uma instituição de classe criada pela classe dominante com a finalidade de oprimir aqueles que pensam que a sua participação na sociedade se deverá restringir apenas ao exercício do voto – um acto aparentemente livre mas que, pelas razões óbvias e mais que exaustivamente explicadas, está à partida viciado

Spartakus e a reforma das estruturas do Poder



(1) "Há uma campanha, mais subtil, menos subtil, no sentido de corroer todos os esteios, todos os alicerces que fazem parte do Portugal cristão. (...) Mas o que impressiona mais é que vem dos responsáveis politicos ou governamentais, que estão a pontapear Portugal"
(Bispo Manuel Martins, em declarações à Radio Renascença)
(2) O vocabulário oficial corrompeu o uso das palavras. Imaginei a expressão "socialismo neoliberal" como sendo original na definição e diferenciação dos partidos, ditos "de esquerda", mas cujos directórios são de facto aderentes ao sistema de poder instituido. Mas, depois de uma busca rápida pela internet, o primeiro a usar entre nós a expressão foi Francisco Madeira Lopes nesta crítica ao PS. A que, na refrega pós-eleições e no desejo de participação no Poder, se poderá agora acrescentar a ala social-democratizante do BE.
(3) "o País está para o futuro como o perú está para o Natal"
(Pedro Norton, revista Visão)
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domingo, dezembro 27, 2009

Filhos do 11 de Setembro

Contos Infantis e Realidade


“sendo os homens aquilo que são, deus só podia ser mau (…) tanto tempo sem dar noticias e agora aqui está de novo, vestido como quando nos expulsou do paraíso (…) és responsável pela primeira morte, por teres desprezado injustamente o sacrifício de caim (…) és sanguinário, caprichoso, sádico ” (José Saramago)

¿Onde está o Mal? (Andrea Blanqué, escritora uruguaia)

Explicar a uma criança o que é o Mal é uma das tarefas mais difíceis que um progenitor pode ter diante si. Todas as crianças começam por ir sabendo o que é o Mal, à medida que vivem e crescem. Toda a criança pergunta aos seus pais o porquê e exige uma explicação do adulto sobre a inversão de valores que o mundo sofreu face ao que se esperaria – da justiça – que resulta perante os seus olhos no contrário daquilo que seria de esperar.

Um dia calhou-me ser levada a um McDonald com a minha filha afim de comer um hambúrguer e nesse preciso instante uma miudita com a face marcada por uma golpe acercou-se de nós a pedir uma moedinha. Na porta do edifício do avô havia um contentor para o lixo que os moradores despejavam fora de horas. Uma vez a minha filha e eu observámos o ritual de um velhote de barba amarelada almoçando às 5 da tarde retirando sobras de um desses sacos deitados fora e devorando os restos de comida. A tudo isto a minha filha me perguntava o porquê, e quando o fazia olhava-me com olhos incrédulos, e eu então complicava-me numa explicação complexa ou então contestava com interjeições e monossílabos, ou somente a abraçava a tratava de celebrar junto com ela a angústia que produz a injustiça. Assim revivi a velha tristeza, o horror original que eu mesmo sinto desde há quarenta anos perante a pobreza do mundo. A todos os meninos se formam nós na garganta, quando começam a conhecer a pobreza. E paralelamente, um menino que começa a viver fá-lo escutando histórias, contos, literatura. Um menino que lê velhas histórias começa a sentir na pele o mal, começa a sentir a necessidade de olhá-lo de olhos abertos, pensar sobre ele.

No século XXI, os velhos e adorados contos de fadas falavam à minha filha do Mal do mundo que continua a doer, assim como décadas atrás me aconteceu a mim. Tenho revivido com ela a fome de Hansel e Gretel, quando os pais abandonam os pequenos heróis no bosque porque já não tinham um bocado de pão para lhes dar de comer. Revivi a sombra do infanticídio nesse conto, e também no relato terrível do Flautista de Hamelin, onde políticos fraticidas liquidam as jovens gerações por acção da sua corrupção e ganância. Passamos muito tempo juntas, lendo em livros repletos de desenhos o que significa o trabalho infantil: uma boa quantidade de meninas dos contos de fadas realizam penosas tarefas domésticas. Acarretam baldes de água, esfregam roupas finas, vestem outras andrajosas. São meninas que trabalham de sol a sol, que se não o fizerem são violentamente castigadas, como as meninas que habitam nos subúrbios das nossas cidades.

