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sexta-feira, junho 06, 2014

a República de jure existe, mas a Monarquia à espanhola subsiste

A história começa com a exaltação da "Glória da Monarquia Espanhola" um fresco pintado na abóbada das escadarias do austero Mosteiro do Escorial pelo italiano Tiepolo contratado por Carlos III. Glória mas foi no século XVI. A maquete original da cena foi entretanto, simbolicamente, parar ao NY Metropolitan Museum of Art nos Estados Unidos. Ao centro a figura da Espanha é erguida a tiros de canhão contra indígenas desarmados e debilitados rodeados pela habitual escumalha impávida de deuses greco-romanos. É esta malta que confere o Poder ao "rei pela gracia de díos". Os mesmos que abençoaram com a mesma consignia o ditador genocida Francisco Franco. Por economia de meios, reduzidos ao Deus inquisitorial a cuja sombra se albergaram os empresários que trouxeram a prata e o ouro das conquistas com que se esculpiram os quatro leões da Sala do Trono no Palácio Real, o maior palácio da Europa. Um século depois de perdido o Império, será neste local que se realizará a cerimónia de abdicação do actual Rei Don Juan Carlos, rei pela devolvida graça da "democratização" do Franquismo nos idos de há 40 anos, outros tantos quantos os do reinado de Franco, um patriota que salvou a Espanha da crise aberta em 1936, no elogio feito por Juan Carlos

Antigamente nem os reis nem os papas abdicavam, as vestes de púrpura e arminho eram para eles gloriosas mortalhas, os monarcas reinavam até ao seu último suspiro. Neste momento há na Europa dois Papas e dois Reis de Espanha (1) e demais diversas parelhas de pulhas que se alternam em funções. É um modelo que faz escola. Apodrecem antes de morrerem, Seria desejável que se pirassem como o faziam os Centuriões que partiam para a guerra aclamados pelo Povo, uma missão impossível, quando não há inimigo credível e o inimigo passou a ser o povo.

Por estranhas razões fáceis de compreender a intempestiva abdicação foi anunciada na forma de contra-informação televisiva. O primeiro ministro neoconservador Mariano Rajoy tinha acabado de fazer na noite anterior o anúncio de um importante aumento de impostos (antes das eleições tinha prometido baixá-los) e enquanto o “partido da oposição” de Rubalcaba (como o Tozé Seguro português) se digladia em supostos congressos ao melhor estilo gótico. El-Rey (como o nosso Cavaco) tem vindo a ser suportado por uma estranha camarilha de meia dúzia de personalidades fascistas apostados em perpetuar o bipartidarismo borbónico e a corrupção geral que lhe está associada e deteriorou a Corôa. Com o príncipe das Astúrias entronizado, se o regime tivesse as mãos limpas, todos os que até aqui não engoliam a Monarquia terão a partir de agora dois reis em vez de um.

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entoa-se o himno de riego, içam-se as bandeiras republicanas
Segundo o Inst. Nacional de Estatistica espanhol, citado pelo El Mundo, a popularidade de Juan Carlos é de 3,72 pontos em 10. Nos anos 90 era mais do dobro. (2). A decadência do regime expressa-se pelo envolvimento do Rey (tal como em Portugal com Cavaco) com um governo sem prestigio, marcado pela corrupção das clientelas afectas ao Bloco Central, metade em exercício, outra metade numa “oposição” desencabeçada e desnorteada (tal qual os “socialistas” portugueses). A roubalheira ao erário público do real genro Iñaki Urdangarin e o envolvimento da filha Cristina (aka, de toda a famiglia real) no ilícito criminal cometido pelo marido que possivelmente a levará a sentar-se no banco dos réus, marca o fim do reinado deste Borbon.

El-Rey se bem conhece a síndrome do Rei Lear, de todas as traições e punhaladas corruptas saberia… Logo, o que está em causa é a realeza bater com os costados na prisão, como deveriam se houvesse justiça. Entre outras boutades que ajudaram à queda está a afirmação de Don Juan quando disse que não conseguia dormir, preocupado que estava com o desemprego jovem. Três semanas depois partia alegremente para uma caçada ao elefante acompanhado pela amante, deixando para trás a crise dos espanhóis, preocupações ecológicas, gastos exorbitantes e uma rainha cornuda. Existem inúmeros precedentes de traições das Cortes: o Desejado, filho do encornado Carlos V de Habsburgo, casado com a prima portuguesa Isabel, conspirou numa traição para entregar o reino ao corso Napoleão, numa das anteriores tentativas de “construir uma Europa una

Juan Carlos afirma que “a abdicação é o melhor para a Espanha”, indicando o filho cognominado de Felipe IV como sucessor. Mas o Estado não pode ser herdado como se fosse um cortiço de abelhas. Perante o “vazio legal” da abdicação do Rey, o novo chefe de Estado deve ser eleito por consulta popular aos cidadãos. Porém, nem a Esquerda nem os Republicanos têm maioria suficiente para implantar a República. Os últimos resultados para a composição das Cortes (o Parlamento se o regime fosse republicano) deram 185 deputados aos neoconservadores do Partido Popular, 110 aos “socialistas” do PSOE, 5 à UPyD e 3 deputados a pequenos partidos. A “Izquierda Unida”, o “Podemos” (3) e o “Equo” exigem um referendo. Fingindo ser de esquerda, claramente, os “xuxas” do PSOE suicidam-se quando apoiam a sucessão sem o voto dos cidadãos. Se se abrir um novo período constitucional e se vier a optar pela III República, o Presidente seria mais que provavelmente do PP, com a concordância do PSOE. É o momento propício, antes que caia ou seja seriamente posto em causa o regime. Tudo como dantes, rei morto, presidente ou rei posto. Muda-se de Rey, o processo continua. “Um novo Rey para as reformas que o país necessita, agora que está tão na moda falar na “Marca Espanha”. (4)

Como na “Marca Portugal”, uma questão de branding pós-político que toda esta gigantesca encenação esconde para que não se discuta o novo paradigma concertado ao abrigo do Tratado Transatlântico entre as elites dos Estados Unidos e da União Europeia. Os Estados enquanto entidades soberanas deixam de existir, os Povos agrupados em grupos regionais são submetidos a férreas direcções jurídicas e fiscais, o novo modelo da entidade “Estado” passa a competir em igualdade de circunstâncias com as grandes “Corporações” multinacionais, consoante a sua importância e volume de negócios.

(1) Adaptado a partir do artigo de Raúl del Pozo no El Mundo: “Amistad de corte, palabra de zorros, um mundo de lobos(aqui)
(2) Da popularidade da Monarquia Espanhola - um caso a apreciar pela Justiça  (aqui)
(3) 'Si el señor Felipe de Borbón quiere ser jefe de Estado que se presente a unas elecciones' (aqui)
(4) Editorial do El Mundo: "Un Rey para emprender las reformas que necesita España" (aqui)

2 comentários:

Anónimo disse...

bye, bye....."don juanito"......

Anónimo disse...
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