Claro que as meninas da Gata Borralheira, Branca de Neve, a Fada do Bosque e a Menina com Cabeça de Burro… de imediato se convertem em princesas. É legitimo pensar que os contos infantis ajudam a ultrapassar a dor e a ver o ardor da fome como algo de transitório e passageiro. Mas nesses contos todos os personagens se querem comer uns aos outros. Assim os lobos esfomeados dos 7 Cabritinhos e do Capuchinho Vermelho terminam com as barrigas empanturradas, depois de satisfazerem a sua ânsia ancestral de devorar. O lobo dos Três Porquinhos acaba por cair por uma chaminé em cima de uma frigideira de azeite a ferver digna de um refeitório para sem abrigos. Já tinha comido os outros dois porquinhos e ainda assim perseguia comer o terceiro. O Gato das Botas, um feroz ogre que pode devorar o mundo inteiro termina convertido num ratão que é devorado por um gato, que se transforma no nosso herói. Acabar com a fome é um dos eixos desses contos maravilhosos.

Os contos de fadas vêm da Europa: hoje a Europa é o mundo dos ricos, o palácio dourado onde todos os andrajosos do terceiro mundo querem chegar mediante alguma varinha mágica à terra onde os os ratos se convertem em criados de libré. Até há quase cinquenta anos e durante séculos na Europa houve fome e meninos desnutridos, como agora ainda há por todos os cantos da América Latina. Hoje os europeus já se esqueceram da fome, porém deixaram-nos os seus contos, legaram-nos os seus livros, milhares de páginas que falam de dor. A literatura é a cicatriz dos povos que sofreram a miséria humana. Sem dúvida, não é de crer que a literatura deva impor-se a si mesma por falar de dor. Não é necessário. A dor se filtrará através dela, sempre, como um pesadelo num sono repousante, ou como a febre que se instala no corpo.
Penso nas minhas personagens, nos personagens dos meus contos e novelas que são da classe média e da classe média baixa. Nenhuma das minhas histórias se passa num condominio fechado. Creio que não poderia escrever uma novela onde o protagonista fosse o filho de um grande financeiro. Não creio que o consiga. Talvez requeira um esforço de hedonismo que não me permite fabricar esse ambiente. Não o farei. Não me creio inocente nem culpada, simplesmente escrevo. Logo, a questão da verossimilhança é um assunto sagrado. Mas se escrevo sobre a miséria atroz que pensarão os leitores? Há uma resposta óbvia, transparente. Não é forçoso escrever sobre o mundo da dôr, porque a dôr está aí, antes de nos pormos a escrever sobre nada. Ela chega e humedece tudo aquilo que cada um faça, percebe-se, ouve-se, apalpa-se. Nada escapa à dor. As minhas personagens vêem-na passar, vêem o mal, ele está aí e é impossivel ignorá-lo quando qualquer de nós sai às ruas das nossas cidades.

Não é necessário fazer proselitismo para denunciar o Mal, porque nos encontramos num mundo possuido por ele, uma mancha que não é possível apagar, que é impossível dissimular. É possivel sanear o mundo, aliviar a dor com os livros, com a literatura, com histórias que alguns seres humanos imaginaram e deixaram registadas numa substância química orgânica chamada papel? Sabemos que os livros reverteram a dor de alguns seres humanos. Dizem que a novela de Harriet Beecher-Stowe, a Cabana do Pai Tomás, contribuiu seriamente para a abolição da escravatura. Dizem que foi um exemplo de como a literatura pode modificar a História. (assim Caim pudesse também pôr termo à crendice religiosa). No entanto, sentimo-nos certamente impotentes frente ao Mal. Pensar que cada livro que se escreva será como a Cabana do Pai Tomás que melhorará o mundo é certamente estúpido. Porém sabemos muito bem que o mundo afectado pela dor é aquele que é o mais mostrado na ficção, precisamente porque não há outro. Diz-se que todo o escritor é livre de escrever sobre o que quiser. Cada um pode criar um palácio dourado e ser feliz por o criar. Porém, por mais contos de fadas que um escritor invente, sempre ficará colado entre as páginas a fome de Hansel e Gretel, a antropofagia da Bruxa, o frio que congela a andorinha do Polegarzinho, a ameaça de violação da Menina do Capuchinho Vermelho no meio do bosque, a orfandade do Patinho Feio, a perna mutilada do Soldadinho de Chumbo, as esposas agredidas e assassinadas pelo Barba Azul

Realidade - voltou o mau tempo:
"Trichet apela à redução dos défices na zona euro"

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